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Varíola

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
 Nota: Este artigo é sobre a doença erradicada em 1980. Para doenças de nome semelhante vervaríola dos macacos ouvaríola bovina.
Varíola
Criança com Varíola (Bangladesh, 1973)
EspecialidadeInfectologia
SintomasIniciais:Febre,vómitos, úlceras na boca[1]
Tardios:Bolhas com líquido que evoluem para crostas[1]
ComplicaçõesCicatrizes na pele,cegueira[2]
Início habitual1 a 3 semanas após exposição[1]
DuraçãoCerca de 4 semanas[1]
CausasVariola major,Variola minor (transmitida entre pessoas)[2][3]
Método de diagnósticoBaseado nos sintomas e confirmado porRCP[4]
Condições semelhantesVaricela,impetigo,molusco contagioso,varíola dos macacos[4]
PrevençãoVacina contra a varíola[5]
TratamentoCuidados de apoio[6]
PrognósticoRisco de morte: 30%[1]
FrequênciaErradicada (último caso em 1977)
Classificação e recursos externos
CID-111E70
CID-10B03
CID-9050
DiseasesDB12219
MedlinePlus001356
eMedicineemerg/885
MeSHD012899
A Wikipédia não é um consultório médico. Leia o aviso médico 

Varíola, conhecida popularmente comobexiga oubexigas,[7][8][9] foi umadoença infecciosa causada por uma de duasestirpes dovírus da varíola —variola major evariola minor.[3] O último caso natural da doença foi diagnosticado em outubro de 1977, o que levou aOrganização Mundial de Saúde a certificar aerradicação da doença em 1980.[6] O risco de morte após contrair a doença era de cerca de 30%, sendo superior em bebés.[2][10] Entre os sobreviventes, as sequelas mais comuns eram a extensa cicatrização da pele ecegueira.[2]

Os sintomas iniciais mais comuns de varíola eramfebre evómitos.[1] Aos sintomas iniciais seguia-se a formação deúlceras na boca eerupções cutâneas na pele.[1] Após vários dias, as erupções cutâneas evoluíam parabolhas características, repletas de líquido e com uma depressão ao centro.[1] A determinado momento, as bolhas ganhavam crostas e desprendiam-se, deixando cicatrizes na pele.[1] A doença era transmitida diretamente entre pessoas ou através do contacto com objetos contaminados.[2][11] A prevenção era feita com avacina contra a varíola.[5] Nos casos em que a doença já tinha sido contraída, podiam ser usados algunsantivirais.[5]

Desconhece-se a origem da varíola.[12] As primeiras evidências da doença encontram-se emmúmiasegípcias datadas doséculo III.[12] Ao longo da História a doença ocorreu emsurtos.[6] Estima-se que noséculo XVIII morressem de varíola na Europa cerca de 400 000 pessoas por ano e que um terço dos casos resultasse em cegueira.[6][13] Entre as mortes causadas por varíola estão as de trêsmonarcas reinantes e uma rainha consorte.[6][13] Estima-se que ao longo doséculo XX a varíola tenha causado entre 300 e 500 milhões de mortes.[11][14][15][16] Em 1967 ocorriam ainda 15 milhões de casos por ano.[6]

Em 1798,Edward Jenner descobriu que avacinação era capaz de prevenir a varíola.[6] Em 1967, a Organização Mundial de Saúde intensificou as medidas para erradicar a doença.[6] A varíola é uma das duas doenças infecciosas erradicadas até à data, a par dapeste bovina, erradicada em 2011.[17][18]

Sinais e sintomas

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Uma criança infectada com varíola.

Há dois tipos de varíola, a varíola maior (ou apenas varíola) e a varíola menor ou alastrim, com os mesmos sintomas mas muito mais moderados. O período de incubação é de cerca de doze dias. Os sintomas iniciais sãosemelhantes aos da gripe, comfebre, mal-estar, mas depois surgemdores musculares, gástricas e vômitos violentos. Após infecção do tracto respiratório, o vírus multiplica-se nas células e espalha-se primeiro para os órgãos linfáticos e depois via sanguínea para apele, onde surgem aspústulas típicas, primeiro na boca, depois nos membros e em seguida generalizadas.[carece de fontes?]

Diagnóstico

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O diagnóstico se faz por análise pelomicroscópio electrónico de líquido das pústulas. Os vírus são característicos e facilmente visíveis. A varíola não tem cura. A única medida eficaz é a vacinação.[carece de fontes?]

