Open gaming é um movimento dentro da indústria derole-playing game (RPG de mesa) semelhante superficialmente ao movimento desoftwarelivre.[1] Nele, o detentores dedireitos autorais licenciam suas obras sob licenças públicas decopyright que permitem que se possam fazer cópias ou criarobras derivadas de um jogo.
Um número de editoras de jogos de RPG aderiram ao movimentoopen gaming, em grande parte como resultado do lançamento doSystem Reference Document (SRD) pelaWizards of the Coast, que continha as regras fundamentais da 3ª edição deDungeons and Dragons. O movimentoopen gaming também tem sido popular entre as pequenos editoras e autores de suplementos.[2]
O uso do movimento começou com a publicação do SRD e a liberação simultânea daOpen Game License (OGL) em 2000. No entanto, outros RPGs já tinham sido licenciado sob licenças deconteúdo aberto elivre antes disso.[3]
Desde sua publicação na revistaCasus Belli em 1988 e, posteriormente, em sua 7ª edição em 1994, Pierre Rosenthal, que desejava que o sistema do jogoSimulacreS servisse para propagar e difundir a prática do RPG,[4] autorizou explicitamente e gratuitamente o uso e cópia do sistema de regras, sua modificação para criar jogos, universos ou cenários em um contexto amador ou associativo, com a possibilidade de comercializar essas criações para financiar associações ou obras beneficentes. Em 1994, ele também permitiu uso comercial para tiragens de até 500 exemplares, oferecendo ainda seus conselhos para a criação.[5]
O sistema de RPGFudge foi criado em 1992 por Steffan O'Sullivan, com ampla ajuda da comunidadeUsenetrec.games.design.[6] O nomeFudge era oacrônimo deFreeform Universal Donated Game Engine até Steffan O'Sullivan mudardonate paraDIY em 1995.[7][8]
Uma razão do sucesso deFudge é ter sido distribuído sob os termos daFudge Legal Notice,[9] uma licença que removeu a maioria das restrições ao uso não-comercial. No entanto, aFudge Legal Notice (mais comumente conhecido como simplesmente "a licençaFudge") nunca foi destinada a cobrir qualquer trabalho que não fosse o seuhomônimo. A criação e distribuição de obras derivadas exigia umataxa para conseguir uma autorização por escrito do autor. Os detalhes daFudge Legal Notice foram modificados e ampliados ao longo do tempo, mas os elementos essenciais da licença permaneceram inalterados. A versão daFudge Legal Notice de 1993 permitia a reimpressão das regrasFudge, inclusive em trabalhos comerciais, conduto, deveriam cumprir determinadas condições. A versão de 1995 permitiu a criação de trabalhos derivados para uso pessoal e para publicação emperiódicos.[7]
Emmarço de 2004, aGrey Ghost Games adquiriu osdireitos autorais sobreFudge; e em 6 de abril de 2005, lançaram uma versão deFudge sob aOpen Game License, tornando-o aberto para uso comercial.[10]
A expressãoopen source roleplaying foi usada em 1999 no sistemaDominion Rules.[11], publicado pela Dominion Games.[12] A licença desse sistema permitiu a criação de suplementos utilizando suas regras. Outro sistema "aberto" foi o sistemaCirce, publicado peloProjeto WorldForge sob aGNU Free Documentation License (GFDL).[13]Gods & Monsters, criado por Jerry Stratton, também foi distribuído sob a GFDL em 2013.[14]
Apesar deFudge e de outros jogos, o movimento open gaming não ganhou amplo reconhecimento dentro da indústria de RPG até 2000, quando aWizards of the Coast (WotC) publicou partes da 3ª Edição deDungeons & Dragons como aSystem Reference Document (SRD) sob aOpen Game License. Este movimento foi impulsionado por Ryan Dancey, gerente de marca da editora, que elaborou aOpen Game License[2] e cunhou o termoopen gaming.
A licença OGL 1.0a[15] da Wizards of the Coast tem como objetivo facilitar a criação de conteúdo para seu jogoDungeons & Dragons (D&D) — como cenários (aventuras), universos (configurações de campanha) e regras complementares — por editoras terceiras, ao mesmo tempo em que protege a marcaDungeons & Dragons e apropriedade intelectual, com a expectativa de fomentar as vendas do próprio jogo D&D.
