Detalhe da coroa votiva deRecceswinth do Tesouro de Guarrazar (Toledo,Espanha), exposto emMadri. As letras penduradas soletram[R]ECCESVINTHVS REX OFFERET [O Rei R. oferece].
Alguns autores defendem a origem do nome "visigodo" na palavraVisi ouWesa ("bom") e do nomeOstro, deastra (resplandescente).[2] Mas a opinião mais consagrada considera a origem da palavra na denominação de "godos do oeste", do alemão "Westgoten", "Wisigoten" ou "Terwingen", por comparação com osostrogodos ou "godos do leste" — em alemão "Greutungen", "Ostrogoten" ou "Ostgoten".[3]
Os vestígios visigóticos emPortugal eEspanha incluem várias igrejas e descobertas arqueológicas crescentes, mas destaca-se também a notável quantidade de nomes próprios e apelidos que deixaram nestas e noutras línguas românicas. Os visigodos foram o único povo a fundar cidades na Europa ocidental após a queda do Império Romano e antes do pontuar doscarolíngios. Contudo o maior legado dos visigodos foi odireito visigótico, com oCódigo Visigótico, código legal que formou a base da legislação usada na generalidade da Ibéria cristã medieval durante séculos após o seu reinado, até aoséculo XV, já no fim daIdade Média.
Os visigodos nunca foram chamados de "visigodos", apenas de "godos", até queCassiodoro utilizou o termo ao referir-se à derrota destes contraClóvis I naGuerra Franco-Gótica (507–511) por volta de 507. Cassiodoro terá inventado o termo baseando-se no modelo dos "ostrogodos", mas utilizando o nome mais antigo dosVesi, um dos nomes tribais que o poeta do século V,Sidónio Apolinário, já havia usado ao referir-se aos visigodos.[4][5] A primeira parte do nome ostrogodo está relacionada com a palavra "leste", eJordanes, o historiador medieval, mais tarde contrastou-os claramente na sua obraGética, afirmando que "os visigodos eram os godos do país ocidental".[6]
Segundo Wolfram, Cassiodoro criou esta distinção este-oeste dos godos, que não passava de uma simplificação e de um recurso literário, enquanto as realidades políticas eram muito mais complexas.[7] Cassiodoro usou o termo "godos" para se referir apenas aos ostrogodos, a quem servia, e reservou a referência geográfica "visigodos" para os godos galo-espanhóis. O termo "visigodos" foi posteriormente adotado pelos próprios visigodos nas suas comunicações com oImpério Bizantino e ainda estava em uso no século VII.[7]
Europa em 305 d.C.
Dois nomes tribais mais antigos, exteriores ao Império Romano, estão associados aos visigodos que se formaram dentro das fronteiras imperiais. As primeiras referências a quaisquer tribos góticas por autores romanos e gregos surgiram no século III, incluindo notavelmente osTervíngios, que foram referidos como godos porAmiano Marcelino.[8] Sabe-se muito menos sobre os "Vesi" ou "Visi", de onde derivou o termo "visigodo". Antes de Sidónio Apolinário, os Vesi foram mencionados pela primeira vez naNotitia Dignitatum, uma lista de forças militares romanas do final do século IV ou início do V. Esta lista contém também a última menção aos "tervíngios" numa fonte clássica.[8]
Embora não tenha mencionado os Vesi, tervíngios ou grutungos, Jordanes identificou os reis visigodos deAlarico I aAlarico II como sucessores do rei tervingio do século IV,Atanarico, e os reis ostrogodos deTeodorico, o Grande aTeodato como herdeiros do rei grutungoHermenerico.[9] Com base nisto, muitos estudiosos trataram tradicionalmente os termos "Vesi" e "Tervíngios" como referentes a uma tribo distinta, enquanto os termos "Ostrogothi" e "Grutungos" eram usados para designar outra.[10]
Wolfram, que defende a equivalência de Vesi com os tervíngios, argumenta que, embora as fontes primárias listem ocasionalmente os quatro nomes (por exemplo,Gruthungi, Austrogothi, Tervingi, Visi), sempre que mencionam duas tribos diferentes, referem-se ou a "Vesi e Ostrogothi" ou a "Tervíngios e Grutungos", nunca os emparelhando noutra combinação. Além disso, Wolfram interpreta aNotitia Dignitatum como equiparando os Vesi aos tervíngios numa referência aos anos 388–391.[11] Por outro lado, uma interpretação recente daNotitia sustenta que os dois nomes, Vesi e Tervíngios, surgem em locais diferentes na lista, "o que indica claramente que se trata de duas unidades militares diferentes, o que pressupõe que sejam, afinal, percebidos como dois povos distintos".[4]Peter Heather escreveu que a posição de Wolfram é "inteiramente discutível, mas o oposto também o é".[12]
