Esta organização é lembrada principalmente por suas políticas deengenharia social, que resultaram em umgenocídio.[18] Suas tentativas dereforma agrária levaram à fome generalizada, enquanto sua insistência na autossuficiência, até mesmo nos serviços médicos, levou à morte de milhares de pessoas em consequência de doenças tratáveis (tais comomalária). Execuções brutais e arbitrárias etortura praticadas por seus oficiais contra elementos considerados subversivos, ou durante expurgos em suas próprias fileiras entre 1976 e 1978 são consideradas como tendo constituído um genocídio,[19] com mortes atingindo cerca de 20% da população.
Depois da intervenção vietnamita em 1978, osEstados Unidos, oReino Unido, aChina e aTailândia ajudaram os Vermelhos a combater o novo governo.[20] O Khmer Vermelho e os partidos anticomunistas cambojanos encontraram um governo no exílio, que obtém o reconhecimento da maioria dos países ocidentais e asiáticos.[21]
O clandestino Partido Comunista da Kampuchea constituía a liderança secreta do Khmer Vermelho, uma vez que seu nome oficial era conhecido apenas por alguns íntimos: o Partido se denominava “angkar” (a “organização”) e anunciou oficialmente sua existência em 1977, quase dois anos após o estabelecimento daKampuchea Democrática. Após a queda do regime do Khmer Vermelho, o restante das forças guerrilheiras da organização ficou conhecidas como oExército Nacional do Kampuchea Democrático. Em 1981, o partido foi dissolvido e substituído peloPartido do Kampuchea Democrático.[22] Atualmente, o ex-líder comunistaHun Sen que lutou contraLon Nol pelo Khmer Vermelho e depois contraPol Pot é oPrimeiro-ministro do Camboja no partido que governa o país chamado dePartido Popular do Camboja.
Após tomar o poder, a liderança do Khmer Vermelho mudou o nome do país paraKampuchea Democrático. O Khmer Vermelho submeteu oCamboja a um radical processo dereforma social que tinha como objetivo a criação de uma sociedadecomunista puramente agrária,[23] de acordo com sua interpretação doMaoísmo. Os moradores das cidades foram deportados para o campo, onde foram misturados à população local e submetidos ao trabalho forçado. Estima-se que cerca de 2 milhões decambojanos tenham morrido em ondas de assassinatos,tortura efome, direcionadas particularmente contra a elite intelectual e educada.[24]
Tendo perdido o poder após umaintervenção militar vietnamita em dezembro de 1978, o Khmer Vermelho manteve o controle em algumas regiões e continuou a lutar como umaguerrilha. Em 1998, seu último refúgio, no Distrito de Anlong Veng, caiu perante as forças do governo.[25]
Seguindo ao seu líderPol Pot, o Khmer Vermelho impôs à sociedade cambojana uma forma extrema deengenharia social — uma forma radical de comunismo agrário onde a população teve de trabalhar em fazendas coletivas ou em projetos de trabalho forçado. Em termos de número de pessoas mortas como uma proporção da população (estimada em 2 milhões de pessoas em 1975[26]), foi o regime mais letal do século XX.[27]
O Khmer Vermelho queria eliminar qualquer pessoa suspeita de “envolvimento em atividades delivre mercado”. Suspeitos de serem capitalistas incluíam profissionais e quase todas as pessoas com alguma educação, muitos moradores de centros urbanos e pessoas com conexões com governos estrangeiros.[28]
O Khmer Vermelho acreditava que os pais estavamenvenenados pelo capitalismo. Consequentemente, as crianças foram separadas de seus pais esofreram uma lavagem cerebral socialista, e também aprenderam métodos de tortura com animais. As crianças foram “um instrumentoditatorial do Partido”[29] e receberam papéis de liderança em torturas e execuções.[18] Um de seus lemas em referência ao Novo Povo era: “Não existe beneficio em mantê-lo vivo. Não existe prejuízo em destruí-lo”.[30] A ideologia do Khmer Vermelho evoluía com o passar do tempo. Nos primeiros dias, o Khmer Vermelho era um partidocomunista ortodoxo e buscava inspiração nos comunistasvietnamitas.
O Partido se tornou maisanti-intelectual quando grupos de estudantes que estudavam na França retornaram aoCamboja. Os estudantes, incluindo o futuro líder do Partido,Pol Pot, foram fortemente influenciados pelo exemplo doPartido Comunista Francês (PCF).[24]
Após 1960, o Khmer Vermelho desenvolveu suas próprias ideias políticas. Contrário àdoutrina marxista, o Khmer Vermelho considerava os camponeses como sendo o únicoproletariado e os verdadeiros representantes daclasse trabalhadora — uma forma demaoísmo que os levou para o lado doschineses naCisão Sino-Soviética. Começaram a incorporar o nacionalismo khmer à sua ideologia, assim como também o anti-intelectualismo, nesta época. Isto se tornou evidente durante a perseguição dechineses étnicos,tais,muçulmanos,cristãos (em sua maioriacatólicos), etc.
Nadécada de 1970, a ideologia do Khmer Vermelho combinava suas próprias ideias com asideias anticolonialistas do PCF, que os líderes adquiriram durante sua educação em universidades francesas, durante os anos de1950. Os líderes do Khmer Vermelho também guardavam muito ressentimento dos vietnamitas e estavam determinados a estabelecer uma forma de comunismo muito diferente tanto do modelo vietnamita quanto de outros países comunistas, incluindo aChina.
O Khmer Vermelho é lembrado principalmente pelas mortes de um número estimado de 1,5 milhão de pessoas, ou um quinto da população total do país[32] (as estimativas variam entre 850 mil e 2,5 milhões) durante o regime, devido aexecuções,tortura,fome etrabalho forçado. Devido ao grande número de mortes e ao fato de grupos étnicos e religiosos serem alvos, as mortes durante ogoverno do Khmer Vermelho são muitas vezes consideradas como umgenocídio, conforme definido no âmbito daConvenção da ONU de 1948.
A história do movimento comunista noCamboja pode ser dividida em seis fases: o surgimento doPartido Comunista da Indochina (PCI), cujos membros eram quase que exclusivamentevietnamitas antes daSegunda Guerra Mundial; a luta de 10 anos pela independência daFrança, quando um partido comunista separado, oPartido Revolucionário do Povo Kampucheano (ou khmer) (PRPK) foi estabelecido sob o patrocínio do Vietnam; o período seguinte ao Segundo Congresso do PRPK, em 1960, quando Saloth Sar (Pol Pot, após 1976) e outros futuros líderes do Khmer Vermelho ganharam controle do seu aparato; a luta revolucionária a partir do início da insurgência do Khmer Vermelho em 1967—68 até a queda do governo deLon Nol em abril de 1975; o regime daKampuchea Democrática, de abril de 1975 a janeiro de 1979, e o período seguinte ao Terceiro Congresso de Partido do PRPK, em janeiro de 1979, quandoHanói efetivamente assumiu o controle sobre o governo e o Partido Comunista do Camboja.
