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Psicose

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
 Nota: Para o filme de 1960, vejaPsycho.
Psicose
A Noite Estrelada deVan Gogh revela alterações na luz e cor semelhantes às manifestações de psicose[1][2][3]
EspecialidadePsiquiatria,psicologia
SintomasConvicção em falsas crenças,ver ou ouvir coisas que outras pessoas não veem ou ouvem, discurso incoerente[4]
ComplicaçõesAutolesão,suicídio[5]
CausasPerturbações mentais (esquizofrenia,perturbação bipolar),privação de sono, algumas condições de saúde, algunsmedicamentos, drogas (incluindoálcool ecannabis)[4]
TratamentoAntipsicóticos,psicoterapia, apoio social[5]
PrognósticoDepende da causa[5]
Frequência3% da população em algum momento da vida (EUA)[4]
Classificação e recursos externos
CID-10F20 a F29
CID-9290 a299
OMIM603342608923603175192430
MedlinePlus001553
A Wikipédia não é um consultório médico. Leia o aviso médico 

Psicose é uma perturbação damente que causa dificuldades em determinar o que é ou não real.[4] Os sintomas mais comuns sãodelírios (certeza de que sua ideia é verdadeira, apesar das evidências do contrário) ealucinações (ver, ouvir ou sentir sem um estímulo perceptível por outros).[4] Entre outros possíveis sintomas estão discurso incoerente, comportamento inapropriado para a situação e perder capacidade emocional.[4] Podem também ocorrerperturbações do sono,reclusão social, falta de motivação e dificuldades em desempenhar tarefas do quotidiano.[4]

As psicoses têm várias causas diferentes.[4] Entre as causas mais comuns estãoperturbações mentais como aesquizofrenia ouperturbação bipolar,privação do sono, algumas condições médicas, alguns medicamentos e drogas como oálcool ou acannabis.[4] Um dos tipos, denominadopsicose pós-parto, pode ocorrer após oparto.[6] Acredita-se que na causa esteja implicado oneurotransmissordopamina.[7] A psicose aguda é considerada primária quando resulta de uma condição psiquiátrica e secundária quando é causada por uma condição médica.[8] O diagnóstico de uma perturbação mental requer que sejam excluídas outras potenciais causas.[9] Podem ser realizados exames aosistema nervoso central para avaliar como potenciais causas doenças,toxinas ou outros problemas de saúde.[10]

O tratamento pode consistir emantipsicóticos,psicoterapia e apoio social.[4][5] Quanto mais cedo for iniciado o tratamento melhor aparenta ser o prognóstico.[4] A medicação aparenta ter um efeito moderado.[11][12] O prognóstico depende da causa subjacente.[5] Nos Estados Unidos, cerca de 3% da população desenvolve psicose em algum momento da vida.[4] A condição tem sido descrita desde pelo menos o séc. IV a.C. porHipócrates e possivelmente teria sido descrita noEgito em 1500 a.C. noPapiro Ebers.[13][14]

Sinais e sintomas

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Delírios

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Umdelírio é uma crença fixa e falsa,idiossincrática para o padrão de pensamento da sociedade e de uma cultura, e que não é mudada, mesmo com a apresentação de evidências contrárias[15][16]. Os delírios condicionam-se pelo contexto social, cultural e pessoal em que a pessoa está inserida. ODSM-5 considera uma crença ser delirante apenas se ela não é aceita ou compartilhada dentro de um contexto sócio-cultural[17].

Os delírios dividem-se por temáticas. O tipo de delírio mais comum é odelírio persecutório, no qual a pessoa tem a crença rígida e inflexível de que está sendo alvo de perseguição ou espionagem, sendo vítima de pessoas e/ou instituições que estão tentando causar algum mal a ela. Osdelírios de referência dizem respeito à significação especial e delirante de elementos/eventos neutros e aleatórios, como se houvesse uma mensagem por trás desses elemento/eventos (ex: a pessoa acreditar que uma placa de trânsito pode ter um sentido especial relativo à sua crença delirante). Osdelírios de grandeza, por sua vez, partem do princípio que a pessoa detém atributos especiais e poderosos que a torna alguém relevante (ex: a pessoa acredita ser famosa ou rica, ser capaz de controlar eventos que estão além da sua capacidade real de atuação).Transmissão ou difusão de pensamento é o delírio em que a pessoa acredita que seus pensamentos podem ser ouvidos ou transmitidos.Retirada de pensamento é o delírio no qual a pessoa acredita que seus pensamentos estão sendo retirados ou "roubados" de sua mente por força externas (ex: a pessoa acredita que uma antena de rádio pode estar roubando seus pensamentos). Ainserção de pensamento consiste na crença de que a pessoa tem pensamentos que não são seus e foram colocados por uma força externa. A crença de que há partes do corpo que pararam de funcionar ou que a pessoa diz está morta chama-seSíndrome de Cotard, e é um delírio considerado raro.[18]

