Entre outras coisas, o chamado complexo mesoamericano inclui a agricultura domilho, o uso de dois calendários (um delesritual com 260 dias e outrocivil, com 365 dias), os sacrifícios humanos e a organização estatal das sociedades. O complexo mesoamericano serviu como ferramenta teórica para distinguir os povos desta região relativamente a outras macrorregiões culturais que os circundavam, como aAridoamérica e aOasisamérica. O primeiro destes dois termos foi também cunhado por Kirchhoff. Nas fontes de língua inglesa, estas duas macrorregiões são agrupadas nosudoeste estadunidense (sendo por vezes incluídas, de forma errada, como periféricas as culturas dobajío ou o norte da Mesoamérica).
A homogeneidade do processo civilizacional mesoamericano tem sido criticada, especialmente por autores de origemanglo-saxónica, comoMichael D. Coe. Nas suas críticas, estes autores salientam as diferenças entre os diferentes povos que habitaram esta região (por exemplo, ao estabelecer uma distinção entre o que chamamMéxico - apesar do México ser uma entidade moderna nascida no século XIX - e a área maia (Coe, 1996). No entanto, desde os pontos de vista teóricos utilizados pelosarqueólogos eantropólogos como Palerm (1972), López Austin y López Luján (1996), ou Duverger (1994), têm prioridade as características culturais que podem encontrar-se nas diversas áreas culturais englobadas na macrorregião mesoamericana. A difusão destes traços culturais deve-se à interação das diversas etnias que viveram neste território ao longo de milénios.
Esclarece-se desde já que neste artigo foram privilegiados os pontos de vista destes últimos trabalhos na medida em que permitem ter um panorama amplo da civilização mesoamericana. Por outro lado, há que esclarecer também que alguns nomes de deidades, culturas e locais são escritos na sua versão espanhola adaptada donauatle, pois é desta forma que são mais conhecidos no mundo académico. Isto não quer dizer que todos os povos mesoamericanos falassem nauatle. De fato, o uso do nauatle comolíngua franca na Mesoamérica aconteceu apenas a partir do século X, com a chegada dos povosteochichimecas e mais tarde dostoltecas emexicas (criadores do estado mais extenso que conheceu a Mesoaméricapré-colombiana).
As terras mesoamericanas situam-se entre os 10º e 22º de latitude norte. Incluem a região que se estende desde a zona central doMéxico, aoistmo de Tehuantepec, apenínsula do Iucatão,Guatemala,Belize,El Salvador e as zonas costeiras doPacífico deHonduras,Nicarágua eCosta Rica até aogolfo de Nicoya. Trata-se de uma combinação complexa de vários sistemas ecológicos. Michael Coe agrupa os diferentes nichos emterras altas (aquelas situadas a altitudes entre os 1 000 e os 2 000 m), conhecidas comoplanaltos; eterras baixas, com altitudes próximas do nível do mar, abaixo dos 1 000 m de altitude. No primeiro grupo destaca-se a sua grande diversidade climática, que inclui desde os climas frios de montanha ao clima tropical seco. Predominam, no entanto, os climas temperados com chuvas moderadas. Nas terras baixas predominam os climas subtropicais ou tropicais, como nas costas doGolfo do México e doMar das Caraíbas.
Há um número de diferentes sub-regiões dentro da Mesoamérica que são definidas por uma convergência dos atributos geográficos e culturais. Estas sub-regiões são mais conceituais do que culturalmente significativas, e a demarcação de seus limites não é rígida. A área maia, por exemplo, pode ser dividida em dois grupos gerais: as terras baixas e altas. Além disso, as terras baixas são subdivididas entre norte e sul. As terras baixas do sul maia são geralmente consideradas como abrangendo o norte da Guatemala, o sul deCampeche eQuintana Roo no México, e Belize. As terras baixas do norte cobrem o restante da parte norte da península de Yucatán. Outras áreas geográficas e culturais incluem o Centro do México, Oeste do México, as Terras Baixas da Costa do Golfo,Oaxaca, as Terras Baixas Sul do Pacífico e Sudeste da Mesoamérica (incluindo o norte de Honduras).
Um dos poucos animais domesticadas pelos povos mesoamericanos foi operu.
Alguns dos vales das terras altas da Mesoamérica possuem solos férteis com aptidão agrícola. É este o caso dosvales de Oaxaca, de Puebla-Tlaxcala e doMéxico. Ainda assim, a sua localização entre as montanhas impede a passagem das nuvens. Esta situação é especialmente crítica nos vales de terra quente daMixteca, talvez os mais secos das terras altas. Além da escassez de chuva, existem poucos cursos de água, e apenas de caudal reduzido. As primeiras investigaçõesarqueológicas na Mesoamérica pareciam mostrar que o clima deveria ter sido mais benigno no passado. No entanto, com o passar dos anos e com o aprofundamento do conhecimento sobre a região, sabe-se agora que o clima não devia ser muito diferente do actual, ainda que osecossistemas mostrem um grau de desgaste importante, fruto da actividade humana. Uma boa parte das terras altas apresenta evidências de umadesflorestação antiga, e várias espécies desapareceram dos seus antigoshabitats.
Portanto, as terras altas da Mesoamérica, ainda que não sendo extraordinariamente ricas, tampouco foram demasiado pobres como para impedir o desenvolvimento das altas culturas agrícolas da antiguidadepré-hispânica. De facto, a sua situação é similar à de outras regiões do mundo onde cedo ocorreram processos civilizacionais, como o norte doPeru, na América do Sul, ou ovale do Indo, naÁsia. Nestes lugares, como na Mesoamérica, osseres humanos tiveram que aprender a aproveitar ao máximo os recursos de que dispunham nos seus nichos ecológicos. Os mesoamericanos das terras altas, como povos agrícolas, aprenderam a armazenar aágua e a conduzi-la desde as suas fontes nas montanhas até às terras de cultivo. Provavelmente a mais característica das técnicas agrícolas da Mesoamérica foi o cultivo emchinampas, desenvolvido nos lagos dameseta Tarasca e em especial novale do México, onde se conservam ainda algumas zonas com este tipo de cultivo emXochimilco. Além disso, tiveram que aprender a contar o tempo, uma vez que o período no qual podiam semear estava intercalado entre duas temporadas que ameaçavam o bom término das colheitas do principal cultivo - omilho-: a temporada seca e quente do início daprimavera e asgeadas doinverno.