Em 1930,Ho Chi Minh fundou oPartido Comunista Vietnamita unificando três movimentos comunistas menores que surgiram nas regiões norte, central e sul doVietnam durante o final dos anos de1920. O nome foi alterado quase que imediatamente para Partido Comunista Indochinês, ostensivamente para incluir revolucionários do Camboja eLaos.
Quase sem exceções, todos os primeiros membros do Partido eram vietnamitas. No final da Segunda Guerra Mundial, um punhado decambojanos haviam entrado para as suas fileiras, mas a sua influência no movimento comunista da Indochina e nos acontecimentos dentro do Camboja foi insignificante.
Unidades doViet Minh ocasionalmente fizeram incursões a bases cambojanas durante sua guerra contra os franceses e, em conjunção com o governoesquerdista que governou aTailândia até 1947, o Viet Minh incentivou a formação dos bandos armados esquerdistasKhmer Issarak. No dia 17 de abril de 1950 (25 anos antes do dia em que o Khmer Vermelho capturouPhnom Penh), o primeiro congresso nacional dos grupos do Khmer Issarak se reuniu e a Frente Unida Issarak foi estabelecida.
Seu líder eraSon Ngoc Minh e um terço de sua liderança consistia de membros do PCI. De acordo com o historiadorDavid P. Chandler, os grupos esquerdistasIssarak, com a ajuda do Viet Minh, ocuparam um sexto do território do Camboja em 1952 e, às vésperas daConferência de Genebra, eles controlavam a metade do país.[33]
Em 1951, o PCI foi reorganizado em três unidades nacionais — o Partido dos Trabalhadores do Vietnam, oLao Itsala e o Partido Revolucionário do Povo Kampucheano (ou khmer) (PRPK). De acordo com um documento emitido após a reorganização, o Partido dos Trabalhadores Vietnamitas continuaria a “supervisionar” os movimentos menores laocianos e cambojanos. A maioria dos líderes do PRPK parece ter sido khmer krom ou vietnamitas étnicos vivendo no Camboja. O apelo do Partido aos khmers nativos parece ter sido mínimo.
De acordo com a versão da história do Partido contada na Kampuchea Democrática, a falha do Viet Minh em negociar um papel político para o PRPK na Conferência de Genebra de 1954 representou uma traição ao movimento cambojano, que ainda controlava grandes áreas no campo e que comandava pelo menos 5 000 homens armados. Após a conferência, cerca de 1 000 membros do PRPK, incluindo Son Ngoc Minh, realizaram uma “Longa Marcha” em direção aoVietnam do Norte, onde eles permaneceram em exílio.
No final de 1954, os membros que permaneceram no Camboja fundaram um partido político legal, oPartido Pracheachon, que participou nas eleições de 1955 e 1958 pela Assembleia Nacional. Nas eleições de setembro de 1955, o partido ganhou cerca de quatro por cento dos votos, mas não garantiu um assento no legislativo.
Os membros doPracheachon foram submetidos a constantes assédios e prisões, pelo fato de que o partido se encontrava fora da organização política deSihanouk, oSangkum. Os ataques do governo impediram o partido de participar nas eleições de 1962 e o levaram à clandestinidade. Sihanouk habitualmente rotulava a esquerda local como Khmer Vermelho, um termo que mais tarde veio a representar o Partido e o Estado liderados por Pol Pot,Ieng Sary,Khieu Samphan e seus associados.
Em meados da década de1950, as facções do PRPK, o “comitê urbano” (liderado porTou Samouth) e o “comitê rural” (liderado porSieu Heng) emergiram. Em termos gerais, estes grupos abraçavam linhas revolucionárias divergentes. A linha predominante “urbana”, defendida pelo Vietnam do Norte, reconhecia que Sihanouk, em virtude de seu sucesso em obter a independência dos franceses, era um líder nacional genuíno, cuja neutralidade e profunda desconfiança dosEstados Unidos faziam dele um recurso valioso na luta de Hanói para “libertar” oVietnam do Sul.
Defensores desta linha esperavam que o príncipe pudesse ser persuadido a se distanciar dadireita e a adotar políticas esquerdistas. A outra linha, apoiada em sua maior parte por partidários que eram familiarizados com a dura realidade do campo, defendiam uma luta imediata pela deposição do “feudalista” Sihanouk.
Em 1959, Sieu Heng desertou para o governo e forneceu às forças de segurança informações que permitiram que eles destruíssem 90% do aparato rural do Partido. Apesar das redes comunistas em Phnom Penh e outras cidades sob a jurisdição de Tou Samouth terem se saído melhor, apenas algumas poucas centenas de comunistas permaneceram ativos em 1960.
Durante os anos de1950, os estudanteskhmers emParis organizaram seu próprio movimento comunista, que tinha pouca ou nenhuma conexão com oPartido duramente reprimido em sua terra natal. Das suas fileiras vieram os homens e mulheres que retornaram ao país e tomaram o comando do aparato do Partido durante os anos de1960, lideraram uma eficiente insurgência contraLon Nol e estabeleceram o regime daKampuchea Democrática.
Pol Pot, que subiu à liderança do movimento comunista nos anos de 1960, nasceu em 1928 (algumas fontes dizem 1925) naProvíncia de Kampong Thom, a nordeste dePhnom Penh. Freqüentou uma escola técnica na capital e então foi a Paris em 1949 para estudar eletrônica de rádio (outras fontes dizem que ele freqüentou uma escola para impressores e tipógrafos e também estudouengenharia civil). Descrito por uma fonte como um “organizador determinado e laborioso”, ele não conseguiu obter um diploma, mas de acordo com o sacerdote jesuítaFrançois Ponchaud, ele adquiriu um gosto pelos clássicos daliteratura francesa, bem como para as obras deKarl Marx.
Outro membro do grupo estudantil parisiense eraIeng Sary, umsino-khmer nascido noVietnam do Sul. Frequentou oLiceu Sisowath em Phnom Penh antes de começar os cursos de comércio e política noInstitut d'Etudes Politiques de Paris (mais conhecido comoSciences Po) naFrança.Khieu Samphan, considerado “um dos mais brilhantes intelectuais de sua geração”, nasceu em 1931 e se especializou em economia e em política, durante seu período em Paris. No talento era rivalizado porHou Yuon, nascido em 1930, que era descrito como sendo “de uma verdadeiramente espantosa força física e intelectual” e que estudou economia e direito.Son Sem, nascido em 1930 cursoupedagogia e literatura;Hu Nim, nascido em 1932, estudou direito.