Inscrição com a palavra Gutthiuda
Wolfram acredita que "Vesi" e "Ostrogothi" eram termos que cada tribo usava para se descrever de forma laudatória e argumenta que "Tervingi" e "Greuthungi" eram identificadores geográficos que cada tribo usava para descrever a outra.[5] Isto explicaria por que os últimos termos caíram em desuso pouco depois do ano 400, quando os godos foram deslocados pelasInvasões Hunas.[13] Wolfram acredita que as populações descritas porZósimo eram os tervíngios que tinham permanecido para trás após a conquista huna.[14] Na sua maioria, todos os termos que discriminavam entre as diferentes tribos góticas desapareceram gradualmente após a entrada no Império Romano.[5]
Muitos investigadores recentes, como Peter Heather, concluíram que a identidade do grupo visigodo emergiu apenas dentro do Império Romano.[15]Roger Collins também considera que a identidade visigótica surgiu daGuerra Gótica (376–382), quando um conjunto de tervingios, grutungos e outros contingentes "bárbaros" se uniu emfoederati multiétnicos (os "exércitos federados" de Wolfram) sob Alarico I nosBalcãs orientais; como se tinham tornado um grupo multiétnico, já não podiam reivindicar ser exclusivamente tervíngios.[16]
Outros nomes para as divisões góticas eram abundantes. Em 469, os visigodos foram chamados de "Godos de Alarico".[7] ATabela das Nações Francas, provavelmente de origem bizantina ou italiana, referia-se a um dos dois povos como osWalagothi, significando "Godos Romanos" (do germânico *walhaz, estrangeiro). Isto refere-se provavelmente aos visigodos romanizados após a sua entrada na Península Ibérica.[17]Landolfo Sagax, escrevendo no século X ou XI, chama os visigodos deHypogothi.[18]
O nomeTervingi poderá significar "povo da floresta", com a primeira parte do nome relacionada com o góticotriu e o inglêstree (árvore).[5] Esta tese é apoiada por evidências de que os descritores geográficos eram comummente usados para distinguir as populações que viviam a norte doMar Negro, tanto antes como depois do assentamento gótico, e pela falta de provas de que o par de nomes Tervingi–Greuthungi seja anterior ao final do século III.[19] A ideia de que o nomeTervingi tem origens pré-pônticas, possivelmente escandinavas, ainda colhe apoio atualmente.[20]Os visigodos são chamados deWesi ouWisi porTrebélio Polião, Claudiano e Sidónio Apolinário.[21] A palavra significa "bom" em gótico, implicando o "povo bom ou digno",[5] relacionada com o góticoiusiza ("melhor") e um reflexo doproto-indo-europeu *wesu ("bom"), aparentado com ogalêsgwiw ("excelente"), ogrego antigoeus ("bom") e osânscritovásu-ş. Jordanes relaciona o nome da tribo a um rio, embora tal seja provavelmente umaetimologia popular ou lenda, tal como a sua história semelhante sobre a origem do nome dos grutungos.[20]
Os visigodos emergiram como um povo distinto noséculo IV, inicialmente nosBálcãs onde participaram em várias guerras com os romanos, e por fim avançando porItália e saqueando Roma sob o comando deAlarico, no ano 410. Este povo conquistou noséculo III aDácia,província romana situada naEuropa centro-oriental. Noséculo IV, antes da ameaça doshunos, o imperadorbizantinoValente concedeu refúgio aos visigodos ao sul dorio Danúbio, mas a arbitrariedade dos funcionários romanos levou-os à revolta. Penetraram nos Balcãs e, em 378, esmagaram o exército do imperador Valente naTrácia, nas proximidades da cidade deAdrianópolis (atualEdirne).[22] Quatro anos depois, o imperadorTeodósio, o Grande conseguiu estabelecê-los nos confins daMésia Secunda, província situada ao norte dos Balcãs. Tornou-osfederados do império e deu-lhes posição proeminente na defesa. Os visigodos prestaram uma ajuda eficaz aRoma até 395, quando começaram a mudar-se para oeste. Em 401, chefiados porAlarico, que rompera com os romanos, entraram na Itália e invadiram a planície doPó, mas foram repelidos. Em 408, atacaram pela segunda vez e chegaram às portas deRoma, que foi tomada esaqueada em 410.
