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| Paul Kane | |
|---|---|
Paul Kane,auto-retrato c. 1845. | |
| Nascimento | |
| Morte | 20 de fevereiro de1871 (60 anos) |
| Cidadania | Irlando-canadiana |
| Ocupação | Pintor |
Paul Kane (Mallow,Cork,3 de setembro de1810 —Toronto,20 de fevereiro de1871) foi umpintorirlando-canadiano, famoso por seusquadros que retratam a população dasprimeiras nações doCanadáOcidental e de outrosnativos americanos deOregon Country.
Kane, artistaautodidata, cresceu emToronto (na altura conhecida comoYork) e treinou-se copiando os mestres europeus quando fez uma viagem de estudos pelaEuropa. Realizou duas viagens pelo noroeste selvagem canadiano em 1845 e de 1846 a 1848. Na sua primeira viagem de ida e volta de Toronto aSault Ste. Marie, conseguiu o apoio daCompanhia da Baía de Hudson para a segunda viagem, muito mais longa que a primeira, iniciando em Toronto, atravessando asMontanhas Rochosas atéFort Vancouver eFort Victoria naColúmbia Britânica, como os canadianos designavamOregon Country.
Em ambas as viagens, Kane fez esboços, pintou ospovos indígenas e documentou os seus modos de vida. Quando regressou a Toronto, produziu mais de uma centena depinturas a óleo baseadas nos esboços. Os trabalhos de Kane, em especial os seus esboços, são ainda um recurso valioso para osetnólogos. As pinturas a óleo completadas no seuestúdio são consideradas uma parte dopatrimónio cultural canadiano, embora, frequentemente ele as tenha embelezado consideravelmente, baseado na exactidão dos seus esboços, em favor de cenas mais dramáticas.
Kane nasceu emMallow,Condado de Cork(A) situado na actualRepública da Irlanda. Foi o quinto filho de oito, do casal Michael Kane e Frances Loach. O seu pai, soldado dePreston,Lancashire,Inglaterra serviu na Real Artilharia Montada até passar à disponibilidade em 1801. A família então foi residir na Irlanda. Algures entre 1819 e 1822, imigraram para oCanadá Superior, instalando-se em York, que mais tarde, em março de 1834, passou-se a designar por Toronto. Aí, seu pai adquiriu uma loja para a venda debebidas destiladas evinhos.

Não se sabe muito sobre a juventude de Paul Kane em York, que naquela altura era uma povoação de algumas centenas de habitantes. Entrou para oUpper Canada College onde por volta de 1830, começou a aprender as primeiras noções de pintura, com o professor Thomas Drury. Em julho de 1834, expôs pela primeira (e única) vez algumas das suas pinturas na exposição da "Sociedade de Artistas e Amadores" de Toronto, obtendo uma crítica favorável de um jornal local,The Patriot.[1]
Kane começou a sua carreira como pintor de letreiros e mobiliário em York, mudando-se paraCobourg,Ontário em 1834. Em Cobourg começou a trabalhar numa fábrica de mobiliário de Freeman Schermerhorn Clench, mas ia simultaneamente pintando algunsretratos de personalidades locais, incluindo o doxerife e o da esposa de Freeman. Em 1836, Kane mudou-se paraDetroit,Michigan, onde oartista James Bowman vivia.
Os dois tinham-se conhecido anteriormente em York. Bowman convenceu Kane que estudar artes naEuropa era uma necessidade para um aspirante a pintor, e planejaram viajar juntos para a Europa. Mas Kane teve de adiar a viagem, porque o dinheiro que possuía era pouco e não permitia pagar a passagem para a Europa e, além disso, Bowman tinha casado pouco tempo antes e não estava disposto a deixar a sua família. Nos cinco anos seguintes, Kane andou pelaRegião Centro-Oeste dos Estados Unidos, trabalhando como um itinerante pintor retratista, tendo viajado atéNova Orleães.
