Musashi se sedimentou no imaginário popular como umRonin e um guerreiro lendário, em parte devido aos feitos que alegou ter alcançado em suas obras, o uso de sua imagem na formação de narrativas nacionalistas noJapão Imperial,[6] bem como suas retratações na literatura moderna.[1]
Miyamoto Musashi foi um duelista, de uma família devassalos[7] que viveu nosSéculos XVI eXVII, mais especificamente na transição dos períodosAzuchi-Momoyama eEdo,[4] momento divisor de águas na história japonesa, com a conclusão de diversasguerras civis que levaram a erosão das instituições de poder e as classes sociais,[4][8] bem como seu reestabelecimento após a reunificação do país peloXogunato Tokugawa[8].
Nestes períodos, membros de baixo escalão da classe [[samurai],e duelistas percorriam o país com objetivo de serem empregados porDaimiô, senhores feudais que empunhavam o poderde facto[8][4]. Uma das formas que membros deste grupo tinham de buscar a atenção de empregadores, ou até mesmo ascender a classesamurai , era oferecendo instrução em artes marciais,ou simplesmente reconhecimento de poder e fama, Existem registros de duelos e disputas entre escolas e estilos.[7]
De acordo com o relato do próprio Musashi sobre sua carreira no Livro dos Cinco Anéis, ele nunca teria sido derrotado em um duelo, apesar de ter enfrentado mais de sessenta oponentes, algumas vezes mais de um simultaneamente.[5] Porém, historiadores tem dificuldade de verificar a autenticidade desta alegação, e até mesmo detalhes básicos sobre a sua vida são disputados como verdadeiros.[7][9]
Musashi nasceu na aldeia de Miyamoto,província de Mimasaka (atual Japão moderno). Com seu pai, Shinmen Munisai (ouMunisai Hirata) umgoushi (minifidalgorural, algo entre camponês e samurai), teve as primeiras lições com a espada.[10]
Com sete anos Musashi fugiu de casa por causa de uma reação raivosa do pai que ameaçou sua vida, então foi viver com seu tio Dorin.
Aos treze anos, travou seu primeiro duelo, vencendo o então famoso espadachimArima Kihei.[10]
Aos quinze anos, partiu do vilarejo para realizar sua primeira viagem trilhando o caminho do Guerreiro Peregrino (ou Shugyosha). Com apenas dezessete anos entrou para o exército do Senhor de TerrasToyotomi Hideyoshi (Período Sengoku), onde em julho de 1600 participou da tentativa de tomar e assaltar ocastelo Fushimi, e em agosto do mesmo ano, participou na defesa doCastelo Gifu sitiada.
Este também participou daBatalha de Sekigahara (que consolidou o poder deTokugawa Ieyasu no Japão),embora seja comtestada que realmente perticipou de tal batalha, de acordo com o livro dos Cinco Anéis onde afirma ter participado de seis batalhas na juventude.
Depois disso, Musashi desaparece temporariamente, até reaparecer em 1604 emKyoto, com aproximadamente 22 anos de idade, onde derrotou a escola Yoshioka, em duelos com os três herdeiros da linhagem da escola.
Após deixar Kyoto por volta de 1605, parte em uma série de viagens pelo Japão aperfeiçoando a técnica com monges e através de diversos duelos.
Em 1612, realizou seu duelo mais importante, contraSasaki Kojirō, travado na ilha deGanryūjima (próximo a ilha deHonshū). Na ocasião Musashi reconheceu que o oponente dominava sua técnica, e que teria de adotar uma nova para poder derrotá-lo. Relata-se que este entalhou um bastão de madeirabokken, a partir de um remo quebrado, enquanto Kojirō o esperava impacientemente. Ao concluir o bastão, o duelo pode recomeçar, assim logo Kojirō saltou em direção a Musashi e quase lhe atingiu o pescoço, mas Musashi esquivou-se e acertou um golpe violento em Kojiro, derrubando-o. Kojiro ainda tentou acertar os pés de Musashi, mas este deu um salto para se esquivar e acertou mais um golpe nas costelas de Kojiro, assim matando-o.
Entre 1614 e 1615, Musashi envolveu-se em outra guerra no Japão entre os clãsTokugawa eToyotomi, que iniciou quando Tokugawa sentiu que a família Toyotomi representava uma ameaça ao seu domínio. Mais uma vez Musashi pelo lado dos Toyotomi, participou das duas batalhas docastelo de Osaka, resultando na ruína do exército Toyotomi. No final, de alguma forma Musashi conseguiu ser adotado pelo clã Tokugawa.
Ele entrou em um serviço nomunicípio rural deOgasawara Tadanao (Província de Harima), onde executou várias tarefas: ajudou na construção do castelo de Akashi, ensinou artes marciais, aperfeiçoou sua técnica de lançarshuriken e ainda adotou um filho.