Estes homens foram talvez os líderes mais educados na história do comunismo asiático. Dois deles, Khieu Samphan e Hou Yuon, ganharam doutorados daUniversidade de Paris; Hu Nim obteve seu diploma na Universidade de Phnom Penh em 1965. Em retrospecto, parece improvável que estes talentosos membros da elite, enviados a França embolsas de estudo do governo, pudessem começar a mais sangrenta e radical revolução na história moderna daÁsia. A maioria deles vinha de famílias de proprietários de terras ou de funcionários públicos. Pol Pot e Hou Yuon tinham laços com a família real. Uma irmã de Pol Pot havia sido concubina do Rei Monivong. Três pessoas do grupo parisiense forjaram um vínculo que sobreviveu a anos de luta revolucionária e disputa intrapartidária, Pol Pot e Ieng Sary se casaram comKhieu Ponnary e Khieu Thitith (também conhecida como Ieng Thirith), parentes de Khieu Samphan. Estas duas mulheres bem educadas também desempenharam um papel central no regime doKampuchea Democrático.
O fermento intelectual de Paris deve ter sido uma experiência estonteante para os jovens khmers que vieram de Phnom Penh ou das províncias. Um número deles se voltou para omarxismo-leninismo ortodoxo. Em algum momento entre 1949 e 1951, Pol Pot e Ieng Sary ingressaram noPartido Comunista Francês, o mais bem disciplinado e marxista-leninista ortodoxo dos movimentos comunistas daEuropa Ocidental.
Em 1951, estes dois homens foram aBerlim Oriental para participar de um festival da juventude. Esta experiência é considerada como sendo um ponto de virada em seu desenvolvimento ideológico. Ao se encontrarem com khmers que lutavam ao lado doViet Minh (e que eles subsequentemente consideraram como sendo excessivamente subservientes aos vietnamitas), eles se convenceram de que apenas uma organização de partido firmemente disciplinada e a prontidão àluta armada poderiam realizar a revolução. Eles transformaram a Associação de Estudantes Khmers (AEK), da qual a maioria dos 200 estudantes khmers fazia parte, em uma organização de orientação esquerdista e nacionalista.
Dentro da AEK e suas organizações sucessoras se encontrava uma organização secreta conhecida comoCercle Marxiste. A organização era composta de células de três a seis membros, com a maioria dos membros não tendo nenhum conhecimento a respeito da estrutura geral da organização. Em 1952 Pol Pot, Hou Yuon, Ieng Sary e outros esquerdistas ganharam fama ao enviar uma carta aberta a Sihanouk, chamando-o de “o estrangulador da democracia infante”. Um ano depois, as autoridades francesas fecharam a AEK. Em 1956, no entanto, Hou Yuon e Khieu Samphan ajudaram a estabelecer um novo grupo, aUnião dos Estudantes Khmers. Nos bastidores, o grupo ainda era dirigido peloCercle Maxiste.
As teses escritas por Hou Yuon e Khieu Samphan expressavam temas básicos que mais tarde se tornariam as bases das políticas adotadas pela Kampuchea Democrática. O papel central dos camponeses no desenvolvimento nacional foi defendido por Hou Yuon em sua tese de 1955, “Os Camponeses Cambojanos e Suas Perspectivas de Modernização”, que desafiava o ponto de vista convencional de que urbanização e industrialização são precursores necessários do desenvolvimento.
O argumento principal da tese de 1959 de Khieu Samphan, “A Economia e Desenvolvimento Industrial do Camboja”, foi o de que o país precisava se tornar autoconfiante e pôr um fim à sua dependência do mundo desenvolvido. Em seus contornos gerais, a obra de Khieu refletia a influência da “Teoria da dependência”, que culpava o domínio econômico das nações industrializadas pela falta de desenvolvimento noTerceiro Mundo.
Após retornar aoCamboja em 1953,Pol Pot dedicou-se a trabalhar pelo Partido. Primeiramente, ele recrutou forças aliadas aoViet Minh operando nas áreas rurais daProvíncia de Kampong Cham (Kompong Cham). Após o fim da guerra, ele mudou-se paraPhnom Penh sob o “comitê urbano” deTou Samouth, onde ele se tornou um importante ponto de contato entre os partidos legais da esquerda e o movimento comunista clandestino secreto.[34]
Seus camaradas Ieng Sary e Hou Yuon se tornaram professores em uma nova escola particular, oLiceu Kambuboth, que Hou Yuon ajudou a estabelecer.Khieu Samphan, que regressou de Paris em 1959, lecionou como membro da faculdade de direito da Universidade de Phnom Penh e fundou uma publicação esquerdista delíngua francesa,L’Observateur. O jornal logo adquiriu uma reputação no pequeno círculo acadêmico dePhnom Penh. No ano seguinte, o governo fechou o jornal e a polícia deSihanouk humilhou publicamente Khieu espancando-o, despindo-o e fotografando-o em público — como Shawcross nota, “não é o tipo de humilhação que um homem perdoaria ou esqueceria”.[35]
Ainda assim, a experiência não impediu Khieu de defender a cooperação com Sihanouk, com o objetivo de promover uma frente unida contra as atividades dosEstados Unidos noVietnam do Sul. Conforme mencionado, Khieu Samphan, Hou Yuon e Hu Nim foram forçados a “trabalhar para o sistema”, entrando para o Sangkum e aceitando cargos no governo do príncipe.[36]
No final de setembro de 1960, vinte e um líderes do PRPK realizaram um congresso secreto em uma sala vaga da estação ferroviária de Phnom Penh. Este importante evento permanece envolto em mistério, pelo fato de seu resultado ter se tornado objeto de contenda entre facções comunistas khmers pró-vietnamitas e antivietnamitas.[36]
A questão de cooperação ou resistência a Sihanouk foi amplamente discutida. Tou Samouth, que defendia uma política de cooperação, foi eleito secretário geral do PRPK, que foi renomeado comoPartido dos Trabalhadores do Kampuchea (PTK). Seu aliado, Nuon Chea (também conhecido como Long Reth), tornou-se vice-secretário geral — entretanto,Pol Pot eIeng Sary foram nomeados para o Birô Político para ocuparem a terceira e a quinta posições na hierarquia do partido renomeado. A mudança do nome foi significativa. Ao se autodenominar umpartido dos trabalhadores, o movimento cambojano reivindicou estatuto de igualdade com oPartido dos Trabalhadores do Vietnam. O regime pró-vietnamita daRepública Popular do Kampuchea (RPK) sugeriu na década de1980 que o encontro de setembro de 1960 não foi nada mais do que o segundo congresso do PRPK.