Entretanto, por ser uma licença muito permissiva, ela também levou à criação de:
Além disso, a OGL 1.0a também foi utilizada por editoras que quiseram publicar jogos diferentes de D&D, mas usando suas regras como base, ou até mesmo por jogos sem nenhuma relação com D&D ou suas regras, como o EW-System.
Para evitar a proliferação de clones, a Wizards of the Coast:
A OGL 1.0a distingue:
A licença autoriza o uso livre e gratuito do conteúdo lúdico livre. Por outro lado, a identidade do produto só pode ser usada com autorização do detentor (no caso, a Wizards of the Coast). Sem permissão, não é permitido indicar compatibilidade com jogos protegidos por direitos autorais, exceto pela fórmula “System Reference Document d20”, que não menciona explicitamente o sistema d20.
Produtos que usam a OGL 1.0a devem também ser publicados sob essa licença, e o texto da licença precisa ser reproduzido integralmente.
Na prática, a licença permite que editoras utilizem ou derivem o sistema de jogo sem pagar royalties, mas não podem reivindicar direitos autorais sobre o sistema derivado.
A OGL 1.0a é propriedade da Wizards of the Coast no sentido de que detém os direitos autorais sobre seu texto. Contudo, a licença pode ser aplicada a jogos sem qualquer ligação com a Wizards ou o sistema d20.
Questões legais são complexas, sobretudo devido à circulação internacional. As traduções da OGL 1.0a existentes online são meramente indicativas, sem valor legal oficial.
Em agosto de 2022, a Wizards inicia os testes da futura edição de D&D sob o nome de projeto One D&D,[18] além de anunciar uma plataforma virtual (VTT) integrada ao D&D Beyond.
No final de dezembro de 2022, alguns editores recebem uma nova licença, OGL 1.1, com cláusulas consideradas problemáticas.[19] A principal: a revogação da OGL 1.0a, até então considerada perpétua. Isso significaria que até produtos já lançados passariam a obedecer à nova licença, com graves implicações: perda de propriedade intelectual por editoras terceiras e pagamento de royalties acima de um certo faturamento.
Linda Codega, para oIo9 em janeiro de 2023, relatou os detalhes de uma cópia completa vazada da OGL 1.1, incluindo termos atualizados, como não autorizar mais o uso da OGL1.0.[20] Codega destacou que "se a licença original não for mais viável, todos os editores licenciados serão afetados pelo novo contrato. [...] A principal conclusão do rascunho da OGL 1.1 vazado é que a WotC está mantendo o poder nas mãos".[20] Depois disso, aPaizo anunciou uma nova Open RPG Creative License (ORC) como uma resposta direta às mudanças relatadas na OGL. Editores adicionais, como Kobold Press, Chaosium, Green Ronin, Legendary Games e Rogue Genius Games, farão parte do processo de desenvolvimento da ORC.[21][22] A ORC será uma licença independente de sistema aberta, perpétua e irrevogável com desenvolvimento legal pago pela Paizo "sob a orientação legal da Azora Law", no entanto, a licença "não será de propriedade da Paizo, nem será de propriedade da qualquer empresa que ganhe dinheiro publicando RPGs".[23] A Paizo planeja encontrar uma "sem fins lucrativos com um histórico de valores de código aberto para possuir esta licença" e afirmou que "a propriedade do processo e administração da Azora Law deve fornecer um porto seguro contra qualquer empresa que seja comprada, vendida ou que mude de administração no futuro e tentar rescindir direitos ou anular seções da licença".[23]
A reação da comunidade foi intensa, com petições, ameaças de ações coletivas (class actions) e cancelamentos em massa de assinaturas do D&D Beyond. A imprensa geral também noticiou o caso.
Em janeiro de 2023, a Wizards declara que o texto vazado era apenas um rascunho, e que não revogaria a OGL 1.0a. Pouco depois, lança a proposta OGL 1.2, cancelando a OGL 2.0.