Alucinações

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As alucinações são percepções sensoriais que ocorrem sem a presença de estímulo externo[19]. Alucinações não podem ser confundidas com distorções da percepção ou ilusões, que são apenas interpretações errôneas de estímulos externos[20]. As alucinações podem acontecer em todos os sentidos da percepção. Pode apresentar-se de forma simples (luzes, cores, sons, sabor, odores) até formas mais detalhadas e específicas (ver e interagir com animais e pessoas, ouvir vozes, ter sensações táteis complexas). A alucinação auditiva, especificamente a audição de vozes, é o tipo de mais comum de alucinação.

Características

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Sobre as principais características clínicas das psicoses, pode-se afirmar:

  • são psicologicamente incompreensíveis (segundoJaspers);
  • apresentam vivências bizarras, como delírios, alucinações, alterações da consciência do eu;
  • não existem alterações primárias na esfera cognitiva. Memória e nível de consciência não estão prejudicados, se isto acontece é devido a outras alterações clínicas (delirium), bem como devido a substâncias psicoativas.

Categorias

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Segundo aClassificação Internacional de Doenças, 10a edição, existem seis tipos de transtornos psicóticos[21]:

Interpretação psicanalítica

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Napsicanálise, a psicose corresponde a um funcionamento psíquico que obedece a um princípio de rejeição primordial, que corresponde ao termo alemão Verwerfung. A rejeição primordial consiste na expulsão de idéias ou pensamentos próprios, os quais passam a ser tratados como estranhos ou não acontecidos. Como um efeito dessa rejeição, pode ocorrer a cisão do eu em duas partes, uma que é reconhecida e outra que não é reconhecida como própria. Essa cisão caracteriza aEsquizofrenia. Quando ocorre que os pensamentos não reconhecidos como próprios são localizados em outras pessoas, através daprojeção, caracteriza-se a psicose comoparanoia.[23]

Apesar de Freud ter introduzido essas noções de cisão e projeção, considera-se que a psicose gerou dificuldades teóricas paraFreud, mas não paraLacan. Se o primeiro demonstrou-se hesitante em enquadrá-la teoricamente, concentrando-se naneurose, Lacan,[24] tomando-a constantemente em suas conferências, associou a Verwerfung àforaclusão (ou forclusão) donome-do-pai.

Interpretação fenomenológico-existencial

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As contribuições dafenomenologia e doexistencialismo napsiquiatria — representada porKarl Jaspers,Ludwig Binswanger,Medard Boss,Eugène Minkowski eR.D. Laing —, possibilitaram a construção de uma nova maneira de lançar olhar a experiência da psicose. Tais psiquiatras lançaram um olhar humanizado àloucura e desvendaram que há uma lógica de funcionamento da psicose.[25]

EmOEu dividido,Laing detalha a psicose como uma resposta extrema à despersonalização e fragmentação doself. Osujeito constrói um mundo interior rico, mas inacessível à realidade externa, criando um sistema de falso self[26]. O self verdadeiro e autêntico fica, portanto, isolado e distante da fachada de normalidade do falso self. Há, nessas pessoas, uma ruptura dupla: rompe-se com o mundo exterior e consigo mesma, com seu Eu[26]. A resposta do sujeito à alienação de si e do mundo é a psicose, uma saída desesperada do Self em construir um novo mundo, no caso, a experiência psicótica.

Sociedade e cultura

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Filosofia

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Michel Foucault, em seu textoA história da Loucura, aponta que aloucura (posteriormente chamada de psicose) poderia ser entendida como uma aberração da conduta em relação aos padrões em uma certa sociedade. Segundo Foucault, duas dimensões dessa loucura existiriam: a trágica e a crítica. Na trágica, o louco tem uma genialidade. Na crítica, o louco não tem a razão, e deve passar por tratamento médico. Foucault faz uma investigação sobre como a loucura foi tratada pela humanidade baseando-se na antiguidade. Ele acaba concluindo que o homem é uma invenção recente junto com a razão, neste sentido, entender a psicose é também buscar entender quais os padrões dominantes e quais as reações do grupo social à tais condutas estranhas e aos seus agentes.