Em 1621, após derrotar quatro adeptos do Togun-ryu na frente do lorde dodomínio Himeji, este o confiou parte da função de organizar a cidade.
Em 1622, seu filho adotivo tornou-sevassalo de Himeji. Depois disso, Musashi embarcou em mais uma série de viagens, onde adotou outro filho. Já em 1626, seu primeiro filho adotivo comete o ritual doSeppuku, por causa da morte de seu lorde.
Em 1627, Musashi deu início a uma nova viagem que durou até 1634, quando decidiu se estabelecer no distrito deKokura (Kitakyushu), junto com o segundo filho, onde entrou em serviço para o senhor de terras (daimyo) Ogasawara Tadazane. Após 10 anos, ele e seu filho participaram darevolta camponesaRebelião de Shimabara (durante oXogunato Tokugawa).
Ichijoji Sagarimatsu, local da batalha entre Musashi e a escola Yoshioka
Em 1643, Musashi retirou-se para a cavernaReigandō, a oeste da cidade deKumamoto, onde como eremita escreveu então o tratado mais conhecido, o livro dos Cinco Anéis ou em japonês"Gorin No Sho" (onde "go" significa cinco, "rin" significa anéis e, "sho" significa escrito), concluído em 1645.
Após concluir o livro, sentindo a aproximação damorte, Musashi liberou-se de suas posses materiais, entregou a cópiamanuscrita do livro a seu discípulo mais intimo, o irmão mais novo de Terao Magonojô. Nesse mesmo dia, Musashi escreveu o manuscritoDokkōdō, o Caminho do Andarilho Solitário, sobre os vinte e um princípios da vida.
Faleceu em Kumamoto por volta do quinto mês, segundo o então calendário japonês.[11]
Sua trajetória tornou-se uma lenda e inspiração para o imaginário japonês em gravuras de estampa japonesaUkiyo-e, livros, filmes, séries de TV, mangás evideogames.
Criador de um estilo de luta com duas espadas, denominadoNiten Ichi Ryu, onde seus discípulos e praticantes têm acesso aoskatas (conjunto de movimentos de ataque e defesa) e estratégias que o tornou imbatível em sessenta duelos. Vale lembrar que, apesar do estilo ser conhecido pela luta com duas espadas, contém técnicas com a espada maior (tachi seiho), espada menor (kodachi seiho) e o bastão longobojutsu.
Um dos princípios da narrativa de Musashi é exatamente o nascimento deste estilo, desde a primeira ideia, instintiva, até as poéticas considerações sobre a luta com duasarmas.
Além de ter sido um duelista imbatível, Musashi também se dedicou a outras artes, como apintura[12]caligrafia e aescultura, escreveu livros sobreesgrima eestratégia e, foi adepto da filosofia zen-budista.
"Musashi", o livro deEiji Yoshikawa, é uma leve e divertida aventura publicado no Brasil em dois grossos volumes pela editora Estação Liberdade, onde se aprende um pouco sobre ahistória e oscostumes do Japão antigo, através de uma parte da vida de Miyamoto. A obra é inspirada em fatos históricos, mas romanceando com personagens fictícios,[13] daimaginação do autor, misturando-os com outros que realmente existiram. O esqueleto danarrativa, porém, segue a trajetória histórica do espadachim.
Começamos nabatalha de Sekigahara e acompanhamos Musashi por sua peregrinação e vários de seusduelos, como: contra Muso Gonnosuke, contra Shishido Baiken, os três duelos contra mestres e discípulos da academia Yoshioka, e o mais famoso de todos, contra Sasaki Kojiro na ilha de Ganryūjima.
Entre um duelo e outro conhecemos os dramas de personagens secundários como o amigo desorientado Hon'iden Matahachi, a vingativa velhinha Osugi, osdiscípulos mirins Joutaro eIori, e oromance com a eternamente apaixonadaOtsu.
Musashi foi originalmente publicado em pequenos capítulos diários no jornalAsahi Shimbun, entre1935 e1939. A narrativa tem um estilo folhetinesco, cheio de encontros e desencontros, misturando uma longa história de amor com episódios deaventura, tudo recheado de coincidências.
A ação é muitas vezes surpreendente para o leitor acostumado com histórias ocidentais. Quando espera-se que Musashi acabe com os inimigos, este prefere fugir. Quando parecia não haver combate, ele desembainhava a espada. Quando tudo indica que o beijo dos apaixonados finalmente acontecerá, a mocinha amedronta-se. Estes comportamentos inesperados talvez sejam fruto simplesmente de diferenças culturais, já que Musashi é, por natureza, um produto destinado ao grande público. Depois de aparecer em 1013 capítulos diários, foi transformado em livro e vendeu mais de cento e vinte milhões de exemplares no Japão.