Ojaguar foi um animal muito apreciado na Mesoamérica. A distribuição histórica do jaguar ia desde o que hoje é o sudeste dosEstados Unidos, para sul através da Mesoamérica, até àAmérica do Sul.
Bem diferente era a situação nas terras baixas. Especialmente no sudeste da costa doGolfo do México, as chuvas são demasiado abundantes. As selvas tropicais de vegetação espessa cobriam uma grande parte das planícies costeiras, e isto representava um obstáculo ao desenvolvimento da agricultura. Nestes lugares, tanto a vegetação como o excesso de água representavam um problema, o que levou os antigos mesoamericanos a idealizar sistemas dedrenagem, cujos vestígios se podem observar na região de Chontalpa emTabasco, onde subsistem os chamadoscamellones chontales.
Por outro lado, afauna de que dispunham os povos mesoamericanos não era facilmente domesticável. Muitos milénios antes do início da civilização na Mesoamérica, as principais espécies de mamíferos passíveis de serem domesticados haviam desaparecido devido à caça excessiva. Foi este o caso docavalo e de algumas espéciesbovinas. Este facto explica por que os povos desta região não tinham animais de carga e por que a civilização mesoamericana era exclusivamente agrícola. As únicas espécies domesticadas foram oxoloitzcuintle e operu, mas nunca fizeram parte da dieta e da economia da maioria dos povos mesoamericanos. Não obstante o anterior, as sociedades da região praticavam a caça de outras espécies, quer como complemento à sua dieta (veados,coelhos,aves, numerosas ordens deinsectos), ou como artigos de luxo (peles de felinos, como ojaguar e aves de plumagens vistosas, como oquetzal).
Uma vez que a Mesoamérica se encontra fragmentada em nichos ecológicos muito reduzidos e diversos, nenhuma das sociedades que a habitaram em tempos pré-hispânicos era autossuficiente. Por isso, desde os últimos séculos doperíodo arcaico, anterior aoperíodo pré-clássico, os povos da região especializaram-se na exploração de certos recursos naturais abundantes na sua vizinhança imediata, logo estabelecendo redes de trocas comerciais que sanaram as carências do meio ambiente. Os povos do ocidente, por exemplo, especializaram-se na produção agrícola e decerâmica; os oaxaquenhos produziamalgodão ecochonilha; das costas provinham osal,peixe seco,conchas marinhas epigmentos como o púrpura; das terras baixas da Área Maia e do golfo do México obtinham-se ocacau, abaunilha, peles dejaguar, aves preciosas como oquetzal ou aarara; do centro saía grande parte daobsidiana utilizada na fabricação de armas e ferramentas.
Denominam-se áreas culturais as regiões habitadas por povos que partilham vários elementos em comum, seja pela sua ausência ou presença nos sistemas culturais. Isto não significa que todos os povos agrupados numa mesma área cultural constituam umaunidade étnica: em muitos casos, nem sequer partilham o mesmoidioma. Este facto não obsta a que possa existir interação entre eles, quer em virtude das suas relações políticas, comerciais ou por simples contiguidade geográfica. Segue-se uma caracterização sumária das diferentes áreas culturais do México, baseada noAtlas del México Prehispánico (2000), e noAtlas Histórico de Mesoamérica (Manzanilla y López Luján, 1989).
Uma das áreas mais importantes durante ahistória pré-hispânica do México, foi a que se conhece como México Central. Esta área é constituída pelos vales temperados a frios situados na parte meridional doplanalto mexicano e a norte da bacia dorio Balsas. Trata-se de um nicho ecológico caracterizado pelo seuclima temperado e pela ausência de cursos de água importantes. As chuvas, por outro lado, ocorrem entre os meses de abril e setembro, não sendo demasiado abundantes. Este facto motivou o desenvolvimento, desde muito cedo, de obras hidráulicas, entre as quais se encontram a canalização de rios e os sistemas delevadas nas encostas dos montes.
Ovale de Tehuacan, localizado a sudeste desta região é importante porque dele procedem os vestígios mais antigos do cultivo do milho bem como algumas das amostras da cerâmica mais antiga da Mesoamérica. O México Central inclui ainda, a bacia lacustre dovale do México, composta por vários lagos e lagoas. Em redor dolago Texcoco cresceram povoamentos tão importantes comoCuicuilco no período pré-clássico;Teotihuacan no clássico eTula eTenochtitlan no período pós-clássico.
A Área Maia é uma das maiores da Mesoamérica. Alguns autores dividem-na em dois sectores: apenínsula do Iucatão, a norte, e as Terras Altas, no sul. A primeira engloba, além da península iucateca, a região dePetén e oBelize. Trata-se de uma zona de terras baixas e clima quente, fustigada pelosfuracões etempestades tropicais provenientes doMar das Caraíbas. Em termosgeomorfológicos esta região é uma plataformacalcária, elevada apenas em direcção a sul, onde osMontes Maias rompem a planura da paisagem. Carece de cursos de água superficial, pois o solo é demasiado permeável, sendo abundantes oscenotes. Por outro lado, as Terras Altas englobam osAltos de Guatemala e osAltos de Chiapas. É uma região de clima temperado frio, com chuvas abundantes. As encostas das montanhas encontram-se cobertas por uma vegetação espessa a qual ameaça o desenvolvimento da agricultura. As Terras Altas não estão menos expostas aos ciclones tropicais, que com alguma frequência provocam danos na zona.