Religião

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No Japão em uma área pouco religiosa, aproximadamente de 7 à 11% dos delírios tinham conteúdo religioso, geralmente associado com perseguição e culpa. Já nos Estados Unidos esse índice foi de 25% e 40% sendo comum também emtranstorno bipolar. Na Europa a prevalência foi de 21%, sendo de 24% na Inglaterra. Na Índia, dos 31 visitantes de um templo conhecido como tendo poderes curativos sobre doenças mentais, 23 foram identificados comesquizofrenia paranóide e 6 comtranstorno delirante. No Brasil os índices estão entre 15% e 33%. Os delírios religiosos costumavam ser mais incapacitantes, mais frequentes, mais graves, mais bizarros e necessitavam de mais medicamentos.[27]

Pacientes que relataram estar curados através de religião tiveram maior frequência de recaída que os outros pacientes. Pacientes que passaram por exorcismo ou feitiçaria retornaram com quatro vezes mais frequência.[28]

Pierre (2001) defende que, para que as crenças ou as experiências religiosas sejam patológicas, elas precisam causar prejuízos significativos a própria pessoa ou a outros. Se o desempenho social ou funcional não for prejudicado, então a crença ou experiência religiosa não é considerada patológica. É possível até que a religião ajude comomecanismo de enfrentamento focalizado na emoção, ou seja, ajudando a lidar com os fatores emocionais de um evento estressante.[29]

Referências

  1. Kelly, Evelyn B. (2001).Coping with schizophrenia 1st ed. New York: Rosen Pub. p. 25.ISBN 9780823928538 
  2. Maio, Dr Vincent Di; Franscell, Ron (2016).Morgue: A Life in Death (em inglês). [S.l.]: St. Martin's Press. p. 236.ISBN 9781466875067 
  3. Bogousslavsky, Julien; Boller, François (2005).Neurological Disorders in Famous Artists (em inglês). [S.l.]: Karger Medical and Scientific Publishers. p. 125.ISBN 9783805579148 
  4. abcdefghijkl«RAISE Questions and Answers».NIMH (em inglês). Consultado em 23 de janeiro de 2018 
  5. abcde«Psychosis».NHS. 23 de dezembro de 2016. Consultado em 24 de janeiro de 2018 
  6. «Psychosis Symptoms».NHS. Consultado em 24 de janeiro de 2018 
  7. «Psychosis Causes».NHS. Consultado em 24 de janeiro de 2018 
  8. Griswold, Kim S.; Del Regno, Paula A.; Berger, Roseanne C. (15 de junho de 2015). «Recognition and Differential Diagnosis of Psychosis in Primary Care».American Family Physician.91 (12): 856–863.ISSN 1532-0650.PMID 26131945 
  9. Cardinal, Rudolf N.; Bullmore, Edward T. (2011).The Diagnosis of Psychosis (em inglês). [S.l.]: Cambridge University Press. p. 279.ISBN 9781139497909 
  10. Foster, Norman L. (2011).The American Psychiatric Publishing Textbook of Geriatric Neuropsychiatry (em inglês). [S.l.]: American Psychiatric Pub. p. 523.ISBN 9781585629527 
  11. Leucht, S.; D. Arbter; R.R. Engel; W. Kissling; J.M. Davis (abril de 2009).«How effective are second-generation antipsychotic drugs? A meta-analysis of placebo-controlled trials»(PDF).Molecular Psychiatry.14 (4): 429–447.PMID 18180760.doi:10.1038/sj.mp.4002136. Consultado em 24 de março de 2013 
  12. Rattehalli, R.D.; Jayaram, M.B.; Smith, M. (5 de abril de 2010).«Risperidone Versus Placebo for Schizophrenia».Schizophrenia Bulletin.36 (3): 448–449.PMC 2879694Acessível livremente.PMID 20368309.doi:10.1093/schbul/sbq030 
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  14. Giddens, Jean Foret (2015).Concepts for Nursing Practice - E-Book (em inglês). [S.l.]: Elsevier Health Sciences. p. 348.ISBN 9780323389464 
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  19. Zmigrod, Leor; Garrison, Jane R.; Carr, Joseph; Simons, Jon S. (outubro de 2016).«The neural mechanisms of hallucinations: A quantitative meta-analysis of neuroimaging studies».Neuroscience & Biobehavioral Reviews (em inglês): 113–123.doi:10.1016/j.neubiorev.2016.05.037. Consultado em 27 de dezembro de 2025 
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  24. Lacan, J. (1998). De uma questão preliminar a todo o tratamento da psicose. In Escritos. pp. 537-590. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
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  27. KOENIG, Harold G.. Religião, espiritualidade e transtornos psicóticos. Rev. psiquiatr. clín. [online]. 2007, vol.34, suppl.1 [cited 2010-09-13], pp. 95-104. Available from: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-60832007000700013&lng=en&nrm=iso>. ISSN 0101-6083. doi: 10.1590/S0101-60832007000700013.
  28. Salib, E.; Youakim, S. - Spiritual healing in elderly psychiatric patients: a case control study in an Egyptian psychiatric hospital. Aging & Mental Health 5(4): 366-370, 2001.
  29. Pierre, J.M. - Faith or delusion: at the crossroads of religion and psychosis. Journal of Psychiatric Practice 7(3):163-172, 2001.

Ver também

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