Em 27 de janeiro de 2023, a empresa reafirma que não revogará a OGL 1.0a e que o SRD da versão 5.1 será publicado soblicença Creative Commons.[24][25][26][27] A ORC foi lançada em julho de 2023.[28][29]
A d20 System Trademark License (d20STL) é frequentemente confundida com a OGL 1.0a, mas está diretamente vinculada ao sistema d20. Ela permite a editores publicarem produtos compatíveis com D&D ou d20 Modern sem copiar regras diretamente ou adicionar novas que contradigam os livros oficiais.
Esses produtos:
Quando a editora Valar Project anunciou oBook of Erotic Fantasy com conteúdo sexual explícito, a Wizards adicionou, em 2003, uma cláusula que permitia recusar a licença com base em padrões de qualidade ou decência. O livro então foi lançado sob a OGL 1.0a, e não sob a d20 STL.
A licença d20 foi revogada em 2008, com a introdução da GSL.
Para a 4ª edição de D&D, a Wizards criou a GSL (Game System License), uma licença muito mais restritiva do que a OGL. Totalmente incompatível com a OGL, ela não permite conteúdo completamente livre e marca uma tentativa de retorno a um modelo proprietário.
Poucas editoras adotaram a GSL.
“A reação à GSL da 4ª edição foi, na melhor das hipóteses, mista. Enquanto empresas como Mongoose e Goodman produziram conteúdo para a 4ª edição, outras como Green Ronin e Necromancer se abstiveram.”
A OGL ganhou popularidade imediata com os editores de jogos de RPG comerciais. No entanto, a OGL foi criticada (principalmente por desenvolvedores independentes de jogos de RPG) por ser insuficientemente "aberto" e por ser controlado pelo líder de mercado Wizards of the Coast. Em resposta a isso, e em uma tentativa de mudar o suporte da OGL para licenças mais abertas, várias alternativas a OGL foram sugeridas e elaboradas. Da mesma forma, a popularidade da OGL inspirou outros a criarem suas próprias licenças específicas de conteúdo aberto. Praticamente nenhum deles ganhou aceitação além dos trabalhos dos próprios autores das licenças, e muitos foram abandonados desde então.
Aopen gaming license mais comum em uso por editoras de RPGs comerciais é a OGL. Há muitas editoras que atualmente produzem material no primeiro documento SRD; e muitas tornaram seus produtos disponíveis sob a OGL, mas que usam sistemas de jogos que não são baseados no SRD.[30][31]
AWizards of the Coast usou a não abertaGame System License para a 4ª edição doDungeons & Dragons, mas lançou um novoSystem Reference Document em 2015 para a 5ª edição licenciada sob o OGL.[32][33]
Vários jogos usamlicenças Creative Commons, como:
A Free League Publishing anunciou duas licenças, para seu sistema de jogo Year Zero e outra para seu próximo RPG de fantasiaDragonbane.[44]
AOpen Gaming Foundation foi fundada por Ryan Dancey como umfórum independente para a discussão doopen gaming entre os membros do incipiente do movimentoopen gaming. A OGF consistiu de umwebsite e uma série delistas de discussão, incluindo aOGF-L list (para discussão geral sobre questões de licenciamento deopen games) e aOGF-d20-L list (para discussão de questões específicas ded20).[45]
A crítica mais comum à OGF foi que era principalmente um local para divulgar a Wizards of the Coast. Ryan Dancey era um empregado da WotC; e as discussões se concentravam em d20 e o OGL (ambos de propriedade da WotC), em vez deopen games em geral.
A Open Gaming Foundation descreve essas licenças como "Licenças de jogo abertas conhecidas".[46]
A Fundação OGL Brasil foi uma organização brasileira que promovia o open gaming, mas que não possuía qualquer relação com a Open Game Foundation.[49] Ela trazia informações sobre as licenças OGL e D20, além de outras como a Fudge e a Licença Daemon (utilizada nos sistemas Daemon e RPGQuest, publicados pela Editora Daemon).[50] O site da OGL Brasil ainda disponibilizava a tradução da OGL 1.0a.[51]
The System Reference Document 5.1 is provided to you free of charge under the terms of the Creative Commons Attribution 4.0 International License (“CC-BY-4.0”).