Os primeiros desenvolvimentos culturais importantes desta região ocorreram na sua parte sul. A primeira cerâmica, oriunda da localidade deCuello no Belize, parece indicar que o desenvolvimento daolaria na Área Maia derivou das tradições sul-americanas. Séculos mais tarde, desenvolveram-se os primeiros centros populacionais que haveriam de converter-se em cidades no período clássico. Entre elas destacam-seKaminaljuyú eTikal. Esta última havia de tornar-se a maior das cidades maias entre os séculos III e VIII d.C. A decadência e abandono das grandes cidades maias ficou a dever-se a uma combinação de factores: guerras internas, desastre ecológico, mudança climática, migrações provenientes do norte da Mesoamérica. Desta forma, o coração da cultura maia transferiu-se para as terras doIucatão. Nesta região floresceriam as cidades tardias deChichén Itzá,Uxmal eTulum, entre muitas outras, e que na realidade eram pequenos estados hostis entre si.
A região deOaxaca foi desde a época mesoamericana uma das mais diversas. Trata-se de um território extremamente montanhoso, limitado pelaSierra Madre del Sur e peloescudo Mixteco. Inclui uma porção da bacia dorio Balsas, caracterizada por sua secura e relevo complicado. Nesse sentido, parece-se bastante à região do México Central.
Peitoral mixteco de ouro e turquesa, Brasão de Yanhuitlán
Foram dois os cenários principais da história cultural dos povos de Oaxaca. Por um lado, osvales centrais de Oaxaca viram surgir o desenvolvimento da culturazapoteca, uma das mais antigas e conhecidas no âmbito mesoamericano. Esta cultura desenvolveu-se a partir dos vários caciquismos regionais que controlavam a terra de cultivo (muito fértil, ainda que demasiado seca) dos pequenos vales de Etla, Tlacolula e Miahuatlán. Alguns dos primeiros exemplos de grande arquitectura na Mesoamérica pertencem a esta região, como o centro cerimonial deSan José Mogote. A hegemonia deste centro cerimonial na região dos vales passou depois paraMonte Albán, a capital clássica dos zapotecos. A queda de Teotihuacan noséculo VIII permitiu o apogeu da cultura zapoteca. Ainda assim, a cidade de Monte Albán foi abandonada noséculo X, dando lugar a uma série de centros regionais que disputavam entre si a hegemonia política.
A poente dos vales, localiza-se a regiãoMixteca. Trata-se de um terreno extremamente montanhoso com altitudes muito variáveis que chegam a ultrapassar os 3 000 metros sobre o nível do mar. Os climas variam do temperado de montanha ao tropical seco, e a chuva é geralmente escassa. Existem poucos cursos de água, e actualmente boa parte da região apresenta um grau dedesflorestação alarmante devido à agricultura deroça praticada pelos antigos habitantes da região. A Mixteca é também uma zona ocupada desde tempos imemoriais. Já desde o período pré-clássico haviam-se formado nesta região vários núcleos populacionais importantes, comoYucuita eCerro de las Minas. No entanto, as capitaismixtecas nunca alcançaram a magnitude das suas vizinhas zapotecas. O apogeu da cultura mixteca foi alcançado no período pós-clássico, quando o senhorOito Veado deTututepec eTilantongo empreendeu uma campanha de unificação política das cidades-estado mixtecas, chegando a ocupar osvales centrais de Oaxaca.
Tradicionalmente considera-se Guerrero como uma região pertencente à área Ocidente. No entanto, as descobertas mais recentes reorientaram a divisão das áreas culturais mesoamericanas, e nos trabalhos académicos dos últimos tempos Guerrero aparece como uma área cultural independente. Guerrero ocupa aproximadamente a área correspondente aoestado mexicano do mesmo nome, localizado no sul do México. Pode dividir-se em três regiões com características diferentes: a norte, a depressão dorio Balsas, onde este curso de água tem a maior influência sobre a configuração da geografia regional. A depressão do Balsas é uma região baixa, de clima quente e chuvas escassas, cuja secura é minorada pela presença do rio Balsas e seus numerosos afluentes. A parte central corresponde à Sierra Madre del Sur, região rica emdepósitos minerais e com escassas potencialidades agrícolas. A parte sul da área guerrerense é constituída pela costa doPacífico, uma estreita planície costeira, repleta demanguezais epalmeiras, fustigada pelosfuracões do Pacífico.
Guerrero foi o cenário das primeiras tradiçõescerâmicas da Mesoamérica. Os vestígios mais antigos desta foram encontrados aqui, em Puerto Marqués, próximo deAcapulco, com idade aproximada estimada em 3500 anos. Durante o período pré-clássico, a bacia do Balsas converteu-se numa zona de importância vital para o desenvolvimento da culturaolmeca, que deixou marcas da sua presença em locais comoTeopantecuanitlán e asgrutas de Juxtlahuaca. Mais tardio foi o desenvolvimento de uma tradição escultórica conhecida comoMezcala, caracterizada pela sua tendência para a geometrização do corpo humano. Durante o período pós-clássico, a maior parte de Guerrero caiu sob o domínio dosmexicas, permanecendo independente apenas o senhoriotlapaneco de Yopitzinco.
O Ocidente é uma das zonas menos conhecidas da Mesoamérica. Trata-se de uma extensa região, que inclui as encostas daSierra Madre Occidental, uma parte da Sierra Madre del Sur e a bacia média e baixa dorio Lerma. Os contrafortes da montanha estavam cobertos de bosques depinheiros ecarvalhos, cuja extensão tem diminuído devido à actividadesilvícola. A terra tem aptidão agrícola pela sua fertilidade e pela disponibilidade de recursos hídricos, especialmente na planície costeira deSinaloa, nobajío e nameseta Tarasca. Os climas variam desde frio de montanha no oriente deMichoacán, até ao clima tropical das costas deNayarit.