Em junho de 1841, Kane deixou a América, partindo de Nova Orleães a bordo de um navio com destino aMarselha, emFrança, tendo aí chegado cerca de três meses depois. Incapaz de arcar com os custos dos estudos de arte numaescola de arte ou com um mestre estabelecido, viajou pela Europa durante os dois anos seguintes, visitandomuseus de arte, onde lhe era possível estudar e copiar as obras dos velhos mestres. Até ao Outono de 1842, permaneceu emItália, antes de atravessar oPasso de São Bernardo, mudando-se paraParis e de lá paraLondres. Em Londres conheceuGeorge Catlin, um pintor americano que havia pintado nativos americanos naspradarias e que agora estava em uma turnê para promover seu livro,Letters and Notes on the Manners, Customs and Conditions of the North American Indians. Catlin proferiu uma conferência noEgyptian Hall emPiccadilly, onde também exibiu algumas de suas pinturas. No seu livro, Catlin argumenta que a cultura dos nativos americanos ia desaparecendo e devia ser registada antes da sua passagem ao esquecimento. Kane achou o argumento convincente e decidiu analogamente documentar os povos aborígenes canadianos.
Kane retornou no início do ano 1843 paraMobile,Alabama, onde montou um estúdio e trabalhou como pintor retratista até ter reembolsado o dinheiro que lhe tinham emprestado para sua viagem à Europa. Ele retornou para Toronto no final de 1844 ou no início de 1845 e imediatamente começou a preparar uma viagem para o Oeste.

Kane decidiu, em17 de junho de1845, viajar ao longo da costa Norte dosGrandes Lagos, visitando primeiramente areserva Saugeen.[2] No verão de 1845, após semanas a desenhar, chegou aSault Ste. Marie entre oLago Superior e oLago Huron. Tinha a intenção de viajar mais para Oeste, mas John Ballenden, um experiente oficial daCompanhia da Baía de Hudson estacionado em Sault Ste. Marie, contou-lhe das muitas dificuldades e perigos em viajar sozinho através do território ocidental e aconselhou Kane a só tentar tal façanha com o apoio da empresa. Após a Companhia da Baía de Hudson ter assumido o controle de sua concorrente, aCompanhia do Noroeste, deMontreal, em 1821, a totalidade do território a oeste dos Grandes Lagos até oOceano Pacífico eOregon Country era terra da Baía de Hudson, território largamente inexplorado e selvagem, com cerca de uma centena de postos isolados ao longo das rotas comerciais de peles. Kane retornou para Toronto para aí passar o inverno, substituindo os seus esboços de campo por telas a óleo. Na primavera do ano seguinte, foi para a sede da Companhia da Baía de Hudson emLachine (hoje parte de Montreal) tendo pedido à empresa do governadorGeorge Simpson para custear os seus planos de viagem. Simpson ficou impressionado com a capacidade artística de Kane, mas ao mesmo tempo preocupado com a hipótese de que Kane talvez não tivesse a resistência necessária para viajar com as colunas de caçadores de peles da empresa. Somente concedeu a Kane passagem nascanoas da empresa até aolago Winnipeg, com a promessa de plena passagem caso o artista não tivesse problemas na viagem até aí. Simultaneamente, encomendou a Kane, pinturas sobre o estilo de vida e comportamento dos índios e acompanhadas de instruções muito detalhadas sobre esses temas.

Em9 de Maio de1846, Kane partiu de Toronto, numbarco a vapor com a intenção de juntar-se a uma coluna de canoeiros de Lachine até Sault Ste. Marie. Após uma paragem, perdeu o barco, que partiu na véspera da manhã da que estava anunciada, obrigando-o a ir ao seu encalço por canoa. Chegando em Sault e apercebendo-se que a coluna de canoeiros já havia partido, ele navegou a bordo de umaescuna fretada, atéFort William, nabaía de Thunder. Conseguindo finalmente apanhar a coluna de canoeiros em 24 de maio, cerca de 56 km (35 milhas) após Fort William norio Kaministiquia.
