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Prisciliano | |
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Nascimento | 340 Hispânia (Império Romano) |
Morte | 385 (44–45 anos) Tréveris (Império Romano) |
Ocupação | sacerdote,escritor |
Religião | cristianismo,Priscilianismo |
Causa da morte | decapitação |
Prisciliano de Ávila (Galécia,c. 340 –Tréveris,385) foi umbispoheregehispânico da cidade deÁvila (emlatim:Abila),[1] fundador dopriscilianismo. Foi, junto a outros companheiros, o primeiro herege cristão justiçado no cristianismo por uma instituição civil.[2]
Acredita-se que nasceu na Hispânia ocidental, provavelmente na província romana da Galécia, no seio de uma famíliasenatorial.[3] Por volta de 370 viaja a Burdigala (Bordéus) para se formar com oretórico Delphidius.[4] Nos arredores destacidade funda uma comunidade de tendência rigorista junto ao seumentor e a mulher deste, Eucrócia. É reconhecida uma relação com a filha de ambos, Prócula, emboraSão Jerônimo faz menção a uma mulher chamada Gala como seu casal oficial.[5] Seu principal adversário, Itácio deOssónoba (atualFaro),[6] atribui seus conhecimentos deastronomia emagia a um tal Marco de Mênfis, porém este nome parece remitir a um mago alexandrino doséculo I citado porSanto Ireneu no seuAdversus haereses. Por volta de 379, durante o consulado de Ausônio e de Olíbrio, volta ao noroeste peninsular e começa seu período predicante.[7] As suas ideias obtiveram grande sucesso, em especial entre as mulheres e as classes populares,[8] pela sua recusa à união daIgreja com oEstado imperial e àcorrupção e enriquecimento das hierarquias. Frente da rápida extensão dos seus ensinos, Higínio de Córdova, o sucessor deÓsio de Córdoba, envia uma carta informando da situação ao bispo da sede metropolitana deEmerita Augusta (capital daDiocese da Hispânia),Hidácio.
Estes dois bispos, junto a Itácio de Ossonoba, convocam oConcílio de Caesaraugusta (atualSaragoça) em 380 (outras fontes situam-no uns anos antes, em 378[9]), com o fim de condenar as ideias priscilianistas. A estesínodo acudiram dois bisposaquitanos e dez hispânicos, o que parece indicar uma forte e rápida expansão do movimentoascético iniciado por Prisciliano, mas a ausência dos dois principais bispos acusados de priscilianistas, Instáncio e Salviano, evita a condenação em firme. As atas dizem que o bispo deAstorga, Simpósio (pai de Dictinio, quem anos depois ocupará essa sede) abandonou o Concílio no segundo dia. Este prelado ocupará anos depois um lugar relevante entre os discípulos do herege galaico. O bispo Valério, anfitrião do sínodo, recolhe as recomendações deDámaso, bispo de Roma, de evitar a condenaçãoin absentia. Pouco depois esses dois bispos (Instáncio e Salviano) elevarão Prisciliano à sede vacante deAbula (Ávila).
Numa tentativa de acercar posturas, Instáncio e Salviano viajam a Emerita Augusta (Mérida) para se entrevistar com Hidácio, mas vêem-se obrigados a fugir de uma turba de exaltados arengada pelo bispo metropolitano.
Houve então um nutrido cruzamento de acusaçõesepistolares entre priscilianistas eortodoxos. É preciso levar em conta que a extensão dos ensinos de Prisciliano ocorre em todos os estratos sociais, incluindo muitas famílias influentes de quase todas as províncias hispânicas. Finalmente, uma carta enviada por Hidácio aAmbrósio, bispo deMediolano (Milão), onde se encontra a corte imperial, convence este para obter um rescrito doimperadorGracianoexcomungando ebanindo das suas sedes a Prisciliano e seus seguidores.
Corre o ano de 382 e Prisciliano decide viajar aRoma para se defender, mas o bispo de Roma,Dámaso (em plena pugna por obter a primacia da sede romana e converter-se, assim, no primeiroPapa "oficial"), bem como de família oriunda de Hispânia, recusa recebê-los por não se considerar competente para anular um rescrito do imperador. Finalmente viajam a Milão, e aproveitam a ausência de Graciano para convencer seumestre dos ofícios (magister officiorum) de que anule o anterior decreto imperial.