A região foi habitada por povos de falauto-asteca, como oscoras,huichol e tepehuanos. A incorporação destes povos na esfera da civilização mesoamericana foi muito gradual, e presume-se que os primeiros avanços na cerâmica da região estiveram ligados às tradições dos povosandinos doEquador ePeru. As mudanças que afectaram as restantes regiões de forma clara são menos observáveis no Ocidente, por isso, as tradições culturais do período pré-clássico, como as deColima,Jalisco eNayarit ou a dostúmulos de poço, sobreviveram até bem dentro do período clássico (150-750/900d.C.). A mais conhecida das sociedades do Ocidente é apurépecha ou tarasca, que rivalizou noséculo XV com o poderio dosmexicas.
A zona Norte da Mesoamérica formou parte desta superárea cultural apenas durante o período clássico (150-750 d.C.), altura em que o apogeu deTeotihuacan e o crescimento da população favoreceram as migrações em direcção ao norte bem como o comércio com as longínquas terras daOasisamérica. Trata-se de um território plano, situado entre as Sierra Madre Oriental e Occidental. O clima é seco, quase desértico, e a vegetação é escassa, pelo que a agricultura no norte só foi possível mediante a canalização dos cursos de água superficiais (entre os quais se destaca orio Pánuco e os afluentes dorio Lerma) e ao armazenamento da água da chuva. A excessiva dependência do bom clima levou os povos do norte da Mesoamérica a abandonar a região em meados doséculo VIII, altura em que enfrentaram umaseca prolongada e as invasões de povos oriundos daAridoamérica.
Os centros populacionais do Norte estavam dependentes da rede de comércio que se estabeleceu entreTeotihuacan e as sociedades da Oasisamérica. Sítios comoLa Quemada emZacatecas, ouLa Ferrería emDurango, serviram como fortes para vigiar as rotas comerciais. Quando a agricultura e o sistema social entraram em colapso, os habitantes desta região migraram em direcção ao ocidente, aogolfo do México ou ao México Central.
A área conhecida como Centroamérica (não confundir comAmérica Central), ocupa as costaspacíficas deEl Salvador,Honduras,Nicarágua e apenínsula de Nicoya naCosta Rica. Trata-se de uma região de clima tropical, com actividadesísmica importante, incluindo também os dois grandes lagos daAmérica Central: olago Nicarágua e olago Manágua. Como no caso da região Norte, a Centroamérica fez parte da Mesoamérica apenas temporariamente. Costuma considerar-se que os povos centro-americanos formam parte da chamada zona de transição entre o mundo andino e a Mesoamérica. Os primeiros contactos com a área nuclear da Mesoamérica ocorreram noperíodo pré-clásssico, como indica a influência olmeca nesta região. No entanto, no período clássico, as relações foram interrompidas e a Centroamérica recebeu um maior influxo das culturas do planalto colombiano. Exemplo disto é o desenvolvimento dametalurgia na Centroamérica, muito anterior ao que se verificou nos restantes povos mesoamericanos. No entanto, nos sítios salvadorenhos deTazumal,San Andrés e outros, é visível a influência deTeotihuacan,Copán e outros sítios maias. No período pós-clássico, toda esta área ficou novamente incluída na esfera mesoamericana, sendo invadida por povos como ospipiles e nicaraos, falantes do nahuat, um dialecto do idioma falado pelosmexicas e percebe-se na cultura e arquitectura a influência detoltecas eastecas.
A Mesoamérica distingue-se por ter sido a primeira região daAmérica em que se desenvolveram civilizações complexas. Os primeiros sinais da presença humana na Mesoamérica foram encontrados num local de abate demamutes em Santa Isabel Ixtapan, novale do México, perto deTexcoco. Juntamente com os restos de um mamute desmembrado encontrou-se uma grande variedade de ferramentas desílex eobsidiana, estimando-se que este local date de 7 700 a 7 300 a.C.
A primeira civilização complexa conhecida na Mesoamérica é a dosolmecas, que habitaram a região costeira dogolfo do México durante o período pré-clássico inicial, a partir de1300 a.C., com apogeu entre1150 e700 a.C. nos sítios deLa Venta eSan Lorenzo Tenochtitlan. Foram encontrados vestígios de outras culturas iniciais, possivelmente ligadas aos olmecas emAbaj Takalik eIzapa.
Mais tarde, cerca de100 a.C.,Teotihuacan foi fundada, tornando-se dominante durante o período clássico até cerca do ano 900, influenciando grande parte da Mesoamérica.
No período pós-clássico tardio ou terminal, deu-se o florescimento da culturaasteca no México central, dos maiasquiché deUtatlán nas terras altas daGuatemala, dostarascos no noroeste com a sua capitalTzintzuntzan. O período pós-clássico terminou com aderrota dos astecas pelos espanhois em 1519. No entanto, muitos grupos culturais só muito mais tarde cederam aos espanhois. Por exemplo, os grupos maias do Petén, incluindo ositza deTayasal e os ko'woj de Zacpeten permaneceram independentes até 1697.
Algumas culturas da Mesoamérica nunca antigiram uma posição dominante, tampouco deixaram vestígios arqueológicos relevantes, mas não deixam por isso de ser dignas de nota. Por exemplo, osotomis, oscora ehuichol (também chamados dechichimecas), os chontais, huaves, e os povos centro-americanosxincas elencas.
A Mesoamérica continua a ser, ainda hoje, uma região extremamente rica do ponto de vista cultural e da diversidade linguística e os povos indígenas da Mesoamérica moderna mantêm muitas das tradições dos seus antepassados, apesar de 500 anos de grande pressão de parte da moderna civilização europeia.