EmO Samurai - A vida de Miyamoto Musashi, biografia publicada no Brasil pela Estação Liberdade, o especialista em língua e cultura japonesasWilliam Scott Wilson baseou-se em fatos históricos para traçar os caminhos do espadachim.[14] A obra é resultado de extensa pesquisa e traz ainda mapas e vários anexos, como desenhos de autoria do próprio Musashi, que além da habilidade com as espadas, destacou-se como pintor a nanquim, praticante de caligrafia tradicional, estudioso de poesia chinesa.
Como mostra o livro, Musashi foi uma lenda de seu tempo. Ignorando as convenções, ele preferia uma espada de madeira e em seus anos de maturidade nunca lutou com uma arma autêntica. Foi um mestre em aniquilar os inimigos usando recursos psicológicos que estudava exaustivamente antes dos combates. Musashi orientava seus estudos tão arduamente conquistados sobre as artes combatentes para metas espirituais de cunho zen-budista. Como nos mostra Scott Wilson nesta biografia, no japonês moderno existem figuras de linguagem que se referem ao caráter “musashiano”, revelando que, provavelmente, o seu nome seja tão ou mais conhecido do que importantes personalidades da história e cultura japonesas.
Em 1998, o mangakáTakehiko Inoue iniciou a publicação domangáVagabond,[10] baseado no romance de Eiji Yoshikawa, divididos em trinta e sete volumes no Japão até o momento.[13]
Sua narrativa elaborada, integrada a um desenho minucioso, tornou a série um sucesso que vendeu mais de vinte e três milhões de exemplares apenas no Japão, sendo premiada com o Cultural Affairs Media Arts e o Kodansha Manga Award. No Brasil o mangá foi publicado pelas editorasConrad Editora,[13] Nova Sampa[16] ePanini Comics.[17]
Onipo-brasileiroJulio Shimamoto, produziu várias histórias protagonizadas por Musashi, muitas delas foramcompiladas em doisálbunsMusashi I (2002) eMusashi II(2003) pela editoraOpera Graphica.[18] Um encarte nafanzineQI, deEdgard Guimarães[19][20] e a coletâneaSamurai pelaMythos Editora, esta também traz histórias protagonizadas por outros samurai como Zatoichi, o espadachim cego doperíodo Edo criado pelo escritor Kan Shimozawa, presente no cinema e na TV japonesa.[21][22] Shimamoto também ilustrou os livrosLendas de Musashi eLendas de Zatoichi,[23] ambos escritos porMinami Keizi, precursor do estilomangá no país.[24] Shimamoto foi o primeiro quadrinista a produzir uma HQ de samurai no Brasil,Os Fantasmas do Rincão Maldito, publicada em 1959.[25]
Em2012, a Shambhala Publications publicouThe Book of Five Rings: a Graphic Novel roteirizada por Sean Michael Wilson (roteiro) e Chie Kutsuwada (desenhos),[28] em2014, a editora lançou "Musashi (A Graphic Novel)" roteirizada pelo próprio Wilson e ilustrada por Michiru Morikawa.[29]
Em 2013, o mangaká Hideki Mori, publicou o mangáShishi pela editora Leed, Mori também desenhou uma continuação deLobo Solitário comKazuo Koike, roteirista original de Lobo Solitário.[30] Em junho 2020, o mangá foi publicado no Brasil pelaNewPOP Editora.[31]
Em Março de 2014, a Weekly Shōnen Champion publicouBaki-Dou (刃牙道, Baki Dō; literalmente: "O Caminho de Baki" ) 4° da série do famoso mangáBaki the Grappler. Escrito e ilustrado pelo autor Keisuke Itagaki, que possui sua trama ao redor da clonagem de Miyamoto Musashi para os tempos modernos e seus confrontos com os outros personagens da série.
cartaz do filme Zoku Miyamoto Musashi: Ichijôji no kettô
Personagem de grande apelo popular no Japão, representado em muitas gravuras antigas, Musashi serviu também como fonte de inspiração para diversos filmes, o mais conhecido tem o atorToshiro Mifune como protagonista, e séries deTV. Musashi também é citado no 21° episódio do animeSamurai Champloo.
O jogo de tabuleiro "Lenda dos 5 Anéis", umRPG não eletrônico, ambientado em uma terra fictícia (império de Rokugan) que mistura elementos fantasiosos com a cultura japonesa, baseado no Livro dos 5 Anéis.[32]
Um dos diferenciais do jogo, é a influencia do guia samurai Bushido na jogabilidade, colocando mais responsabilidades nas ações dos personagens e evitando o estilo bater e correr.[32]
MUSASHI, Miyamoto.Gorin No Sho: O Livro dos Cinco Elementos. (Notas de Watanabe Ichiro, Tradução por José Yamashiro) São Paulo: Cultura Editores Associados, 1992.