No dia 20 de julho de 1962, Tou Samouth foi assassinado pelo governo cambojano. Em fevereiro de 1963, no segundo congresso do PTK, Pol Pot foi escolhido para suceder Tou Samouth como o secretário geral do Partido. Os aliados de Tou, Nuon Chea eKeo Meas foram removidos do Comitê Central e substituídos porSon Sem eVorn Vet. Daí em diante, Pol Pot e seus leais camaradas dos seus dias de estudante em Paris controlaram o centro do Partido, mantendo de fora os veteranos mais velhos, a quem eles consideravam excessivamente pró-vietnamitas.[37]
Em julho de 1963, Pol Pot, junto com a maior parte do Comitê Central deixaram Phnom Penh para estabelecer uma base insurgente na Província deRatanakiri, no nordeste. Pol Pot foi logo colocado em uma lista de 34 esquerdistas que foram intimados por Sihanouk a se juntarem ao governo e assinarem declarações dizendo que Sihanouk era o único líder viável para o país. Pol Pot eChou Chet foram as únicas pessoas da lista que escaparam. Todos os outros concordaram em cooperar com o governo e foram posteriormente colocados sob 24 horas de vigilância pela polícia.[38]
A região para onde Pol Pot e os outros se mudaram era habitada por minorias tribais, osKhmer Loeu, cujo duro tratamento (incluindo reassentamento e assimilação forçada) nas mãos do governo central fez com que eles se tornassem recrutas voluntários para uma luta de guerrilha. Em 1965, Pol Pot fez uma visita de vários meses aoVietnam do Norte e àChina.
Ele recebeu algum treinamento na China, o que aumentou seu prestígio quando ele voltou às áreas libertadas pelo PTK. Apesar das relações amistosas entreNorodom Sihanouk e oschineses, os últimos mantiveram a visita de Pol Pot um segredo de Sihanouk. Em setembro de 1966, o Partido mudou seu nome paraPartido Comunista da Kampuchea (PCK).
A mudança no nome do Partido foi um segredo bem guardado. Membros de escalão menor do Partido e até mesmo os vietnamitas não foram avisados, tampouco foram os seus associados até muitos anos depois. A liderança do Partido defendia a luta armada contra o governo, então liderado por Sihanouk. Em 1967, muitas tentativas de insurgência em pequena escala foram perpetradas pelo PCK, mas tiveram pouco sucesso.
Em 1968, as forças do Khmer Vermelho lançaram umainsurgência nacional peloCamboja (veja tambémGuerra Civil do Camboja). Apesar do Vietnam do Norte não ter sido informado da decisão, suas forças forneceram abrigo e armas ao Khmer Vermelho após o início da insurgência. O apoio vietnamita à insurgência fez com que ficasse impossível que os militares cambojanos a combatessem com eficiência. Pelos próximos dois anos a insurgência cresceu, enquanto Sihanouk fazia muito pouco para detê-la. Quando a insurgência se intensificou, o Partido finalmente se declarou abertamente como sendo oPartido Comunista da Kampuchea (PCK).
O apelo político do Khmer Vermelho foi aumentado, como resultado da situação criada pelaremoção de Sihanouk como chefe de estado em 1970. OpremiêLon Nol, com o apoio da Assembleia Nacional, depôs Sihanouk. Sihanouk, exilado emBeijing, fez uma aliança com o Khmer Vermelho e se tornou o líder nominal dogoverno em exílio dominado pelo Khmer Vermelho (conhecido pelo acrônimo francês GRUNK), apoiado pela República Popular da China.[39]
O apoio popular a Sihanouk nas áreas rurais do Camboja permitiu ao Khmer Vermelho ampliar seu poder e influência, ao ponto de que em 1973 exercia controlede facto sobre a maior parte do território cambojano, apesar de controlar apenas uma minoria de sua população. Muitas pessoas no Camboja que ajudaram o Khmer Vermelho contra o governo de Lon Nol pensavam estar lutando pela restauração de Sihanouk no poder.
A relação entre o bombardeiomaciço do Camboja pelosEstados Unidos e o crescimento do Khmer Vermelho, em termos de recrutamento e apoio popular, tem sido um assunto de interesse de historiadores. Em 1984,Craig Etcheson, doCentro de Documentação do Camboja, argumentou que é “insustentável” afirmar que o Khmer Vermelho não teria vencido senão pela intervenção dos EUA e que mesmo que os bombardeios tenham auxiliado o recrutamento do Khmer Vermelho, eles “teriam vencido de qualquer maneira”.[40]
De modo oposto, alguns historiadores citaram a intervenção dosEUA e sua campanha de bombardeios (1965—1973) como um fator significativo que levou ao aumento do apoio do Khmer Vermelho entre os camponeses cambojanos. Os historiadoresBen Kiernan eTaylor Owen utilizaram uma combinação de sofisticado mapeamento por satélite, dados recentes não catalogados sobre a extensão dos bombardeios e depoimentos de camponeses para afirmar que houve uma correlação entre os vilarejos atingidos pelos bombardeios dos EUA e o recrutamento de camponeses pelo Khmer Vermelho.[41]
Em seu estudo de 1996 sobre a ascensão dePol Pot ao poder, Kiernan afirma que a intervenção estrangeira “foi provavelmente o fator mais significativo na ascensão de Pol Pot”.[42]
Em 1975, com o governo deLon Nol ficando sem munições, estava claro que era apenas uma questão de tempo até que o governo entrasse em colapso. No dia 17 de abril de 1975, o Khmer Vermelho capturouPhnom Penh.
A liderança do Khmer Vermelho se manteve praticamente inalterada dos anos de1960 até a metade dos anos de1990. Os líderes vinham, em sua maioria, de famílias declasse média e haviam sido educados emuniversidadesfrancesas.
O Comitê Permanente do Comitê Central do Khmer Vermelho (“Centro de Partido”) durante este período consistia de:
Pol Pot (Saloth Sar) (falecido em 1998), o “Irmão Número 1”, Secretário-Geral de 1963 até sua morte, efetivamente o líder do movimento;
Ieng Sary (cunhado de Pol Pot), “Irmão Número 3”, vice-primeiro-ministro, preso em 2007;
Ta Mok (Chhit Chhoeun) (falecido no dia 21 de julho de 2006), “Irmão Número 4”, Secretário Regional pelo Sudoeste, morreu em custódia aguardando julgamento porgenocídio;
No poder, o Khmer Vermelho realizou um radical programa que incluiu o isolamento do país das influências estrangeiras, o fechamento de escolas, hospitais e fábricas, a abolição dosistema bancário,finanças e damoeda, a proibição de todas asreligiões, o confisco de todapropriedade privada e a transferência da população de áreas urbanas para fazendas coletivas, onde o uso de trabalho forçado era generalizado. O intento desta política era transformar os cambojanos em um “Velho Povo” através do trabalho agrícola. Estas ações resultaram em mortes em massa devido aexecuções, fadiga, doenças e fome.
Em Phnom Penh e outras cidades, o Khmer Vermelho disse aos residentes que seriam movidos apenas cerca de “dois ou três quilômetros” para fora da cidade e que retornariam em “dois ou três dias.” Algumas testemunhas dizem que foi-lhes dito que a evacuação era devido à “ameaça de bombardeios americanos” e que eles não precisavam trancar suas casas, uma vez que o Khmer Vermelho “tomaria conta de tudo” até que eles retornassem. Estas não eram as primeiras evacuações de populações civis realizadas pelo Khmer Vermelho. Evacuações similares depopulações sem posses vinham ocorrendo desde o início dos anos de1970.