Prevenção

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Avacina é baseada na administração de vírus vivovaccinia, aparentado da varíola e que causa a doençavaríola bovina no gado e em humanos que tenham contato com as feridas do animal.[19]

História

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Ver também:História social dos vírus

Desde sempre a varíola foi a causa deepidemias mortíferas. Teria surgido naÍndia, sendo descrita naÁsia e naÁfrica desde antes daera cristã,[20] tendo sido a responsável mais provável daepidemia misteriosa catastrófica ocorrida emAtenas que, segundoTucídides, matou um terço da população, no ano de430 a.C., dando início ao declínio dessa civilização democrática. A doença era anteriormente desconhecida (Hipócrates não descreve nada parecido), e desapareceu novamente a seguir. A epidemia terá surgido de novo nos séculosII eIII, matando grande proporção da população totalmente não imune doImpério Romano, como mais tarde faria naAmérica.[carece de fontes?]

Segundo alguns autores conceituados (ohistoriadorWilliam McNeil entre outros) teria sido a queda da população de Roma e do seu império devido às doenças antes desconhecidas, como varíola,sarampo evaricela, que diminuíram a população do império ao ponto de leis serem decretadas determinando ahereditariedade das profissões, postos oficiais e redução daservidão dosagricultores antes livres, dando origem aofeudalismo. Nesta situação de debilidade, os povosgermanos e outros teriam encontrado a oportunidade de se estabelecer nas terras quase vazias devido à epidemia no império, de início com a aquiescência dos oficiais romanos, desesperados com a queda dosrendimentos fiscais. Só depois desta época a varíola teria sido frequente naEuropa, atingindo naturalmente as crianças não imunes, ao contrário das epidemias raras, que matam os adultos. A infecção das crianças, com morte das susceptíveis masimunidade para as sobreviventes, causa menos danos para uma civilização que a de adultos já ensinados, donde se explicam os graves problemas criados em Roma pela morte de adultos que não tinham encontrado a doença nas suasinfâncias. Os vestígios do vírus variólico foram encontrados em 2016, em uma múmia infantil enterrada em uma cripta de uma igreja naLituânia, que data de cerca de 1654.[21]

NaChina o panorama teria sido semelhante no período daDinastia Han. Acredita-se que esta doença tenha sido "importada" daÍndia (onde é adorada desde tempos imemoriais a Deusa da Varíola,Sitala) para as duas grandes civilizações dos extremos daEurásia, e não será talvez coincidência que foi precisamente nosséculo I eséculo II que as rotas comerciais para a Índia e arota da seda para a China foram estabelecidas pela primeira vez, ligando as três regiões com grande débito de mercadorias e comerciantes.[21]

Cerco deTenochtitlán, futuraCidade do México e capitalasteca porHernán Cortés.

A varíola foi uma das principais responsáveis pela dizimação da população nativa daAmérica após a sua importação daEuropa comColombo. NoBrasil foi primeiramente referenciada em 1563 naIlha de Itaparica[20] causando grande número de casos e óbitos, principalmente dentre povosindígenas. Juntamente com osarampo,varicela e outras doenças, matou muitosameríndios, derrotando e destruindo as civilizaçõesAsteca eInca.[carece de fontes?]

Acredita-se que a varíola tenha sido introduzida propositadamente na população nativa pelo exército deHernán Cortés[20] eFrancisco Pizarro para derrotar as civilizações nativas daAmérica Pré-colombiana. No caso doImpério Inca, a disseminação da varíola tinha se espalhado com extrema rapidez, ocasionando a morte do Inca (imperador) e dos seus sucessores imediatos, antes mesmo dosespanhóis chegarem nosAndes. A morte do inca e seus sucessores levou o Império à guerra civil, permitindo aos espanhóis conquistá-lo em seguida.[carece de fontes?]

NaInglaterra doséculo XVIII a varíola era responsável por cerca de 10% dos falecimentos, e mais de um terço deste eram em crianças. Outro lugar doVelho Continente e também doReino Unido que teve uma taxa de mortalidade com varíola como causa de morte é a vila deFoula, localizada emShetland, uma ilha no Norte daEscócia, onde em 1700 pelo menos mais de 90% da população deFoula foi dizimada e atualmente só restam 30 habitantes.[22][23] e diferentemente de outras localidades do planeta, a ilha de Foula ficou com a população estável desde1700 e, ao contrário dos seres humanos, ospôneis deFoula conseguiram se reproduzir normalmente e manter a população depôneis viva. Com isso, a varíola, fez com queFoula se tornasse o local do planeta com a maior quantidade de pôneis por habitante.[24]

No início doséculo XVIII, práticas de injetar o vírus em crianças com vírus vivo da doença que eram comuns naChina e noOriente Médio foram importadas para aEuropa Ocidental, começando peloReino Unido, julga-se que Mary Montague, que trouxe a nova técnica praticada noImpério Otomano para o seu país. Para convencer os seus concidadãos, a própria família real inglesa foi inoculada publicamente. Era recolhido pus de pústulas e com algodão e com uma seringa, a secreção era injetada em uma outra pessoa. A mortalidade da doença acabou caindo para 1%, já que as crianças que estavam com seu sistema imunológico em formação, reduzindo a possibilidade de 40% de infecção da doença por contato aéreo.[carece de fontes?]