Em 4 de Junho chegou aFort Frances, onde tinha à sua espera um bilhete de Simpson para prosseguir viagem. A sua próxima paragem foi noEstabelecimento de Red River (perto da actualWinnipeg). Aí, iniciou uma cavalgada de três semanas com um grupo demestiços, caçadores debisontes que iam caçar em terras dosSioux noDakota. No dia 26 de junho, Kane testemunhou e participou numa das últimas grandes caçadas debisontes que dentro de poucas décadas quase dizimou esses animais até a sua extinção. No seu regresso, continuou por canoa e por barco à vela, passando porNorway House,Grand Rapids e porThe Pas a norte dorio Saskatchewan atéFort Carlton. A partir daí, continuou a cavalo para emFort Edmonton testemunhar uma caçada aos bisontes pelosCree.

Em6 de outubro de1846, Kane deixou Edmonton indo paraFort Assiniboine, onde embarcou novamente numa coluna de canoeiros pelorio Athabasca até aEstalagem de Jasper, aonde chegou no dia 3 de novembro. Aqui, juntou-se à cavalaria, mas em breve tiveram de mandar os cavalos de regresso à Estalagem de Jasper e continuar em calçado próprio para a neve, levando apenas o essencial com eles, porque oPasso de Athabasca já estava coberto com maior quantidade de neve do que no ano anterior. Atravessaram a Passo de Athabasca em 12 de novembro e três dias mais tarde reuniram-se à coluna de canoeiros que os esperava para levá-los para ajusante norio Columbia.

Finalmente, Kane chegou aFort Vancouver em8 de dezembro de1846, principal posto e sede da Companhia da Baía de Hudson noterritório de Oregon. Permaneceu aí durante o inverno, desenhando e estudando osChinookan e outras tribos próximas e fazendo várias excursões, incluindo uma mais prolongada de três semanas através dovale do Willamette. Ele apreciou a vida social em Fort Vancouver, que nessa altura estava a ser visitado pelo navio britânicoModeste, tendo travado amizade comPeter Skene Ogden.
Em25 de Março de1847[3] Kane deslocou-se por canoa paraFort Victoria, que tinha sido fundado pouco antes para tornar-se a sede da nova empresa, uma vez que as operações em Fort Vancouver estavam a ser desativadas e realocadas em decorrência da conclusão doTratado de Oregon de 1846, que fixou as fronteiras continentais entre o Canadá e osEstados Unidos a Oeste dasMontanhas Rochosas, noparalelo 49 Norte. Kane subiu orio Cowlitz e permaneceu por uma semana entre as tribos que viviam nas proximidades doMonte Santa Helena antes de continuar a cavalo paraNisqually (actualTacoma) e, em seguida, por canoa novamente para Fort Victoria. Permaneceu por dois meses naquela região, viajando e desenhando entre os nativos americanos naIlha Vancouver assim como por todo oestreito de Juan de Fuca eestreito de Geórgia. Voltou para Fort Vancouver em meados de junho, de onde ele partiu de regresso para o Leste no dia1 de julho de1847.
Em meados de julho, Kane tinha chegado aFort Walla Walla(B), onde fez um pequeno desvio para visitar aMissão Whitman que alguns meses mais tarde seria o local domassacre Whitman. Kane foi comMarcus Whitman visitar osCayuse que viviam naquela área, tendo ainda desenhado o retrato de Tomahas (a que Kane dá o nome de "To-ma-kus"), o homem que mais tarde viria a ser nomeado como o assassino de Whitman. De acordo com relatório da sua viagem, as relações entre os Cayuse e os colonos na missão já estavam tensas na altura da sua visita em julho.