O Khmer Vermelho tentou transformar oCamboja em uma sociedade sem classes despovoando as cidades e forçando a população urbana (“Novo Povo”) a viver em comunas agrícolas. A população inteira foi forçada ao trabalho agrícola em campos de trabalho forçados.
O dinheiro foi abolido, livros foram queimados, professores, comerciantes e quase toda a elite intelectual do país foi assassinada, para que fosse feito do comunismo agrícola, comoPol Pot o imaginava, uma realidade. A transferência planejada para o campo resultou na paralisação completa de quase toda atividade econômica: até mesmo escolas e hospitais foram fechados, bem como bancos e empresas industriais e de prestação de serviços.
Durante seus anos no poder, o Khmer Vermelho matou de fadiga e fome a população, enquanto ao mesmo tempo executava grupos selecionados que tinham o potencial de enfraquecer o novo estado (incluindointelectuais ou até mesmo aqueles que carregavam sinais estereotipados de aprendizado, tais como óculos) e matava muitos outros até mesmo por quebrarem regras menores.
Os cambojanos deveriam produzir três toneladas de arroz por hectare; antes daera do Khmer Vermelho, a média era de apenas uma tonelada por hectare. O Khmer Vermelho forçou o povo a trabalhar por 12 horas sem intervalos e sem descanso ou alimentação adequados. Eles não acreditavam namedicina ocidental, mas favoreciam a medicina tradicional dos camponeses. Muitas pessoas morreram como resultado disso.
Relações familiares não sancionadas pelo estado também foram proibidas e membros da mesma família poderiam ser condenados à morte por se comunicarem uns com os outros. Em qualquer caso, membros de uma mesma família foram muitas vezes transferidos para partes diferentes do país, com todos os serviços postais e telefônicos abolidos.
A total falta de conhecimento agrícola por parte dos antigos moradores das cidades fez dafome algo inevitável. Os habitantes das zonas rurais eram muitas vezes antipáticos ou tinham muito medo de ajudá-los. Atos tais como colher frutas ou bagas silvestres eram vistos como um “empreendimento privado” e eram punidos com a morte.
Alíngua khmer possui um complexo sistema de tratamento para definir a classe e o status social de quem a fala. Durante o governo do Khmer Vermelho, estes sistemas foram abolidos. As pessoas foram incentivadas a tratar uns aos outros como “amigo” ou “camarada” (em khmer: មិត្ត;mitt) e a evitar sinais tradicionais de reverência, tais como curvar-se ou juntar as mãos em saudação, conhecidos como “samphea”.
A linguagem também foi transformada de outras maneiras. O Khmer Vermelho inventou novos termos. Foi dito às pessoas para que “forjassem” (“lot dam”) um novo caráter revolucionário, que eram os “instrumentos” (em khmer: ឧបករណ៍; “opokar”) do corpo governante, conhecido como “Angkar (em khmer: អង្គការ; “A Organização”) e que a nostalgia pelos tempos pré-revolucionários (“choeu stek arom” ou “saudade”) poderia resultar em execução. Além disso, termos rurais como “Mae” (em khmer: ម៉ែ; mãe) substituíram termos urbanos, como “Mak” (em khmer: ម៉ាក់; mãe).
Muitos cambojanos cruzaram a fronteira com aTailândia em busca deasilo. De lá eram transportados paracampos de refugiados, tais comoSa Kaeo ouKhao-I-Dang, o único campo que permitia o reassentamento em países como osEstados Unidos,França,Canadá eAustrália. Em alguns campos de refugiados tais como o Sítio 8, Phnom Chat ou Ta Prik os oficiais do Khmer Vermelho controlavam a distribuição de alimentos e restringiam as atividades das agências de auxílio internacionais.[43]
Crânios das vítimas do Khmer VermelhoRestos mortais das vítimas do Khmer Vermelho na Caverna de Kampong Trach, Montanhas de Kiry Seila, Rung Tik (Caverna D’água) ou Rung Khmao (Caverna Morta)
O governo do Khmer Vermelho prendeu,torturou e eventualmenteexecutou qualquer pessoa suspeita de pertencer a várias categorias de supostos “inimigos”:
Qualquer pessoa com conexões com o antigo governo ou governos estrangeiros;
Profissionais e intelectuais — na prática isto incluía quase todas as pessoas com algumaeducação ou até mesmo pessoas que usavam óculos (o que, de acordo com o regime significava que eram alfabetizados). Ironicamente e hipocritamente, o próprio Pol Pot era um homem com educação universitária (embora fosse um desistente), com gosto pelaliteratura francesa e também era fluente emfrancês. Muitos artistas, incluindo músicos, escritores e cineastas foram executados. Alguns comoRos Sereysothea,Pan Ron eSinn Sisamouth ganharam fama póstuma por seus talentos e ainda hoje são populares com oskhmers;
“Sabotadores econômicos”: muitos dos antigos moradores da cidades (aqueles que não morreram de fome em primeiro lugar) foram julgados culpáveis por sua falta de capacitação agrícola.
Através dos anos de1970, especialmente após meados de 1975, o Partido também foi abalado por conflitos entre facções. Houve até mesmo tentativas armadas de derrubar Pol Pot. Os expurgos resultantes alcançaram seu auge em 1977 e 1978, quando milhares de pessoas, inclusive líderes importantes do PCK, foram executados.
Hoje, exemplos dos métodos detortura utilizados pelo Khmer Vermelho podem ser vistos noMuseu do Genocídio Tuol Sleng. O museu ocupa o espaço de uma antigaescola secundária transformada em umcampo prisional que foi operado por Kang Kek Iew, comumente conhecido comoCamarada Duch. Cerca de 17 000 pessoas passaram por este centro antes de serem levadas para lugares (também conhecidos comoCampos de extermínio) nos arrabaldes de Phnom Penh, como Choeung Ek, onde foram, em sua maioria, executadas (em sua maior parte compicaretas para economizar balas) e enterradas emvalas comuns. Dos milhares de pessoas que entraram no Centro Tuol Sleng (também conhecido como S-21), apenas doze são conhecidos por ter sobrevivido.
O número exato de pessoas que morreram como resultado das políticas do Khmer Vermelho é contestado, bem como a causa da morte daqueles que morreram. O acesso ao país durante o governo do Khmer Vermelho e durante o governo vietnamita foi muito limitado. No início dos anos de1980, o regime que foi instalado pelos vietnamitas e sucedeu o Khmer Vermelho realizou uma pesquisa domiciliar nacional, que concluiu que mais de 4,8 milhões de pessoas morreram, mas a maioria dos historiadores modernos não considera esses números confiáveis.