Ao delimitar geograficamente a área mesoamericana, Paul Kirchoff propõe também uma série de características que definem as culturas desta região e que são comuns a todas elas. Entre estes traços culturais sublinha o uso de dois calendários (um ritual de 260 dias e outro de 365 dias), umsistema de numeração de base vinte e aescrita pictográfico-hieroglífica, osacrifício humano, o culto a certasdivindades (em que sobressaem os cultos às divindades da água, fogo e aSerpente Emplumada, entre outros.
Apesar de Paul Kirchoff haver dado uma definição geral da Mesoamérica, actualmente aquela vai mais além de simples critérios materiais (cultivo do milho, utilização do algodão, politeísmo, etc.), e inclui aspectos culturais que tem as suas raízes nas primeiras sociedades sedentárias da região. Christian Duverger argumenta que o expoente máximo da civilização mesoamericana foi a civilizaçãomexica. No entanto, esta afirmação tem sido contestada por outros autores (como López Austin, López Luján e Florescano), os quais sustentam que a civilização mesoamericana é o resultado da participação de múltiplos povos com crenças diferentes. Apesar da diversidade étnica, a Mesoamérica alcançou um grau de relativa homogeneidade graças aos contactos existentes entre as diferentes regiões por meio de trocas comerciais ou campanhas militares.
O calendário de 260 diasTonalpohualli, cuja aparição remonta a 1 200 a.C., reflecte a evolução do costume de medir o tempo, não só para saber em que dias semear, que celebrações religiosas celebrar, ou como se movimentam os astros, mas também com fins divinatórios.
Os nomes utilizados para identificar os dias, os meses e os anos no mundo mesoamericano têm origem, em grande parte, na visão mágico-religiosa que os habitantes da Mesoamérica tinham do meio natural em que estavam inseridos no período pré-clássico: animais, flores, os astros e a morte. Este calendário está presente em todas as zonas culturais da Mesoamérica.
Códice Nuttal (mixteca). Todos os povos da antiga Mesoamérica desenvolveram sistemas de escrita. No entanto, uma vez que a sua natureza é completamente diferente da escrita fonética ocidental, muitos linguistas não a consideram como uma verdadeira escrita.
A escrita glífica e o seu estudo têm passado por diversas etapas. Desde os primeiros estudos discute-se se o sistema glífico mesoamericano (excluindo o sistema maia) é evidência de um sistema de sinais que expressavam ideias, principalmente religiosas não utilizando a fonética. Relativamente ao uso de elementospictográficos e sua relação com os ícones, a escrita mesoamericana sempre conteve uma grande variedade de significados, não apenas uma visão artística, mas também religiosa e cultural. Osglifos incluem personagens, animais, topónimos, entre outros, que estão presentes em todas as culturas mesoamericanas, incluindo Teotihuacan, onde as imagens são belas e artisticamente elaboradas. Predominam os glifos pictográficos e ideográficos.
A utilidade da escrita entre os mesoamericanos foi variada: serviu para permitir a interpretação de sinais enviados pelos astros relativamente ao nome e destino das pessoas, ou para explicar osmitos ehistórias dos povos, que eram plasmados nos glifos, quer em pedras quer em manuscritos. Este trabalho era feito pelos sacerdotes, sendo eles os únicos capazes de entender as imagens.
No entanto, o uso da escrita como forma de legitimar o poder dos governantes foi talvez o mais importante. A escrita mesoamericana foi uma escrita exibida em monumentos públicos, pinturas murais, estelas e estruturas piramidais, que davam a todas as pessoas comuns uma explicação simples do poder dos seus senhores, como se de propaganda se tratasse.
Estátua deTlaloc, divindade da chuva dos povos da area central do mesoamerica. Foi encontrada em Coatlinchan, Estado do México, e levada para oMuseu Nacional de Antropologia na Cidade do México. Enquanto era transportada pela cidade, caiu um aguaceiro de proporções memoráveis.
O enterramento de ricas oferendas dadas à terra, nos centros cerimoniais, tem a sua origem no início da sedentarização de grupos outrora nómadas. Os espaços cerimoniais e seculares eram delimitados, como forma de estabelecer uma ordem cósmica na terra, que justificava o domínio das classes governantes sobre a restante sociedade.
Eram típicas as oferendas aos deuses originais, o antigo fogo do vulcão e a Mãe Terra. A oferta de todos os indivíduos duma comunidade consistia num montículo de terra, e mais tarde, na construção de pirâmides. Estas estruturas seriam depois utilizadas como altares para ofertas e outras cerimónias religiosas.
As oferendas eram importantes para os centros cerimoniais: davam-lhes os poderes ideológico e religioso. A ocorrência de saques das oferendas efectuadas indica algo mais que a busca de riquezas: era uma forma de debilitar e/ou erradicar o poder religioso e político dum centro cerimonial. O significado real das oferendas está ainda por esclarecer, mas pensa-se que cada objecto tivesse um poder mágico, independentemente da sua antiguidade.
Tzompantli ou uro das caveiras. Estes monumentos recordam pessoas que foram sacrificadas para manter o movimento (e a vida) das principais forças cósmicas: a luz e as trevas.
Quando se fala desacrifícios humanos, não se trata simplesmente de matar por gosto. O acto de sacrificar tem um grande significado religioso-político. O sacrifício significa a renovação da energia cósmica divina pois os deuses deram a vida ao homem, sacrificando a sua própria. O homem deverá entregar a sua vida para manter a ordem divina estabelecida.
Osangue é sinónimo de vida na crença mesoamericana: o sangue humano é o líquido que sacia a sede dos deuses (neste caso o deusSol), sendo parcialmente constituído de sangue dos deuses. Com o sangue revitalizam-se não só as divindades, mas também a própria terra, as plantas e os animais (como aáguia e ojaguar). O sangue é, tal como a água, necessário à vida na terra e à vida celestial.
Esta obrigação de revitalizar a ordem cósmica está reflectida nas sociedades mesoamericanas através das imagens que evocam o sacrifício:águias ejaguares devorando corações humanos; a presença de círculos dejade ouchalchihuites que representam corações; imagens que por um lado reflectem pedidos dechuva e por outro de sangue, com um mesmo propósito: repor a energia divina; a presença de plantas e flores que simbolizam a natureza e ao mesmo tempo o sangue donde brota a vida.