Kane continuou a cavalo, acompanhado por um guia, através doGrande Coulée atéFort Colville, onde permaneceu por um período de seis semanas, desenhando e pintando os nativos que haviam criado um campo de pesca a Sul emKettle Falls onde nessa altura osalmão subia o rio. Em22 de setembro de1847, Kane assumiu o comando de uma coluna de canoas que subiu orio Columbia, tendo chegado a 10 de outubro aBoat Encampment(C). O destacamento teve que aí esperar durante três semanas, por causa do atraso da chegada da tropa de cavalos oriunda deJasper. Fizeram então uma troca. A equipe que trouxe os cavalos pegou nas canoas e desceu orio Columbia, enquanto o grupo de Kane colocou a carga sobre os cavalos e dirigiu-se para opasso de Athabasca, tendo conseguido levar a tropa composta por 56 cavalos em segurança até a Estalagem de Jasper, apesar dos fortes nevões e frio intenso. Como as canoas já haviam partido, viram-se forçados a usar calçado próprio para a neve etrenós puxados porcachorros para chegarem aFort Assiniboine, tendo conseguido aí chegar duas semanas depois, após uma viagem sem mantimentos e em condições adversas. Após alguns dias de descanso, eles continuaram atéFort Edmonton, onde passaram o inverno.
Kane passou o tempo no forte com caçadores debisontes, tendo feito esboços sobre o povoCree que viviam nas imediações. Em Janeiro, empreendeu uma excursão paraFort Pitt a cerca de 320 km (200 milhas) abaixo norio Saskatchewan, tendo voltado em seguida para Edmonton. Em Abril, foi atéRocky Mountain House, onde pretendia encontrar-se com osBlackfoot. Como eles não apareceram, acabou por voltar para Edmonton.

Em25 de maio de1848, Kane deixou Fort Edmonton, viajando com um grande destacamento de 23 barcos e 130 pessoas vinculadas aYork Factory, liderado porJohn Edward Harriott.
Em 1 de Junho deparou-se com cerca de 1 500 guerreirosBlackfoot e de outras tribos preparados para a guerra, que estavam a planejar um ataque contra osCree e osAssiniboine. Nessa ocasião Kane conheceu o chefe blackfoot, Big Snake (Omoxesisixany). A coluna de canoas permaneceu o menor tempo possível e, em seguida, desceu o rio rapidamente. Em 18 de Junho chegaram aNorway House, onde Kane permaneceu durante um mês, esperando o encontro anual dos principais chefes daCompanhia da Baía de Hudson e a chegada do destacamento militar com o qual ele continuaria sua viagem.
Em 24 de Julho, partiu com o destacamento do Major McKenzie, viajando ao longo da costa oriental dolago Winnipeg atéFort Alexander. De aí em diante, Kane seguiu o mesmo caminho que tinha percorrido dois anos antes quando se dirigiu para Oeste: pelolago dos Bosques,Fort Frances, elago Rainy, viajou por canoa paraFort William e, em seguida, ao longo da margem norte dolago Superior até que alcançouSault Ste. Marie em1 de outubro de1848. Aí retornou aToronto numbarco a vapor, tendo desembarcado em 13 de outubro. Kane colocou uma nota no seu livro sobre esta última etapa do seu percurso: "o maior sofrimento que eu tive de suportar [agora], foi a dificuldade de tentar dormir em uma cama civilizada".

Kane residia agora, permanentemente em Toronto; foi para oeste, uma vez mais, quando foi contratado por um destacamento britânico em 1849 como guia e intérprete, mas só chegaram até aoEstabelecimento de Red River. Uma exposição de 240 dos seus esboços, em novembro de 1848 em Toronto foi um grande sucesso, e uma segunda exposição em setembro de 1852 mostrando oito telas a óleo também foi recebida favoravelmente.[4]George William Allan apercebendo-se das qualidades do artista, tornou-se o seu patrono mais importante, dando-lhe a incumbência de fazer cem pinturas a óleo pelo preço de 20 000Dólares canadianos (em 1852), o que permitiu a Kane levar uma vida como artista profissional. Kane também conseguiu em 1851 convencer oparlamento canadiano a encomendar doze pinturas pela soma de 500Libras esterlinas, que ele entregou no final 1856.
Em 1853, Kane se casou com Harriet Clench (1823-92), filha do seu antigo empregador em Cobourg. David Wilson, um historiador contemporâneo daUniversidade de Toronto, informa que ela era uma hábil pintora e escritora. Tiveram quatro filhos, dois filhos e duas filhas.