Pesquisas atuais localizaram milhares de valas comuns da época do Khmer Vermelho espalhadas por todo Camboja, contendo um número estimado de 1,39 milhões de corpos. Vários estudos estimaram o número de mortes entre 740 000 e 3 000 000, mais comumente variando entre 1,4 milhões e 2,2 milhões, com cerca da metade dessas mortes tendo sido causadas por execuções e o restante por fome ou doenças.[44]
OProjeto Genocídio Cambojano, financiado peloDepartamento de Estado dos EUA apresenta as estimativas do total de mortes entre 1,2 milhões e 1,7 milhões.[45] AAnistia Internacional estima o total de mortes em 1,4 milhões.R. J. Rummel, um analista de matanças políticas históricas, fornece um número de 2 milhões.[46] O antigo líder do Khmer VermelhoPol Pot forneceu um número de 800 000 e seu vice,Khieu Samphan alegou que 1 milhão de pessoas foram mortas.
Em dezembro de 1978, devido a vários anos de conflito fronteiriço e ao fluxo derefugiados fugindo doCamboja, as relações entre Camboja eVietnam entraram em colapso.Pol Pot, temendo um ataque vietnamita, ordenou uma invasão preventiva do Vietnam. Suas forças cambojanas cruzaram a fronteira e pilharam as aldeias das proximidades. Estas forças cambojanas foram repelidas pelos vietnamitas.
Juntamente com aFrente Kampucheana Unificada pela Salvação Nacional, uma organização que incluía muitos ex-membros insatisfeitos do Khmer Vermelho,[47] asForças Armadas do Vietnam, então, invadiram o Camboja, capturandoPhnom Penh no dia 7 de janeiro de 1979. Apesar de um tradicional temor por parte dos cambojanos de uma invasão vietnamita, desertores do Khmer Vermelho auxiliaram os vietnamitas, e, com a aprovação do Vietnam, tornaram-se o núcleo da novaRepública Popular do Kampuchea, rapidamente repudiada pelo Khmer Vermelho e pelaChina como sendo um “governo fantoche”.
Ao mesmo tempo, o Khmer Vermelho se retirava em direção ao oeste e continuava a controlar áreas próximas à fronteira tailandesa pelapróxima década. Tais áreas incluíam Phnom Malai, as áreas montanhosas próximas aPailin nasMontanhas Cardamom e Anlong Veng, nas Montanhas Dângrék.[48] Estas bases do KhmerVermelho não eram autossuficientes e eram financiadas pelo contrabando de diamantes e madeira, assistência militar daChina por intermédio do exército tailandês e alimentos de mercados através da fronteira com aTailândia.[49]
Apesar de sua deposição, o Khmer Vermelho reteve seu assento nas Nações Unidas, que era ocupado por Thiounn Prasith, um velho compatriota dePol Pot e Ieng Sary dos seus tempos de estudante em Paris e uma das 21 pessoas que compareceram ao Segundo Congresso do PRPK, em 1960. O lugar foi retido com o nome de "Kampuchea Democrático" até 1982, e então como "Governo de Coalizão do Kampuchea Democrático" (veja abaixo) até 1993. Os governos ocidentais repetidamente apoiaram o Khmer Vermelho naONU e votaram a favor da retenção do assento do Camboja na Organização.Margaret Thatcher declarou que "assim, você verá que os mais razoáveis do Khmer Vermelho terão de fazer parte do futuro governo, mas apenas uma parte minoritária. Eu partilho do seu horror absoluto de que estas coisas terríveis tenham ocorrido no Kampuchea".[50] A Suécia, de modo contrário, mudou o seu voto naONU e retirou seu apoio ao Khmer Vermelho após um grande número de cidadãos suecos terem escrito cartas para seus representantes eleitos exigindo uma mudança na política em relação ao regime de Pol Pot.[51]
As regiões central e oriental doCamboja estavam firmemente sob o controle doVietnam e de seus aliados cambojanos em 1980, enquanto que a parte ocidental continuou a ser um campo de batalha através da década de1980 e milhões deminas terrestres foram plantadas em toda a área rural. O Khmer Vermelho, ainda liderado porPol Pot, era o mais forte dos três grupos no Governo de Coalizão do Kampuchea Democrático e recebia amplo auxílio militar daChina,Grã-Bretanha e dosEstados Unidos além deinteligência dos militares tailandeses.
Em 1981, o Khmer Vermelho chegou ao ponto de renunciar o comunismo[48] e, de certa forma, mudou sua ênfase ideológica em direção ao nacionalismo e retóricas antivietnamitas. No entanto, alguns analistas alegam que esta mudança teve pouco significado na prática, porque, como nota o historiador Kelvin Rowley, “a propaganda do PCK sempre invocou apelos mais nacionalistas do que revolucionários”.[51]
Apesar de Pol Pot ter renunciado a liderança do Khmer Vermelho em favor deKhieu Samphan em 1985, ele continuou a ser a força motriz da insurgência do Khmer Vermelho, fazendo discursos para seus seguidores. Jornalistas como Nate Thayer, que passaram algum tempo com o Khmer Vermelho durante esse período comentaram que, apesar da condenação quase universal da comunidade internacional ao governo do Khmer Vermelho, um número considerável de cambojanos nas áreas controladas pelo Khmer Vermelho pareciam apoiar genuinamente Pol Pot.[52]
Enquanto o Vietnam propunha uma retirada em troca de uma determinação política que excluísse o Khmer Vermelho do poder, o governo de coalizão rebelde, bem como aANSA,China e osEUA insistiram que tais condições eram inaceitáveis.[48] No entanto, em 1985, o Vietnam declarou que completaria a retirada de suas forças do Camboja em 1990 e o fez em 1989, tendo permitido ao governo lá instalado a se consolidar e ganhar força militar suficiente.[51]
Após uma década de conflitos inconclusivos, o governo cambojano pró-Vietnam e o governo de coalizão rebelde assinaram um tratado em 1991, que exigia eleições e o desarmamento. Em 1992, no entanto, o Khmer Vermelho retomou a luta, boicotou as eleições e, no ano seguinte, rejeitou seus resultados. O grupo agora combatia o novo governo de coalizão cambojano, que incluía os antigos comunistas aliados ao Vietnam (liderados por Hun Sen), bem como os antigos aliados não comunistas e monarquistas do Khmer Vermelho (notavelmente o Príncipe Rannaridh).
Em 1996 houve umadeserção em massa, quando cerca da metade dos soldados restantes (cerca de 4 000) partiu. Em 1997, um conflito entre os dois principais participantes na coalizão governante fez com que o príncipe Rannaridh buscasse o apoio de alguns dos líderes do Khmer Vermelho, enquanto se recusava a negociar com Pol Pot.[51][52] Isto resultou em sangrentas rixas faccionárias entre os líderes do Khmer Vermelho, finalmente levando ao julgamento e à prisão dePol Pot pelo Khmer Vermelho. Pol Pot morreu em abril de 1998.Khieu Samphan se rendeu em dezembro.