Edward Jenner descobriu o vírusvaccinia.

Edward Jenner em1796 reparou que as mulheres que retiravam o leite das vacas não contraíam a varíola e acabou descobrindo que a sua imunidade devia-se à infecção não perigosa comcowpox (vaccinia ovaríola bovina, da palavra emlatim para esse animal,vacca). Ele propagou a prática de usar acowpox para a inoculação prévia do vírusvaccinia, descobrindo avacina. Esse método de imunização ainda se denomina hoje vacina devido ao vírusvaccinia.[carece de fontes?]

Em 26 de outubro de 1977, registrou-se naSomália o último caso de varíola transmitida naturalmente. Em 11 de agosto de 1978 mais um caso seria registrado, curiosamente emBirmingham: na Europa, a varíola já se encontrava erradicada há décadas. Janet Parker, uma fotógrafa médica que trabalhava no mesmo corredor onde se manipulava o vírus da varíola, adjacentemente a um laboratório da faculdade médica daUniversidade de Birmingham, veio a acidentalmente contrair a doença através de tubos de ventilação e morreu.[25] O vírus hoje é guardado em dois centros governamentais bem vigiados, osCentros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) deAtlanta,EUA e peloInstituto Vector emKoltsovo, naRússia.[26] Em 2002, no encontro anual daOMS emGenebra, naSuíça, os representantes dos 191 países-membros da organização aprovaram a recomendação de não destruir as amostras, por conta do risco de uma epidemia artificialmente gerada por extremistas. A morte de cinco pessoas por causa deantraz nos Estados Unidos, depois dos atentados de 11 de setembro emNova York eWashington, aumentaram o medo de que extremistas recorram aarmas biológicas ouquímicas.[27]

Em 1979, a vacinação foi encerrada no Brasil. A imunidade produzida pela vacina dura cerca de 30 anos.[28]

Só foi possível eliminar a varíola porque osseres humanos são os únicos hospedeiros, só há um serótipo (logo a imunização protege contra 100% dos casos), e avaccinia é eficaz e como vírus vivo que invade ainda que debilmente células, provoca resposta imunitária vigorosa. Além disso a vacina é barata e estável.[carece de fontes?]

No entanto, a doença voltou às manchetes de jornal, em virtude da suposição de que ela possa ser utilizada como arma biológica. Em consequência desses temores todo o pessoal militar dosEUA foi vacinado, assim como o então presidenteGeorge W. Bush.[carece de fontes?]

Em 2016, com o degelo dospermafrosts árticos das áreassubpolares ousemi-subpolares maiscontinentais da no Extremo Norte daEuropa Setentrional como aNenétsia, onde nesses permafrosts havia cadáveres antigos (do final do século XIX e início do século XX) com amostras antigas de vírus extremamente perigosos datadas da mesma época dos cadáveres, acabam se tornando livres e passaram a contaminar as pessoas, com isso aumentando as chances da varíola retornar e voltar a gerar surtos como gerava na época daIdade Média. O temor surgiu após a morte de um menino de 12 anos em alguma parte remota, inóspita, pouco habitada e bem interiorana daNenétsia e 20 pessoas ficarem infectadas após 75 anos sem casos graves decarbúnculo.[29][30]

Em 2022, a procura pela vacina no Brasil aumentou novamente durante osurto de varíola dos macacos em 2022. No entanto, a vacina não está disponível nem na rede pública nem na rede privada no Brasil.[28]