Até 1857, Kane conseguiu completar as obras encomendadas: mais de 120 telas a óleo para Allan, para o Parlamento e para Simpson. As suas obras foram expostas naExposição Universal de Paris de 1855, onde foram apreciadas de forma muito positiva, tendo mesmo algumas delas sido enviadas para oPalácio de Buckingham em 1858, para serem apreciadas pelarainha Vitória. Por essa altura Kane tinha preparado um manuscrito baseado nas notas da sua viagem e enviou-o para uma editora deLondres para publicação. Como não obteve resposta, viajou para Londres e, com o apoio de Simpson, publicou o livro no ano seguinte. O livro tinha como títuloWanderings of an Artist among the Indians of North America from Canada to Vancouver's Island and Oregon through the Hudson's Bay Company's Territory and Back Again e foi originalmente publicado pela Longman, Brown, Green, Longmans & Roberts, em Londres, em 1859, lindamente ilustrado com muitaslitografias dos seus próprios desenhos e pinturas. Kane tinha dedicado o livro a Allan, o que desagradou a Simpson de tal forma que este cortou relações com Kane. O livro foi um sucesso imediato e foi editado por volta de 1863 emfrancês,dinamarquês ealemão.
A acuidade visual de Kane diminuía rapidamente nadécada de 1860, o que o obrigou a abandonar totalmente a pintura.Frederick Arthur Verner, que tinha sido inspirado pelo próprio Kane e era um artista de cenas do "oeste americano", tornou-se um amigo próximo. Verner fez três retratos do envelhecido Paul Kane, um dos quais está hoje noMuseu Real de Toronto. Kane morreu inesperadamente numa manhã invernal em sua casa, quando voltava de seu passeio diário. Está enterrado no cemitério St. James em Toronto.[4]
O espólio das obras de Kane é constituído de mais de 700 esboços que fez durante suas duas viagens para o oeste e as mais de cem telas a óleo que ele mais tarde elaborou a partir deles, no seu estúdio em Toronto. Acerca dos seus primeiros retratos feitos em York ou Cobourg antes das suas viagens, Harper escreveu " [eles] são primitivos na abordagem, mas têm um apelo directo e uma calorosa coloração que os tornam atractivos".[3] O resto são um número desconhecido de pinturas do seu tempo como retratista itinerante, nosEstados Unidos, mais um número de cópias de pinturas clássicas que fez durante a sua estadia na Europa.
A fama de Kane resulta das suas descrições da vida dos nativos americanos. Os seus esboços de campo foram feitos a lápis,aguarela, ou óleo sobre papel. Ele também trouxe na volta de suas viagens uma colecção de diversos artefactos, tais como máscaras, cachimbos feitos de caules, e outros artesanatos. Todo este conjunto serviu de base para o seu trabalho posterior no estúdio. Ele utilizou este conjunto de impressões para suas grandes telas a óleo, nas quais normalmente as combinava ou reinterpretava para criar novas composições. Os esboços de campo são um recurso valioso paraetnologistas, mas os retratos a óleo, apesar de ainda conterem certos detalhes individuais do estilo de vida dos nativos americanos, são muitas vezes pouco verdadeiros em aspectos geográficos, históricos e etnográficos.
Um exemplo bem conhecido deste processo é o da pinturaFlathead woman and child, na qual ele combina um esboço de um bebéChinookan que tem a sua cabeça achatada por ficar atada com correias a um berço de madeira, com um esboço de campo desenhado posteriormente, de uma mulher Cowlitz vivendo em uma diferente região. Outro exemplo de como Kane elaborava os seus esboços pode ser vistos na sua pinturaIndian encampment on Lake Huron, que é baseada em um esboço feito no verão de 1845 durante a sua primeira viagem a Sault Ste. Marie. A pintura tem um notável bom gostoromântico, acentuado pela iluminação e pelas dramáticas nuvens, enquanto a cena descrita da vida no acampamento é uma reminiscência de uma idealizada cena campestres da Europa.