No dia 29 de dezembro de 1998, os líderes remanescentes do Khmer Vermelho se retrataram pelo genocídio nos anos de1970. Em 1999, a maioria dos membros já havia se rendido ou sido capturada e o Khmer Vermelho definitivamente deixou de existir. A maioria dos líderes ainda vivos do Khmer Vermelho vive na área dePailin ou estão escondidos emPhnom Penh.
Desde 1990, o Camboja vem gradualmente se recuperando,demográfica e economicamente do regime do Khmer Vermelho, apesar das cicatrizes psicológicas afetarem muitas famílias e comunidades deemigrantes cambojanos. Vale a pena notar que oCamboja tem uma população muito jovem e que em 2003 três quartos da população cambojana era jovem demais para se lembrar daera do Khmer Vermelho.
Os membros desta geração mais jovem sabem do Khmer Vermelho apenas através de relatos de pais e de pessoas mais velhas. Em parte, isso se deve ao fato de o governo não exigir que os educadores ensinem as crianças sobre as atrocidades do Khmer Vermelho nas escolas.[53] Entretanto, o Ministério da Educação do Camboja aprovou planos para que fosse ensinada a história do Khmer Vermelho nas escolas a partir de 2009.[54] Isto já está acontecendo.[55]
A 6 de junho de 2003 foi assinado um acordo entre aONU e o governo do Camboja para criar um tribunal híbrido com o objetivo de julgar os responsáveis pelos crimes cometidos durante o período daKampuchea Democrática.[56] O julgamento foi dividido em dois casos. No caso 001, foi julgado Kang Kek Iew, diretor da prisão de Tuol Sleng acusado decrimes de guerra ecrimes contra a humanidade. No caso 002 foram indiciados 4 ex-líderes do Khmer Vermelho, sendo que sóNuon Chea eKhieu Samphan continuam em julgamento devido à morte deIeng Sary e à incapacidade da sua mulher,Ieng Thirith, de continuar em julgamento devido a doença. Estão acusados degenocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Overedito e asentença do primeiro miniprocesso foram anunciados no dia 7 de agosto de 2014.[57] O segundo miniprocesso já começou.[58]
Kang Kek Iew (também conhecido por Kaing Guek Eav e pela sua alcunhaDuch), chefe deum centro de tortura de onde 16 000 homens mulheres e crianças foram levadas à morte, foi o primeiro a ser indiciado e julgado. Entregou-se às autoridades em 1999 após ter dado uma entrevista onde confessou os seus crimes e implicou outros líderes do Khmer Vermelho no genocídio. Durante o julgamento mostrou-se arrependido[59] e colaborou com o tribunal na acusação de outros líderes.[60] Surpreendeu o tribunal no seu julgamento, no dia 27 de novembro de 2009 com um pedido por sua liberdade. Seu advogado cambojano Kar Savuth chocou o tribunal ainda mais, quando emitiu um pedido pela absolvição de seu cliente, mesmo depois de seu advogado francês negar buscar tal veredicto.[61] No dia 26 de julho, foi condenado e sentenciado a trinta anos. Muitos condenaram a sentença como sendo muito leniente.[62] Theary Seng respondeu indignadamente:
Nós esperávamos que este tribunal atingisse duramente a impunidade, mas se você pode matar 14 000 pessoas e cumprir apenas 19 anos — 11 horas por cada vida ceifada — o que é isso? É uma piada. Meu sentimento é que isto fez a situação ficar muito pior para o Camboja. Isto tirou muito da confiança no sistema e levantou temores de interferência política.
Kang Kek Yew recorreu e, a 3 de fevereiro de 2012, o tribunal apoiado pela ONU rejeitou o seu recurso e condenou-o aprisão perpétua.[63] Faleceu em 2 de setembro de 2020 cumprindo a pena num hospital.
Nuon Chea, também conhecido como Irmão nº 2, foi detido a 19 de setembro de 2007 na sua casa em Paillin, na fronteira doCamboja com aTailândia. O braço direito dePol Pot e chefe daideologia do Khmer Vermelho é considerado pelo jornalista Nate Thayer (que passou vários anos entre osguerrilheiros do Khmer Vermelho e entrevistou vários dos seus líderes) como o maior responsável pelas mortes ocorridas entre 1975 e 1979:
No meu ponto de vista, Nuon Chea é mais culpado de crimes contra a humanidade do que qualquer outro cambojano. Temos muito mais provas documentais contra Nuon Chea do que contra Pol Pot. Por cada pessoa que passava por Tuol Sleng, era dada uma cópia a Nuon Chea sobre o método de tortura e este assinalava quando era apropriado matá-la. Temos esmagadoras provas de que esteve envolvido pessoalmente em, pelo menos 14 mil mortes, que ele as ordenou pessoalmente.
Deu uma entrevista em 2006 que confessou que mandou executar "inimigos do povo": traidores e agentes dos vietnamitas. Alegou que se não o fizessem, o Camboja seria engolido peloVietname.
No entanto, Nuon Chea negou as acusações feitas contra ele perante o tribunal e não fez nenhum pedido aparentemente sincero de desculpas até maio de 2013 quando expressou remorso e aceitou a responsabilidades dele no genocídio, alegando, no entanto, que não sabia o que estava a acontecer. "Sinto-me arrependido pelos crimes que foram foram cometidos intencionalmente ou sem intenção, quer eu tenha sabido ou não da sua ocorrência".[64]
Foi condenado a prisão perpétua, a 7 de agosto de 2014, por crimes contra a humanidade.[65]
Khieu Samphan, o Irmão nº5, foi preso em novembro de 2007, após ter recebido alta dohospital depois de ter sofrido um derrame.Chefe de estado da Kampuchea Democrática de 1976 a 1979, foi um dos oficiais mais poderosos do regime. No entanto, nega envolvimento no genocídio alegando que "não tinha conhecimento das atrocidades cometidas pelos comandantes militares e líderes".[66]
Na mesma altura em que foi preso, um livro escrito por si intitulado "Reflexões Sobre a História Cambojana A Partir da era da Kampuchea Democrática" foi publicado. Nele, diz que Pol Pot trabalhou em prol dajustiça social e da soberania nacional enquanto a responsabilidade por todas as políticas do grupo eram atribuídas ao Irmão nº 1. De acordo com Khieu, “nunca houve uma política de fome, tampouco havia ordens para que se realizassemassassinatos em massa” e “sempre houve uma forte preocupação pelo bem-estar do povo”. Ele admitiu o uso de coação e trabalho escravo para produção de comida devido à escassez de alimentos. Khieu também criticava o atual governo em seu livro, culpando a Dinastia Norodom pela corrupção e pelos males sociais.[67]
No dia 7 de agosto de 2014, foi condenado a prisão perpétua por crimes contra a humanidade.[68] Em 1.º de fevereiro de 2022, Samphan foi transferido para uma prisão estatal no Camboja depois que teve seu recurso rejeitado.[69]
A 12 de novembro de 2007, o casal foi detido na sua casa, emPhnom Penh.[70] Ieng Sary, o "Irmão nº 3", foi o ministro dos Negócios Estrangeiros de 1975 a 1979 tendo incentivadointelectuais cambojanos exilados a voltar para o seu país para ajudar a reconstruir o Camboja. Quando chegavam, eram torturados e executados como parte da purga de intelectuais. Ieng Sary pediu a sua libertação devido ao perdão que lhe foi dado pelo rei Sihanouk em 1996 em troca da sua rendição;[71] no entanto esta foi-lhe negada, pois foi considerado que o perdão só se aplicava à pena de morte a que tinha sido condenado em 1979 e não impedia indiciamentos futuros. Morreu a 14 de março de 2013, antes do caso ter chegado a um veredito, o que foi lamentado pelas vítimas.[72]
Ieng Thirith foi ministra dos assuntos sociais durante o período Kampuchea Democrática. Foi acusada de ter ordenado a realização depurgas por todo o país e de ter ordenado a morte de membros do seu próprioministério.[73] Durante o julgamento culpou Nuon Chea pelas mortes ocorridas em Tuol Sleng e recusou qualquer envolvimento no genocídio: "Tenho de dizer que Nuon Chea matou todos os meus estudantes. Nuon Chea mandou os meus estudantes a Kaing Guek Eav para serem mortos. Não me acusem de ser uma assassina ou serão amaldiçoados até ao Sétimo Inferno".[74] Thirith foi declarada incapaz para enfrentar julgamento e libertada em setembro de 2012 após ter sido diagnosticada comAlzheimer.[75] Morreu em Pailin no dia 22 de agosto de 2015, aos 83 anos.[76]
↑«Khmers Vermelhos».Infopédia. Consultado em 30 de janeiro de 2023.Em 1979 o governo dos Khmers Vermelhos foi derrubado pela invasão das tropas vietnamitas.