Assim regressa para a Hispânia, reafirmando a situação do seu grupo e conseguindo, de passagem, que Itácio seja acusado de perturbador da Igreja. Oprocônsul Volvêncio ordena a detenção do bispo antipriscilianista e este vê-se obrigado a fugir paraAugusta dos Tréveros (Tréveris), sob o amparo do bispo Britto.
Em 383 o também hispânicoMagno Máximo, governador daBritânia, cruza para aGália no comando de 130 000soldados fazendo fugir a Graciano, a quem finalmente assassina numa emboscada nas florestas deLugduno (Lyon). As suas legiões nomeiam-no novoimperator do Ocidente, mas esta nomeação não é vista com bons olhos porTeodósio I,imperador do Oriente. Esta situação delicada faz buscar apoios naIgreja Católica, que por sua vez precisava de amparo institucional para enfrentar os numerosos movimentos dissidentes que a assediam (arianos, rigoristas,ebionitas,patripassianos,novacianos,nicolaítas,ofitas,maniqueus, homuncionitas,catafrígios,borboritas, ou os próprios priscilianistas).
Nesse matrimônio de conveniência enquadra-se o desenvolvimento posterior dos acontecimentos: a Igreja oficial[10] enfrenta-se com um movimento popular muito estendido por toda aPenínsula Ibérica e boa parte das Gálias, eMagno Máximo deseja oferecer uma mão tendida em forma de condenação oficial ao priscilianismo. Porém, a aplicação de umasentença por heresia implica a confiscação por parte doEstado de todos os templos daseita, o que não interessa à hierarquia eclesiástica nem serve aos interesses do imperador. Assim é concebido um processo judiciárioad hoc que visa condenar os bispos hispânicos pormaleficium (bruxaria). Esta sentença, mais favorável às arcas do novo imperador, inclui o confisco de todas as propriedades pessoais dos acusados, os quais pertenciam a pudentes famílias hispânicas, sem afetar o patrimônio eclesiástico.
É convocado, então, um novo concílio em Bordéus[11] ao qual decidem acudir Prisciliano e vários dos seus seguidores, e no qual a heresia priscilianista é condenada de novo, mas somente obtémde fato a deposição de Instáncio da sua sede. Durante a celebração deste conclave uma multidão alheada lapida Úrbica, uma discípula de Prisciliano. Este abandona o conclave e dirige-se a Norte, a Tréveris, naGermânia Superior, onde Máximo estabeleceu sua corte, para convencer o imperador de que tercie em favor do seu grupo, sem saber que ali Itácio de Ossonoba já teceu a rede que acabará com a sua vida.
Em 385 Prisciliano chega a Tréveris, onde é acusado, através de Evódio, prefeito do imperador, da prática de rituais mágicos que incluemdanças noturnas, o uso de ervasabortivas e a prática daastrologiacabalística.
Após obter mediantetortura uma confissão do mesmo Prisciliano,[12] édecapitado[1] junto aos seus seguidores Felicíssimo, Armênio, Eucrócia (a viúva de Delphidius),Latroniano,[13] Aurélio e Asarino.