Qual a importância dos sacrifícios nos aspectos sociais e religiosos das culturas mesoamericanas? Em primeiro lugar, a presença da morte convertida em deus. Amorte é a consequência do sacrifício do homem, mas não é o fim; é a continuação do ciclo cósmico. A morte gera vida, a energia divina é libertada depois da morte e devolvida aos deuses, para que estes gerem nova vida. Em segundo lugar, justificam a guerra, pois nesta actividade conseguem-se os sacrifícios mais valiosos: os guerreiros que possuem a energia necessária para fortalecer os deuses nas suas constantes actividades divinas. A captura de prisioneiros e a guerra convertem-se então num meio de ascensão social e ao mesmo tempo num jogo divino. Por último, justificam o controlo do poder real de dois sectores das sociedades mesoamericanas: os sacerdotes, que controlam a ideologia religiosa e os guerreiros, que fornecem os sacrifícios às cerimónias por meio da guerra e da conquista de territórios (com os respectivos tributos).
O aumento do número de divindades mesoamericanas deu-se graças à incorporação de elementos ideológico-religiosos novos na religião primitiva (cujas divindades eram Fogo, Terra, Água e Natureza) como as divindades astrais (Sol, estrelas, constelações,Vénus) e suas representações emesculturasantropozoomórficas,antropomórficas,zoomórficas ou formas de objectos quotidianos.
As qualidades dos deuses bem como os seus atributos mudaram através dos tempos e da influência cultural de outros grupos mesoamericanos. Deuses que são três entes cósmicos diferentes e ao mesmo tempo um só. A religião mesoamericana tem uma outra característica importante: a existência de dualismo entre as divindades, com o enfrentamento entre polos opostos: positivo, exemplificado pela luz, o masculino, a força, a guerra, o sol, etc.; e o negativo, as trevas, o feminino, o sedentarismo, a paz, a lua, etc.
Entende-se por pensamento dualista a capacidade dos indígenas em pensar os contrários de um modo único, estando este modo de pensamento patente quer na religião quer na política, nas crenças populares e nos comportamentos quotidianos. Este tipo de pensamento nasceu da sobreposição entre osnahuas e os autóctones da Mesoamérica, isto é, duma fusão cultural entre ambos. Existem inúmeras manifestações deste tipo de pensamento, mas apenas se considerarão as mais representativas: onagualismo e ojogo da bola.
Oxoloitzcuintle é um dosnaguales do deusQuetzalcóatl. Sob esta forma, ajuda os mortos a atravessar oChicnahuapan, um rio que separa o mundo dos vivos do mundo dos mortos.
Entende-se por nagualismo a capacidade do ser humano em encarnar um aspecto animal ou a prática donahual. Esta palavra designa a encarnação animal de um homem ou ainda o homem que tem o poder de encarnar-se nesse animal, mas no fundo esta crença é a afirmação de que se pode ser homem e animal ao mesmo tempo. Ao contrário dototemismo, que tem um valor colectivo, é algo estritamente individual. Existemnaguales muito conhecidos como o jaguar ou a águia, mas também de animais mais modestos como oxoloitzcuintle, o armadilho (dasipodídeos;clamiforídeos), otlacuache, etc.
Dentro da arte pré-hispânica, o nagualismo é interpretado de diversas formas, sendo a primeira delas pouco inteligível para nós, uma vez que se tem a impressão de estar frente a um armadilho ou a um jaguar, mas na realidade o que é representado é umnagual de um deus ou de um soberano. A segunda forma apresenta-se mais directa, o homem e o seu duplo apresentam-se juntos, como uma só criatura antropozoomórfica, isto é, com uma parte de humano (a cabeça, os braços) e uma parte animal (patas, bico, cauda, etc.). O nagualismo é uma ideia típica da Mesoamérica, a qual designa exclusivamente a relação homem-animal.
Campo de jogo da bola de Xochicalco. O jogo da bola era uma cerimónia ritual, que dramatizava o movimento dos astros. O jogo terminava com um sacrifício.
Ojogo de bola é um dos rasgos culturais mais importantes da Mesoamérica. Não se tratava de umdesporto ainda que pelo seu nome seja muitas vezes entendido como tal. Deve ser entendido como um ritual e o terreno em que se jogava está sempre situado em centros cerimoniais. Este jogo tinha uma essência cósmica, estando relacionado com o movimento dosol e douniverso, movimento este representado com o auxílio de uma bola, feita deborracha endurecida, extraída da seiva de umafigueira; este material era escolhido pelas suas características elásticas.
Existiam muitas regras neste jogo, variáveis de região para região. Em alguns lugares só se podia jogar com as mãos, noutros com a cintura e com os cotovelos ou ainda apenas com um bastão. Para cada tipo existiam diferentes tipos de campo: um com paredes laterais inclinadas para que a bola ressaltara à altura da cintura, outro com o solo removido. De um modo geral, todos os campos tinham uma forma de I e nas extremidades podiam ser vistas cabeças de aves, como emCopán ou grandes aros pelos quais tinha que passar a bola, como emXochicalco. O jogo da bola terminava com um sacrifício humano, não se sabendo se o sacrificado era o capitão da equipa ganhadora ou aquele da perdedora; na maioria dos casos tratava-se de prisioneiros de guerra.
Relativamente ao saber mesoamericano, este pode ser visto segundo dois eixos principais: o espírito mágico e o espírito lógico, os quais, ainda que distintos, coexistiam. No âmbito da medicina, existiam duas escolas: uma de tradiçãoxamânica, entendendo porxamã um sacerdotecurandeiro que se ocupava de certas enfermidades, a mais frequente das quais era a perda da alma. Com vista à recuperação dos seus pacientes, o xamã recorria à utilização de váriospsicotrópicos (peiote,tabaco, feijões vermelhos carregados demescalina) e às manipulações mágicas (encantamentos,oferendas).