↑«Khmers».Lello Universal: dicionário enciclopédico em 2 volumes. Porto: Lello Editores. 1981. p. 1374.Khmers s. m. pl. Antigo povo do Camboja
↑«Guerra Civil do Camboja».Infopédia. Consultado em 30 de janeiro de 2023.Entretanto, os guerrilheiros do Partido Comunista, os chamados Khmer Vermelhos, combatiam o regime de Lon Nol, no que eram ajudados pelos norte-vietnamitas e pelo príncipe Sihanouk, exilado na China.
↑Daniel Neves Silva.«Pol Pot, o ditador cambojano». Mundo Educação. Consultado em 25 de fevereiro de 2023.Pol Pot foi o líder do Partido Comunista cambojano, conhecido como Khmer Vermelho"; "o partido fortaleceu-se e tomou o poder do país em 1975."; "Pol Pot comandou ditatorialmente o Camboja entre abril de 1975 e janeiro de 1979
↑Ito, Tomyo Costa (2021). «Introdução».A elaboração da memória em Rithy Panh(PDF) (Dissertação de Pós-Graduação). Universidade Federal de Minas Gerais. p. 11.O Khmer Vermelho tomou o poder em 17 de abril de 1975, após um período de 5 anos de intensa guerra civil, e permaneceu no governo até 7 de janeiro de 1979. Esse regime comunista totalitário foi liderado por Pol Pot, Nuon Chea, Ieng Sary, Son Sen e Khieu Samphan, oficialmente denominado Kampuchea Democrático.
↑Fernando Silveira Melo Plentz Miranda (2014).«Genocídio no Camboja, a Instalação de um Tribunal Penal Internacional Inócuo e a Preservação da Memória»(PDF).Revista Eletrônica Direito, Justiça e Cidadania (Vol. 5 - Nr. 1). Faculdade São Roque. 1 páginas. Consultado em 2 de janeiro de 2023.Este estudo tem por objetivo examinar os motivos que motivaram a ascensão do poder no Camboja do grupo denominado Khmer Vermelho, genocídio ocorrido em território cambojano no período do Kampuchea Democrático, como também a instalação do Tribunal Penal Internacional no Camboja.
↑Barreto, Beatriz Costa (2022). «3.1 Imagens de um genocídio».Rememorar o trauma e filmar o luto: A estética de elaboração de Rithy Panh em A Imagem que falta (2013)(PDF) (Dissertação de Pós-Graduação). Universidade Federal do Ceará. p. 12.Dessa forma, a divisão entre o Vietnã e o Kampuchea Democrático do Khmer Vermelho refletia o grande confronto entre a URSS e a República Popular da China dentro do bloco comunista
↑Sopheng Cheang e Luke Hunt (28 de novembro de 2009). «Apelo surpreendente em julgamento do KhmerVermelho». Associated Press, via The RaleighNews & Observer
Castro, Ferreira de.Obras completas de Ferreira de Castro: A volta ao mundo. Lisboa: Guimarães
Guérios, Rosario Farani Mansur.Tabus linguísticos. São Paulo: Companhia Editora Nacional
Guérios, Rosario Farani Mansur (1984). «Origem dos Numerais no Indo-Europeu». Curitiba: Universidade Federal do Paraná.Revista Letras
Entre os pouquíssimos estudiosos ocidentais que conhecem alíngua khmer e publicaram obras sobre oCamboja estão Ben kiernan, David P. Chandler e Michael Vickery. Nayan Chanda, o correspondente da Indochina para aFar Eastern Economic Review também é muito familiarizado com este período (através de relatos pessoais, incluindo muitas entrevistas com dirigentes).
Elizabeth Becker:When the War Was over: Cambodia and the Khmer Rouge Revolution
Francois Bizot:The Gate
Nayan Chanda,Brother Enemy: The War After the War (Collier, New York, 1986) (very comprehensively footnoted)
David P. Chandler:A History of Cambodia (Westview Press 2000);ISBN 0-8133-3511-6.
David P. Chandler:Brother Number One: A Political Biography (Westview Press 1999);ISBN 0-8133-3510-8
David P. Chandler:Facing the Cambodian past: Selected essays, 1971–1994 (Silkworm Books 1996);ISBN 974-7047-74-8.
David P. Chandler, Ben Kiernan etc.:Revolution and Its Aftermath in Kampuchea: Eight Essays (Yale University Press 1983);ISBN 0-938692-05-4.
JoAn D. Criddle:To Destroy You Is No Loss: The Odyssey of a Cambodian Family;ISBN 978-0-9632205-1-6
Chanrithy Him:When Broken Glass Floats
Ben Kiernan:The Pol Pot Regime: Race, Power, and Genocide in Cambodia under the Khmer Rouge, 1975–79;ISBN 0-300-09649-6.
Ben Kiernan:How Pol Pot Came to Power: Colonialism, Nationalism, and Communism in Cambodia, 1930–1975 (Yale University Press, Second Edition 2004);ISBN 0-300-10262-3.
Haing Ngor:A Cambodian Odyssey
Dith Pran (compiled by):Children of Cambodia's Killing Fields: Memoirs by Survivors
William Shawcross:Sideshow: Kissinger, Nixon, and the Destruction of Cambodia