Esta ação provocou protestos dePapa Sirício,Ambrósio eMartinho de Tours.[14][15] Alguns apresentam o acontecimento como primeiro caso de pena capital de um herege,[16] outros como primeiro exemplo de intervenção da justiça secular numa questão eclesiástica.[17]
Algumas obras de Prisciliano foram consideradasortodoxas e não foram queimadas. Como exemplo, ele dividiu asepístolas paulinas (incluindo aEpístola aos Hebreus) numa série de textos sobre seus pontos teológicos e escreveu uma introdução para cada um. Estes cânones sobreviveram numa forma editada por Peregrino. Eles contêm um forte apelo a uma vida pessoal deascetismo e pureza, incluindo o celibato e a abstinência de carne e de vinho, reafirma os dons carismáticos de todos os crentes e obriga ao estudo das escrituras. Prisciliano também atribuiu considerável peso noslivros apócrifos, não como sendo inspirados, mas como úteis para distinguir a verdade do erro.[18][19][20]
Há muito se acreditava que todas as obras de Prisciliano tinham perecido até Georg Schepss descobrir em 1885 naBaviera, na Biblioteca da Universidade deWürzburg, ummanuscrito no qual encontra onze tratados. O diretor da biblioteca, Doellinger, sugere a autoria de Prisciliano, que finalmente confirma, e os tratados publicam-se em 1889. Os títulos desses onze tratados são:Liber Apollogeticus, de caráter doutrinal e no qual defende sua ortodoxia;Liber ad Damasum, escrito ao bispo de Roma, Dámaso, e similar ao anterior; Liber de fide et Apocryphis , no qual defende a leitura de textos apócrifos;Tratatus Paschae;Tratatus Genesis;Tratatus Exodi;Tratatus primi Psalmi;Tratatus tertii Psalmi;Tratatus ad populum I (incompleto) eII eBenedictio super fidelis. Também se revela que é Prisciliano, e não Jerónimo, como se acreditava, o autor dosCanones in Pauli apostoli epistolas, presentes em muitas bíblias europeias. Os seus tratados e cânones publicaram-se na Espanha em 1975. Já em 1882,Marcelino Menéndez Pelayo publicara alguns de eles naHistória dos heterodoxos espanhóis.
De acordo com a introdução de Raymond Brown na sua "Epístola de João", a origem daComma Johanneum, uma breve interpolação naPrimeira Epístola de João conhecida desde oséculo IV dC parece ter sido a obra emlatimLiber Apologeticus de Prisciliano.
Em 813 umeremita chamadoPelágio comunica aTeodomiro, bispo deIria Flávia, que na floresta da sua diocese chamadoLibredón vêem-se umas luzes estranhas. O bispo referirá depois ao reiAfonso II o Casto que, buscando a origem das luzes, encontrou umsepulcro, que não duvidou em atribuir imediatamente aoapóstolo Santiago. A notícia tornou-se oficial com oPapa Leão III.
Na realidade as primeiras novas (desde os textos bíblicos) de que o apóstolo tivera viajado de maneira póstuma às Hispânias aparecem, precisamente, na Hispânia, e precisamente nesse século. O primeiro texto escrito que faz referência a esta lenda é o gravado noTumbo A daCatedral de Santiago de Compostela, que reproduz a ordem de Afonso II o Casto de construir uma igreja em honra de Santiago. Este texto é datado de 829 ou 834, conforme diferentes autores. Outras fontes que citam o fenômeno deveneração emergente são omartirológio deFloro de Lyon (segundo terço doséculo IX) ou a Crônica deSampiro (ano 1000).
Em 893 os reisAfonso eXimena doam a Igreja de Arcos e suas possessões a Santiago, pedindo em troca operdão dospecados e a vitória sobre os inimigos. Doações similares sucedem-se em anos posteriores, começando a ser registada a notícia deperegrinos que acorrem para venerar os restos do apóstolo.
É durante o século X que o fenômeno da peregrinação começa a adquirir intensidade. Em 1126 oBispo Gelmires termina as obras da Catedral e ascende a sua sé à categoria dearcebispado, transladando-se definitivamente de Iria Flávia para Compostela.[21]
Em 1900 ohagiógrafo Louis Duchesne publicou um artigo[22] no qual sugere que em Compostela está enterrado Prisciliano, baseando-se na viagem que seus discípulos fizeram com os restos mortais do herege até à sua terra natal. Posteriormente Sánchez-Albornoz ouUnamuno difundiram esta hipótese alternativa àtradição cristã, que se tornou popular.
Opondo-se a esta teoria, monsenhor Guerra Campos indica a existência de um lugar que poderia ser o lugar de enterramento a saber de Prisciliano: Os Mártores, pertencente àparóquia deSan Miguel de Valga, naprovíncia de Pontevedra.[23] A teoria de Guerra Campos é baseada na denominação popular segundo a qual os discípulos justiçados emTréveris foram conhecidos, até muito tempo depois da sua morte: "os mártires" (em galego: "os mártores"), sendo este o únicotopônimo destas características naGaliza. Uma última teoria estabelece o possível lugar de enterramento de Prisciliano em Santa Eulalia de Bóveda, localidade próxima aLugo.[24]
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