OReino Visigótico naPenínsula Ibérica esteve durante algum tempo sob o domínio dosostrogodos daItália, mas logo recuperou a sua velha autonomia. Até conquistar o domínio sobre toda a Península Ibérica, os visigodos enfrentaramsuevos,alanos evândalos, grupos de guerreirosgermanos que haviam ocupado a região desde antes de sua chegada. A unidade do reino teria sido completa já durante o reinado deLeovigildo, mas ficou comprometida por, dentre outros problemas, uma questão religiosa: os visigodos professavam oarianismo e os hispano-romanos eramcatólicos. O próprio filho de Leovigildo,Hermenegildo, chegou a sublevar-se contra o pai, depois de converter-se aocatolicismo. Mas esse obstáculo para a fusão com os hispano-romanos resolveu-se em 589, ano em que o reiRecaredo proclamou o catolicismo religião oficial daHispânia visigótica. Na realidade, as aristocracias goda e hispano-romana se encontravam de tal forma entrelaçadas, que a existência da diferença religiosa e de leis específicas para cada um dos grupos era naquele momento apenas uma barreira formal: na prática, os casamentos mistos eram comuns, e a própria divergência religiosa podia ser matizada, como se pode comprovar pelo facto de aIgreja Católica na região nunca ter passado por perseguições sistemáticas por parte da monarquia visigoda, até o reinado de Leovigildo.
Outro indício de que a diferença religiosa entre godos e hispano-romanos já não era um elemento de distinção fundamental (se algum dia o foi), é o facto de a própria rebelião do filho católico de Leovigildo ter sido apoiada também por aristocratas arianos. A conversão de Recaredo, noTerceiro Concílio de Toledo, em 589, marcou o início de uma estreita aliança entre a monarquia visigoda e a Igreja Católica ibérica, desenvolvida marcadamente ao longo doséculo VII, a qual ganharia uma expressão peculiar em textos de intelectuais eclesiásticos da época, cujo ícone mais famoso éIsidoro de Sevilha. A monarquia visigoda foi destruída em 711 pelainvasão muçulmana procedente donorte de África, que substituiria o Reino Visigótico porAl-andaluz.
Fim da monarquia, invasões e resistência (711-722)
A monarquia dos visigodos era eletiva. Com a morte do reiVitiza em c. 710, ascortes reuniram-se para eleger o seu sucessor, constituindo-se duas facções em disputa pela eleição: o grupo do seu filhoÁgila II e o deRodrigo, o últimorei visigodo de Toledo. Rodrigo foi eleito em cortes muito disputadas, provavelmente na primavera de 710, mas a facção que apoiava o filho de Vitiza não aceitou a sua eleição e iniciou-se um período de guerra civil.
Os partidários de Ágila solicitaram, então, apoio ao governador muçulmano deÁfrica,Tárique, abrindo-lhe as portas deCeuta e incitando-o a enviar uma expedição militar à Península, já que, desde o final doséculo VI, osjudeus vinham sendo perseguidos naquela região. Esta defesa era sustentada pelo facto de, desde 612, os regentes terem decretado obatismo compulsório de judeus, por decreto real, sob pena de confisco dos bens ou expulsão daquela terra.
Em 711, sob o comando do próprio Tárique, tropas muçulmanas atravessaram oestreito de Gibraltar e venceram os partidários deRodrigo naBatalha de Guadalete. Contudo, após a vitória, os muçulmanos não colocaram Ágila no trono e foram alargando as suas conquistas pela Península Ibérica, território designado emlíngua árabe comoAl-andaluz, da qual, por fim, ficaram senhores, colocando sob tutelacristãos ejudeus, pois ambos sofriam ataques e combatiam-se mutuamente.[23]
Abdalazize ibne Muça (ouAbdul-el-Aziz), primeirowalis (governador muçulmano) do Al-Andalus, subjugou aLusitânia e aHispânia Cartaginense, saqueando as cidades do norte que lhe abriam as portas e atacando aqueles que lhe tentaram resistir. Às suas investidas escapou, porém, uma parte dasAstúrias, no norte, onde se refugiou um grupo de visigodos sob o comando dePelágio. Umacaverna nas montanhas servia simultaneamente de paço ao rei e de templo de cristão. Por vezes, Pelágio e seus companheiros desciam das montanhas em surtidas para atacar os acampamentos islâmicos ou as aldeias despovoadas de cristãos. Um desses ataques, a designadaBatalha de Covadonga, travada em 722, marcou, segundo muitos historiadores, o início do longo processo de retomada dos territórios ocupados ao qual se deu o nome deReconquista.