De facto, Kane criou frequentemente cenas fictícias nas suas pinturas a óleo, baseadas nos seus esboços. A sua tela a óleoMount St. Helens erupting, mostra uma enorme e dramática erupção vulcânica, mas no seu diário de viagem e nos esboços de campo, é evidente de que a montanha só libertava uma pequena coluna de fumo, aquando da visita de Kane (contudo, três anos antes tinha havido de facto uma erupção).
Em outros quadros Kane, juntou as imagens de esboços de rios desenhados em diferentes períodos e lugares, criando paisagens artificiais que não existiam na realidade. A sua pinturaThe Death of Big Snake apresenta uma cena totalmente imaginária: o chefe OmoxesisixanyBlackfoot faleceu só em 1858, mais de dois anos após a conclusão da pintura.

A sua inspiração provinha das pinturas clássicas europeias, mas Kane por motivos económicos compunha as suas pinturas a óleo no estilo tradicional maneirista europeu. Kane tinha necessidade de vender os seus quadros para ganhar a vida e conhecia suficientemente bem a sua clientela: os seus mecenas não gostavam de decorar as suas casas com quadros a óleo que fossem simplesmente cópias dos esboços de campo, exigindo algo mais apresentável e semelhante às expectativas da época.[5]
O embelezamento das imagens por Kane é evidente na sua pinturaAssiniboine hunting buffalo, um dos doze quadros pintados para o parlamento. O quadro foi criticado porque os cavalos aí representados assemelham-se mais aoscavalos árabes do que aos das raças dos cavalos usados pelos índios. Descobriu-se que essa composição era baseada numa gravura italiana de 1816, em que viam-se dois romanos a caçar um touro. Já em 1877,Nicholas Flood Davin, comentara sobre essa discrepância, afirmando que "os cavalos índios são cavalos gregos, as colinas têm muito das cores e formas daquelas[…] dos antigos pintores de paisagens europeias, …" eLawrence J. Burpee acrescentou na sua introdução à reimpressão em 1925 do livro de esboços da viagem de Kane que os esboços são "interpretações verdadeiras da vida selvagem" e tinha "em alguns aspectos, um elevado valor como arte".[6] Noséculo XX, a história da arte é menos severa na crítica do que Burpee, considerando que os esboços de campo de Kane são precisos e autênticos. Davis e Thacker escreveram "Kane foi um copiador no campo e artista no estúdio".[7]
Kane é geralmente considerado um pintor clássico e um dos mais importantes pintores canadianos. As onze pinturas feitas para o parlamento que ainda existem(D) foram transferidas em 1955 para aGaleria Nacional do Canadá. A grande coleção de Allan foi comprada porEdmund Boyd Osler em 1903 e doada em 1912 aoMuseu Real de Toronto. Uma coleção de 229 esboços foi vendida pelo neto de Kane, Paul Kane III por cerca de 100 000dólares americanos para oMuseu de Arte Stark emOrange,Texas, em 1957.[8]

Uma pintura rara dele mostrando o administrador colonialbritânicoJohn Henry Lefroy, que tinha estado na posse da família Lefroy na Inglaterra, gerou um preço recorde num leilão daSotheby's em Toronto em 25 de fevereiro de 2002, quando o milionário canadianoKenneth Thomson[9] ganhou o lance em 5 062 500dólares americanos incluindo o prémio do comprador (3 172 567,50dólares americanos naquele momento).[10] Thomson doou posteriormente a pintura como parte de sua colecção Thomson para aArt Gallery of Ontario. OGlenbow Museum emCalgary tem uma cópia desta pintura que se pensa ter sido feita por Harriet Clench esposa de Kane.[11] Outro leilão na Sotheby's em 22 de novembro de 2004, para a pintura a óleo de Kane,Encampment, Winnipeg River (após o esboço de campo mostrado acima) falhou quando a licitação parou em 1,7 milhões dedólares canadianos, menos do que o esperado preço de venda entre 2 a 2,5 milhões dedólares canadianos.[12]