A outra medicina baseava-se num saber pragmático. Na Mesoamérica existiam curandeiros que sabiam tratar as fracturas, curar e fechar feridas; eram inclusivamente praticadas algumas intervençõesobstétricas. Além disto, também utilizavam plantas (por exemplo a casca dosalgueiro) para tratar doenças.
Numeração maia. Os sistemas de numeração mesoamericanos baseavam-se no número vinte.
A aritmética não era vista como tratando-se apenas de números, sendo-lhe atribuído um valor e um conteúdo simbólicos, graças ao pensamento dualista. O sistema mesoamericano era vigesimal, ou seja, tinha base 20 e os números eram representados através de pontos que valiam um e de barras que tinham o valor de 5. Este tipo de aritmética combinava-se com umanumerologia simbólica: o 2 está relacionado com a origem, pois toda a origem é tida como desdobrável; o 3 com o fogo doméstico; o 4 ligado aos quatro cantos do universo; o 5 expressa instabilidade; o 9 faz referência ao mundo subterrâneo e à noite; o 13 é o número da luz; o 20 o da plenitude e o 400 o do infinito.
Uma das grandes contribuições para a aritmética, devida aosmexicas, foi a invenção donepohualtzitzin, que é umábaco utilizado para realizar operações aritméticas de forma rápida. Este dispositivo, fabricado com madeira, fios e grãos demilho, é também conhecido comocalculadora asteca.
No que respeita àastronomia, esta surge a partir da observação dos astros e da construção simbólica da vida cósmica. Os mesoamericanos compreenderam que océu estava organizado segundo ciclos regulares originando uma sucessão deestações e fenómenos astronómicos. Associavam figuras deanimais eplantas às diferentesconstelações e os seus conhecimentos astronómicos foram-se acumulando ao longo demilénios. Este processo culminaria com a invenção docalendário, cujas origens se encontram no período pré-clássico médio, apoiada não tanto na observação dos astros, mas naaritmética.
Estes dois termos estão associados aos quatropontos cardeais e ligados aocalendário, assegurando assim a rotação das qualidades do espaço. Por outras palavras, na Mesoamérica, uma data ou um acontecimento estava sempre vinculado a umadirecção do universo e o calendário exprimia uma topografia simbólica, característica peculiar deste período. Os dias estavam associados, segundo o seu nome, a um ponto cardeal que lhes conferia um significado mágico.
Os símbolos donorte eram:vento,morte,cão,jaguar,sílex. Este ponto contrasta com o oriente porque em termos simbólicos é árido, frio e opressivo. Era considerado como a parte nocturna do universo, como morada dos mortos. O cão (xoloitzcuintle) tem aqui um significado singular, uma vez que é ele que acompanha o defunto durante a viagem e que o ajuda a cruzar o rio de além-túmulo, que o conduz ao nada.
Os símbolos dosul eram:coelho,lagartixa, erva seca,urubu,flor. Por um lado estava relacionado com o sol luminoso e quente do meio-dia, por outro, com a chuva repleta de bebida alcoólica. O coelho, símbolo principal, era associado com os agricultores e opulque.
Com isto pode dizer-se que uma característica mesoamericana é a geografia simbólica, a qual leva a qualidades imaginárias e não a um lugar específico; se assim fosse então estes símbolos não seriam aplicáveis à Mesoamérica em geral, mas existiria um sem número deles para cada zona geográfica.
Omicaohtli, emTeotihuacan. As cidades mesoamericanas estão orientadas relativamente a certos pontos notáveis da observação astronómica.
Os centros cerimoniais são a base das povoações da Mesoamérica pois determinam a existência dourbanismo, que não é mais que uma porção de espaço que caracteriza os centros cerimoniais, os quais constituem o coração do espaço sagrado. Os centros têm como função orientar o espaço e transmitir esta orientação ao espaço que os rodeia. As cidades com os seus centros cerimoniais constituíam sempre a entidade política e cada um podia ser identificado segundo a cidade em que vivia. Os centros cerimoniais eram sempre construídos para serem vistos. As pirâmides eram construções que sobressaíam relativamente ao resto da cidade, para manifestar os seus deuses e as suas capacidades.
Todas as construções cerimoniais eram executadas em várias fases construtivas, cada uma delas sobre a anterior, de modo que é visível na actualidade a última etapa da construção. Em poucas palavras, os centros cerimoniais são a tradução arquitectónica da identidade de cada cidade projectada em veneração aos seusdeuses e senhores.
Upakal K'inich, numa estela dePalenque. Este tipo de monumentos públicos foi muito comum em toda a Mesoamérica, e tinham por objectivo comemorar acontecimentos notáveis ou façanhas da classe dominante.
Neste período concebiam-se vários tipos de além, razão porque se praticavam vários tipos de funerais: simples ou múltiplos,fossas, câmaras construídas emalvenaria,urnas, etc. Acremação era também utilizada, sabendo-se hoje que a posição social que a pessoa ocupara ou o modo como se morrera eram dois factores que determinavam o tipo de enterro. Chega-se assim a uma conclusão: a ideia de uma viagempost-mortem e o túmulo como ponto de partida para uma viagem ao além. Os mesoamericanos criam em três destinos (designações em nauatle):
Cincalco (a casa do milho), a que apenas acediam os que haviam sido mortos no campo de batalha, na pedra sacrificial ou as mulheres que morriam durante o trabalho de parto;
Mictlan (lugar dos mortos), inframundo que consistia numa peregrinação subterrânea que conduzia os mortos ao extremo norte do mundo;
Tonatiuhichan (a casa do sol), o paraíso do sol, situado na direcção este. Tratava-se de um sítio dominado pelo sol.
