AQuarta-feira de Cinzas é o primeiro dia daQuaresma nocalendário litúrgico daIgreja Católica. Ascinzas que os fiéis recebem nesse dia possuem um caráter simbólico, remetendo ao chamado à conversão, àpenitência e à mudança de vida, bem como à recordação da condição frágil e transitória da existência humana, sujeita à morte.[1]
A data ocorre quarenta dias antes daPáscoa, quando não se contabilizam osdomingos no cômputo quaresmal, ou quarenta e seis dias antes, quando estes são incluídos. O seu posicionamento no calendário varia a cada ano, pois depende dadata da Páscoa, podendo situar-se entre o início defevereiro e a segunda semana demarço.[2][3]
Natradição da Igreja Católica Apostólica Romana, a Quarta-feira de Cinzas é considerada um dia de particular recolhimento e reflexão sobre a mortalidade humana e a necessidade de arrependimento. Durante a celebração daMissa, os fiéis recebem a imposição das cinzas por umsacerdote, que as deposita sobre a cabeça ou sobre a testa, acompanhando o gesto com as fórmulas litúrgicas: “Lembra-te que és pó e ao pó hás de voltar” ou “Convertei-vos e crede no Evangelho”. Esse rito tem raízes em práticas bíblicas doAntigo Testamento, nas quais o uso de cinzas estava associado ao arrependimento, à penitência e à humildade diante de Deus. Tradicionalmente, muitos fiéis conservam as cinzas visíveis ao longo do dia.[4]
Por iniciar o tempo quaresmal, a Quarta-feira de Cinzas ocorre no dia imediatamente posterior ao término doCarnaval. Em outras tradições cristãs, a organização do período quaresmal apresenta diferenças: naIgreja Ortodoxa, a Quaresma tem início na chamada Segunda-feira Limpa, anterior à Quarta-feira de Cinzas; norito ambrosiano da Igreja Católica, praticado sobretudo emMilão, o início da Quaresma ocorre no domingo seguinte, não havendo celebração da Quarta-feira de Cinzas, e o período carnavalesco estende-se até o sábado precedente, conhecido comoSabato Grasso.[7]
No âmbito da disciplina da Igreja Católica, a Quarta-feira de Cinzas é um dos dias em que se prescrevem, de modo obrigatório, as práticas dojejum e da abstinência de carne. Essas práticas estão tradicionalmente explicitadas noquarto mandamento da Igreja, segundo o qual os fiéis são chamados a observar os dias e tempos de penitência estabelecidos pela autoridade eclesiástica. A finalidade dessas normas é favorecer a conversão interior, a penitência e a preparação espiritual para a celebração da Páscoa.
O jejum, conforme a legislação canônica vigente, consiste na realização de uma única refeição principal ao longo do dia, sendo permitidas duas pequenas refeições, que, em conjunto, não devem equivaler a uma refeição completa.[8] A obrigação do jejum aplica-se, de modo geral, aos fiéis maiores de idade até o limite estabelecido pelo direito canônico, podendo haver dispensas por motivos de saúde ou outras causas graves. A prática do jejum possui raízes antigas natradição cristã e é entendida como um exercício de domínio de si, de penitência e de solidariedade com os que padecem necessidades materiais.[9]
A abstinência, por sua vez, refere-se à proibição do consumo de carne de animaishomeotérmicos, como os mamíferos e as aves, sendo tradicionalmente permitidos alimentos de origem aquática. Essa distinção decorre de um costume histórico e disciplinar da Igreja, que atribuiu à privação de certos alimentos um caráter penitencial: o peixe sempre foi considerado um alimento mais simples e de digestão mais rápida. Na Quarta-feira de Cinzas e naSexta-feira Santa, a abstinência é obrigatória para os fiéis que atingiram a idade determinada pelas normas canônicas, e se estende a todas as outras sextas-feiras do ano, exceto as que coincidam com algumasolenidade.[10]
Essas práticas penitenciais são compreendidas como meios exteriores destinados a fomentar uma atitude interior de conversão, recolhimento e renovação espiritual, especialmente no início do tempo da Quaresma.
NaAntiguidade, o uso de cinzas estava associado, em diversos contextos culturais doOriente Próximo, à expressão de luto, tristeza profunda e arrependimento. No âmbito da tradição bíblica, as cinzas aparecem de modo recorrente como um sinal exterior de penitência, humildade e reconhecimento da própria fragilidade diante de Deus.
NoAntigo Testamento, oLivro de Jonas relata que, após a pregação doprofeta aos habitantes deNínive, estes responderam com gestos penitenciais, como o jejum e o uso de pano de saco, e o rei ordenou que todos se cobrissem de cinzas, em sinal de arrependimento (Jonas 3). Esse comportamento é apresentado como expressão da conversão do povo, a qual levou Deus a poupar a cidade. De modo semelhante, em2 Samuel 13:19,Tamar espalha cinzas sobre a cabeça e rasga as suas vestes como sinal de dor e humilhação após ter sido violentada por seu meio-irmão. O gesto aparece também associado ao arrependimento pessoal, como emJó 42:5–6, quandoJó declara a Deus que se arrepende“no pó e na cinza”.
Osprofetas recorrem frequentemente a essa linguagem simbólica para convocar o povo à conversão.Jeremias exorta:“Ó filha do meu povo, veste-te de pano de saco e revolve-te nas cinzas” (Jeremias 6:26), enquantoDaniel descreve a sua súplica a Deus realizada com jejum, pano de saco e cinzas (Daniel 9,3). Os relatos sobre osMacabeus mencionam o uso de pano de saco e cinzas como sinal de penitência e preparação espiritual em momentos de provação (1 Macabeus 3,47 e 4,39).
Outras referências ao uso das cinzas podem ser encontradas em diversos livros bíblicos, como Números 19,Ester 4:1 eHebreus 9:13. NoNovo Testamento,Jesus faz alusão a essa prática penitencial ao afirmar que cidades pagãs comoTiro eSidom teriam se arrependido“vestindo-se de pano de saco e cobrindo-se de cinzas” diante dos sinais realizados em outras localidades (Mateus 11:21 eLucas 10:13). Esses testemunhos contribuíram para que, na tradição cristã, as cinzas fossem compreendidas como um símbolo de penitência, conversão e reconhecimento da condição frágil do ser humano diante de Deus.
↑NaIgreja do Brasil, aConferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) determinou que é possível, às demais sextas-feiras, fazer uma comutação da abstinência de carne por uma outra prática penitencial, obras de caridade ou depiedade. A abstinência de carne não é obrigatória em sextas-feiras que coincidam com algumasolenidade.[6]