O relatório da viagem de Kane, publicado originalmente em Londres, em 1859, foi um grande sucesso nessa data e tem sido reproduzido por diversas vezes noséculo XX. Em 1986 Dawkins criticou o trabalho de Kane baseado fundamentalmente no relatório da viagem, mas também pela natureza "europeia" das suas pinturas a óleo, como mostrado nas tendências imperialistas ou mesmo racistas do artista.[13] Esta opinião permanece bastante singular entre os historiadores de arte. O diário de viagem de Kane, que serviu de base para o livro editado em 1859, não contém qualquer julgamento pejorativo. MacLaren informou que as notas das viagens de Kane foram escritas num estilo muito diferente do texto publicado, de tal forma que ela deve ser considerada altamente provável que o livro tenha sido editado por outros, ou mesmo falseado para transformar as notas de Kane em notas vitorianas, e que assim, é difícil imputar qualquer percepção de racismo ao próprio artista.[14]
Como um dos primeiros pintores canadianos que conseguiu ganhar o seu sustento, só a partir do seu trabalho artístico, Kane acabou por deixar preparado o terreno para os artistas vindouros. As suas viagens inspiraram outros para viagens semelhantes, e, além disso, deixou também uma grande influência artística, como é evidente no caso deFrederick Arthur Verner, de quem Kane tornou-se mentor nos seus últimos anos de vida. Segundo Harper, o início da carreira deLucius O'Brien também foi influenciada pelo trabalho de Kane.[3] A exposição em 1848, dos esboços de Kane, que incluiu 155 aguarelas e 85 pinturas a óleo sobre papel, ajudou a fixar o género na mente do público e abriu caminho para artistas comoWilliam Cresswell ouDaniel Fowler, que também foram capazes de viver às custas das suas aguarelas.[8]
Tanto a exposição de esboços de 1848 como a de 1852, que mostrou as suas pinturas a óleo, tiveram grande sucesso e foram elogiadas por diversos jornais.[4] Kane foi o mais proeminente pintor do Canadá Superior na sua época. Ele frequentemente inscrevia suas pinturas em exposições de arte e ganhava numerosos prémios por suas obras. Dominou a vida artística nadécada de 1850, chegando ao ponto de todo o júri artístico lhe pedir desculpa pornão lhe atribuírem o prémio na categoria de pintura histórica na exposição anual da Sociedade de Agricultura do Canadá Superior, em 1852. (Kane ganhou consecutivamente o prémio todos os anos até 1859).[15]
Kane foi um dos primeiros, se nãoo primeiro,turista a viajar por todo o oeste canadiano e pelo noroeste do Pacífico. Através de seus desenhos e pinturas, e mais tarde também através do seu livro, permitiu ao público em geral noCanadá Superior eInferior, pela primeira vez, ter uma ideia dos povos e de seus estilos de vida neste vasto e pouco conhecido território. Kane sempre teve o desejo sincero de retratar, com maior precisão possível, as suas experiências - a paisagem, o povo e os seus instrumentos. Contudo, foi sobretudo com as suas obras embelezadas no seu estúdio que ganhou o apreço do público e se tornou famoso. As suas idealizadas pinturas a óleo, assim como as suas notas de viagens alteradas em seu livro, foram ambas um factor determinante na formação e divulgação da percepção dos povos indígenas do Norte americano, comobons selvagens, ao contrário do que o artista tinha pretendido.[16] Os mais realistas esboços de campo foram "redescobertos" e valorizados pelo grande público somente noséculo XX.
Em 1937 Kane foi declarado Pessoa Histórica Nacional e uma placa comemorativa foi-lhe dedicada emRocky Mountain House, em 1952.[17]
As fontes principais usadas neste artigo são Eaton/Urbanek, a reimpressão de Garvin dá a viagem de Kane, e o verbete de Harper para Kane no Dictionary of Canadian Biography.
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