A partir do pequeno território que Pelágio designou comoReino das Astúrias, os cristãos (hispano-godos elusitano-suevos), acantonados nas serranias do norte e noroeste da Península, foram, gradualmente, formando novos reinos, que se estenderam para o sul. Surgiram, assim, os reinos deCastela,Leão (de onde derivou, mais tarde, oCondado Portucalense e, subsequentemente,Portugal),Navarra eAragão. O reino das Astúrias durou de 718 a 925, quando o rei asturianoFruela II ascendeu ao trono doReino de Leão, unificando os dois reinos.
Detalhe da coroa votiva do rei visigodoRecesvinto († 672), em ouro e pedras preciosas. Parte doTesouro de Guarrazar oferecido pelos reis visigodos à Igreja Católica, como gesto de ortodoxia da sua fé e de respeito pela hierarquia eclesiástica da Hispânia
Os visigodos, assim como outrospovos germânicos, originalmente seguiam o que é hoje conhecido comopaganismo germânico. No início daIdade Média, os germânicos foram lentamente se convertendo aocristianismo, mas muitos elementos da cultura pré-cristã permaneceram firmes após o processo de conversão.
Existia, portanto, uma diferença religiosa entre os povoscatólicos da Hispânia e os visigodos, que professavam o arianismo. Os visigodos ibéricos mantiveram-se arianos até 589.[24] Existiam também divisões profundas entre a população católica da Península, anteriores à chegada dos visigodos. Logo no início do pontificados doPapa Leão I, nos anos 444-447, Turríbio, Bispo de Astorga, enviou a Roma um memorando avisando sobre a sobrevivência dopriscilianismo, uma corrente ascética, pedindo auxilio àSanta Sé.[25] Leão interveio, enviando um conjunto de normas que cada bispo deveria assinar: todos o fizeram. Contudo, um segmento significativo das comunidades cristãs ibéricas afastava-se da hierarquia ortodoxa e considerava bem vinda a tolerância dos visigodos arianos.
Os visigodos evitavam interferir entre os católicos mas estavam interessados nodecorum e na ordem pública.[26] Em 589, o reiRecaredo converteu o seu povo ao catolicismo. Com a conversão dos reis visigodos, os bispos católicos aumentaram o seu poder até, noQuarto Concílio de Toledo, em 633, tomaram para si o direito dos nobres, de escolher um rei entre a família real. A perseguição visigótica aos judeus começou após a conversão de Recaredo, quando em 633 este mesmo sínodo de bispos declarou que todos deveriam ser batizados.
Os visigodos caracterizaram-se pela imensa influência que receberam da cultura e da mentalidade política romana, realizando um importante trabalho de compilação cultural e jurídica. Destaca-se oDireito visigótico, com figuras comoIsidoro de Sevilha e obras jurídicas como oCódigo de Eurico, aLex romana visigothorum e oLiber iudiciorum,código visigótico que forneceu as bases da estrutura jurídica medieval naPenínsula Ibérica, que expressam o grau de desenvolvimento cultural que oReino Visigótico alcançou. Os visigodos influenciaram também formas artísticas originais, como oarco de ferradura e aplantacruciforme das igrejas.
Os poucos exemplares sobreviventes da arquitetura visigótica doséculo VI são a igreja deSant Cugat del Vallés emBarcelona, a ermida e igreja de Santa Maria de Lara, aCapela de São Frutuoso emBraga, aIgreja de São Gião naNazaré e alguns vestígios da Igreja de Cabeça de Grego, emCuenca. Contudo o seu estilo propagou-se nos séculos seguintes, embora os exemplos mais notáveis sejam rurais e estejam na maioria em ruínas. Os visigodos influenciaram formas artísticas originais, como oarco de ferradura e aplantacruciforme das igrejas.
↑sobre o papel desta religião veja-se a entrada sobreLeovigildo.
↑Pouco depois, oPapa Simplício(r. 468–483) nomeou como vigário papal Zenão, o bispo católico deSevilha, de modo que as prerrogativas da Santa Sé pudessem ser melhor exercidas para um culto mais disciplinado.
↑Pelo menos um visigodo notável,Zerezindo,duque daBética, era católico em meados doséculo VI.