Ver também

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Referências

  1. abcdefghi«Signs and Symptoms».CDC (em inglês). 7 de junho de 2016. Consultado em 14 de dezembro de 2017 
  2. abcde«What is Smallpox?».CDC (em inglês). 7 de junho de 2016. Consultado em 14 de dezembro de 2017 
  3. abRyan KJ, Ray CG, eds. (2004).Sherris Medical Microbiology 4th ed. [S.l.]: McGraw Hill. pp. 525–28.ISBN 978-0-8385-8529-0 
  4. ab«Diagnosis & Evaluation».CDC (em inglês). 25 de julho de 2017. Consultado em 14 de dezembro de 2017 
  5. abc«Prevention and Treatment».CDC (em inglês). 13 de dezembro de 2017. Consultado em 14 de dezembro de 2017 
  6. abcdefgh«Smallpox».WHO Factsheet.Cópia arquivada em 21 de setembro de 2007 
  7. POSITIVO, Grupo (2010).míni Aurélio. Curitiba: Positivo. pp. 102–773.ISBN 978-85-385-4240-7 
  8. S.A, Priberam Informática.«Dicionário Priberam da Língua Portuguesa».Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Consultado em 23 de novembro de 2024 
  9. «Bexiga».Michaelis On-Line. Consultado em 23 de novembro de 2024 
  10. Riedel, S (janeiro de 2005).«Edward Jenner and the history of smallpox and vaccination».Proceedings (Baylor University. Medical Center).18 (1): 21–25.PMC 1200696Acessível livremente.PMID 16200144.doi:10.1080/08998280.2005.11928028 
  11. abLebwohl, Mark G.; Heymann, Warren R.; Berth-Jones, John; Coulson, Ian (2013).Treatment of Skin Disease E-Book: Comprehensive Therapeutic Strategies (em inglês). [S.l.]: Elsevier Health Sciences. p. 89.ISBN 978-0-7020-5236-1 
  12. ab«History of Smallpox».CDC (em inglês). 25 de julho de 2017. Consultado em 14 de dezembro de 2017 
  13. abHays, J.N. (2005).Epidemics and Pandemics: Their Impacts on Human History (em inglês). [S.l.]: ABC-CLIO. pp. 151–52.ISBN 978-1-85109-658-9 
  14. Lawson, Stephanie (2015).Theories of International Relations: Contending Approaches to World Politics (em inglês). [S.l.]: John Wiley & Sons. p. PT19.ISBN 978-0-7456-9513-6 
  15. Henderson, D (2009).Smallpox : the death of a disease. [S.l.]: Prometheus Books. p. 12.ISBN 978-1-61592-230-7 
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  17. Guidotti, Tee L. (2015).Health and Sustainability: An Introduction (em inglês). [S.l.]: Oxford University Press. p. T290.ISBN 978-0-19-932568-9 
  18. Roossinck, Marilyn J. (2016).Virus: An Illustrated Guide to 101 Incredible Microbes (em inglês). [S.l.]: Princeton University Press. p. 126.ISBN 978-1-4008-8325-7 
  19. Andréa Hespanha (2 de junho de 2005).«UFMG e Fiocruz recebem financiamento para estudar varíola bovina» 
  20. abcHermann G. Schatzmayr (novembro de 2001).«A varíola, uma antiga inimiga».Cadernos de Saúde Pública.17 (6). Consultado em 19 de janeiro de 2008 
  21. abOldest traces of smallpox virus found in child mummy Variola DNA in 17th century remains is more direct evidence than earlier mummies’ pockmarks por Meghan Rosen (2016)
  22. «Cidade menos populosa do país, Serra da Saudade perde habitantes». G1 Globo. 30 de agosto de 2016. Consultado em 11 de outubro de 2016 
  23. «Menor cidade do país tem cerca de 800 moradores e segue encolhendo». 31 de agosto de 2016. Consultado em 11 de outubro de 2016 
  24. «Uma ilha que possui 1.500 pôneis e apenas 30 pessoas».greenMe. 11 de outubro de 2016. Consultado em 12 de maio de 2021 
  25. Rimmer, Monica (10 de agosto de 2018).«How smallpox claimed its final victim».BBC News (em inglês) 
  26. «Os últimos dias da varíola»(PDF). Revista Manguinhos, Fundação Oswaldo Cruz. Maio de 2005. Consultado em 18 de março de 2020 
  27. «OMS adia destruição do vírus da varíola». BBC Brasil. 18 de maio de 2002. Consultado em 18 de março de 2020 
  28. abOliveira, Thaísa (27 de maio de 2022).«Varíola dos macacos faz brasileiros buscarem vacina abandonada há mais de 40 anos».Folha de S.Paulo. Consultado em 5 de junho de 2022.Cópia arquivada em 27 de maio de 2022 
  29. «Varíola, cólera, peste... Doenças que assolaram a humanidade podem voltar?». UOL. 12 de setembro de 2016. Consultado em 15 de setembro de 2016 
  30. «Surto de antraz deixa 20 infectados e um morto na Rússia» 

Ligações externas

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