Em cada enterro eram colocadosalimentos e bebidas depositados em objectos debarro para que o morto pudesse alimentar-se durante a viagem; eram também colocadas máscaras para protegê-los do frio.
A expressãoartística estava condicionada pelaideologia, que misturava ao mesmo tempo areligião e opoder; grande parte das obras que sobreviveram à conquista europeia eram monumentos públicos. Este tipo de arte foi criado sobretudo para ser visto, constituindo a chave para a contagem do tempo, a grandeza da cidade e a veneração dos deuses. Existe, além deste, outro tipo de arte pré-hispânica que tem a ver com o aspecto oculto; diferencia-se do primeiro no facto de não poder ser observado, estando o seu valor associado ao que representa, por exemplo, vasilhas de barro que eram utilizadas nos enterros ou as caras invisíveis das estátuas.
A arte permanecia no anonimato, pois nunca se encontrou qualquer assinatura de quem a realizava; além disto, era uma arte abstracta, não em termos figurativos, mas no sentido de que se encontra desligada de qualquer referência naturalista. Mais ainda, a arte pré-hispânica era também consideradahiperintelectual, capaz de libertar-se de toda obrigaçãorealista.
Seguindo esta ideia surgem duas observações: a primeira refere-se à imagem austera que lhe foi conferida pelaarqueologia: geralmente, tinha-se preferência pelas coisas nobres, objectos de museus; as pedras perecíveis com o tempo eram objecto de antipatia, apesar de serem essenciais para os centros cerimoniais mesoamericanos.
A segunda observação refere-se ao problema das falsificações que foram e ainda são feitas. A inspiração dos falsificadores tem um papel importante nesta problemática, uma vez que foram obrigados a inventar desenhos novos para assim conseguirem vendê-los aos coleccionadores, pois a estes o que é novo chama-lhes a atenção. Tudo isto tem como consequência uma má compreensão da arte na Mesoamérica.
Várias espécies de milhocriollo. O estado e toda a civilização mesoamericana então ligados com o cultivo deste cereal, cuja maior variedade de espécies se encontra na área mesoamericana.
A Mesoamérica surge com as primeiras manifestações da culturaolmeca cerca de 1200 a.C., as quais mostram que mesmo quando não eram ainda agricultores, já contavam com uma sociedade estatal. Estas sociedades possuíam um sistema de poder e uma divisão do trabalho muito elaborados; a organização territorial baseava-se em torno da cidade que se situava em redor de um centro cerimonial; tinham tambémmoedas de troca:penas, peças dealgodão,sementes,grãos; a estas foi adicionado mais tarde ometal.
A Mesoamérica é considerada por vezes como afilha do milho, e não teria alcançado o nível de desenvolvimento que alcançou sem este produto agrícola; por este motivo o milho constitui a peça mais importante tanto na vida quotidiana como no âmbito religioso e mais que um recurso natural é visto como o elemento principal da agricultura. A alimentação baseava-se na recolecção, na caça e na pesca; consumiamquelites (verduras), fruta, frutas decactáceas como apitaia e atuna, lagarta demaguei; além destes também frutos como oabacaxi, apapaia e omamei. Caçavamiguanas,rãs,serpentes e consumiam tambémmoluscos. Tratava-se de uma alimentação bastante variada e rica.
O desenvolvimento tecnológico possibilitou novos achados científicos, como por exemplo, oLidar. Utilizado nesse contexto para descobrir a localização de Valeriana, conforme publicado pela revista Reuters: "Archeologists inMexico have discovered a huge, lost Mayan city, which they named Valeriana, hidden deep in the southern jungle of Campeche -- a sprawling, urban settlement, replete with architectural marvels and agricultural infrastructure. (...) Valeriana was discovered by chance thanks toLidar, or Light Detection and Ranging, a technology that uses lasers to map and analyze archaeological landscapes."[1]
A análise deDNA Ambiental é uma técnica que pode ser utilizada para identificar espécies vegetais na região de Yaxnocah, no sul da Península deYucatán, contribuindo para entender práticas como manejo de água, agrofloresta e adaptação agrícola. Podemos ver essa técnica sendo utilizada no trabalho apresentado na revista Frontiers: "Agricultural adaptation, agroforestry, and water management were key for the ancient Maya to guarantee wellbeing and survival. During the Preclassic Maya occupation, upland and scrub vegetation were present in the area, though with fluctuating cover and distribution over time. Pine savanna may have been induced by anthropogenic burning or by a successional pathway to open vegetation types in drier times during the Preclassic period."[2]
Umartigo de 2025 daCambridge University Press divulgou sobre a paligorskita de Sacalum, um mineral argiloso inorgânico extraído de uma mina localizada na vila de Sacalum através deanálise elementar,Yucatán, México. Este mineral, conhecido como "sak lu'um" pelos maias, foi utilizado na produção do pigmento Azul Maya. A mina de Sacalum contém uma camada rica de paligorskita que foi explorada desde o período pré-colombiano, sendo uma fonte importante para a criação do pigmento devido às suas propriedades únicas. O Azul Maya estava profundamente associado ao deusChaahk, o deus da chuva na cultura maia. Ele simbolizava a própria essência deChaahk, além de representar água, chuva e fertilidade. O pigmento era usado em rituais e sacrifícios dedicados aChaahk, reforçando sua conexão com a importância da chuva e da agricultura para os maias.
Mais recentemente foi encontrado um altar nas selvas guatemaltecas que corrobora evidências da cooperação das culturasmaias eteotihuacanas, sendo divulgado em abril de 2025. "Edwin Román, who leads the South Tikal Archaeological Project within the park, said the discovery shows the sociopolitical and cultural interaction between the Maya of Tikal and Teotihuacan’s elite between 300 and 500 A.D. Román said the discovery also reinforces the idea that Tikal was a cosmopolitan center at that time, a place where people visited from other cultures, affirming its importance as a center of cultural convergence."[3]
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