Ohataioga (emsânscrito: हठयोगIAST:haṭha yoga), é uma forma deioga medieval. A expressãoHaṭha Yoga poderia ser traduzida, dividindo-se as sílabas, nas palavras "ha" (sol) e "tha" (lua), cujo significado é atribuído à busca do equilíbrio das forças solar e lunar, masculina e feminina como objetivo final dessa prática.[1] Alguns autores interpretamhaṭha associando este termo à "força doprana" e/ou sendo "essencialmente a forma mais elevada da prática dopranaiama". As sílabas "ha" e "ṭha" são uma combinação de doismantras onde "ha" representa oprāṇa, a força vital, e "ṭha" representa a mente, a energia mental.[2]
Para Feuerstein,[3] o "ioga vigoroso" ou hataioga é um produto da época medieval, com objetivo idêntico a todas as formas autênticas deioga: transcender a consciência egoica, utiliza uma tecnologia psicoespiritual em torno do desenvolvimento do potencial do corpo, para que este seja capaz de suportar a força e o peso da realização trascendente ou de uniãoextática.
Segundo praticantes, o hataioga uniu a ideia tântrica do corpo como templo da divindade com a visãovedântica de que tudo que existe é a expressão do Ser, que é criador e agente material da criação. Dá muita importância à prática das purificações,[4] mas também leva em conta seus aspectos sutis, como o despertar da energia potencial (cundalini) técnicas de percepção do som supersutil interior (nāḍa), a absorção final da atenção na realidade transcendental (lāyā) e a absorção meditativa (samádi).[carece de fontes?]
Ilustração (SaptaChakra), do manuscrito sobre Yoga escrito no idioma Braj Bhasha daÍndia Central, 1899.
Assim como as demais escolas de yoga, visa transcender a consciência, mas a metodologia utilizada é baseada no fortalecimento do físico. Seus praticantes acreditam que o corpo deve estar bem trabalhado e preparado para suportar a força e o peso da elevação espiritual.[carece de fontes?] Ainda na visão iogue, osasanas devem ser praticados com consciência e foco nos objetivos do hataioga, respeitando os limites do corpo e buscando alcançar o relaxamento e consequentemente o controle da ansiedade.[5]
De acordo com aGheranda Samhita existem oito milhões e quatrocentos mil asanas descritos porShiva. De todos eles, oitenta quatro são os melhores e entre estes, trinta e dois consideram-se úteis para os que habitam este mundo, o livro descreve essas 32 asanas, mas não as outras. AHatha Yoga Pradipika diz queShiva ensinou 84 asanas, no entanto, nessa obra são descritos 15 asanas, das quais as quatro mais importantessiddhasana,padmasana,siṁhasana ebhadrasana. Já a Shiva Saṁhitā diz que existem 84 posturas, das quais o autor adota quatro:siddhāsana,padmasana,ugrasana (paschimottanasana) esvastikasana.
As técnicas do Haṭhayoga são diversas e variadas, apesar de que na atualidade a ênfase parece estar apenas nas posturas físicas. Dentre essa riqueza de práticas, destacam-se, além dos bem conhecidos asanas, as práticas deyama eniyama, que figuram naHaṭhayoga Pradīpikā e são constituídas de 20 elementos:
Asana ou assana é uma palavra dosânscrito já incorporada àlíngua portuguesa (vide Aurélio[6]) designando cada uma das posturas do sistema ioga. Segundo Eliade[7] é somente com esse terceiro "membro" do yoga (yogāṅga) que começa a técnica ióguica propriamente dita.
Patandjáli define os asanas no Iogassutra (II:46) da seguinte maneira:
स्थिरसुखम् आसनम् ॥sthirasukham āsanam: "O asana é firme e agradável".
Logo elabora sobre os objetivos da postura com a seguinte afirmação:
प्रयत्नशैथिल्यानन्तसमापत्तिभ्याम् ॥prayatna śaithilya ananta samāpatti bhyām: "[O asana] transcende-se ao relaxar no esforço e meditar no Ilimitado".[8]
Resalta o comentário do livro de Patandjáli que os asanas devem ser aprendidos com um guru e não através de descrições e assinala sua importância para a manutenção da firme estabilidade do corpo, reduzindo o esforço físico ao mínimo para evitar as sensações irritantes ou de fadiga, permitindo desta forma que aatenção se ocupe exclusivamente da parte fluida da consciência para que a mente se transforme em "infinito", atingindo sua perfeição (anantasamāpattibiyām).
Muitos autores, inclusive Hermógenes (o.c.) citam funções fisiológicas específicas de cada asana, associando estas à saúde e a regulação orgânica, além dos amplamanente reconhecidos benefícios para correção/manutençãopostura. Comentando a relação entre o yoga a e medicinaayurvédica Feuerstein repete o comentário de Frawley:[9]
"O Aiurveda é o ramo curativo da ciência iogue. O ioga por sua vez, é o aspecto espiritual do Aiurveda. O Aiurveda é o ramo terapêutico do ioga". (Frawley, 1996).
Na sequência dos asanas, os textos clássicos recomendam a prática dos exercícios respiratórios para a expansão da força vital, chamadosprāṇāyāma. Estes não se limitam apenas ao aspecto mecânico da respiração, ou aos seus efeitos sutis na vitalidade, mas se estendem à mente. Nesse sentido, aHaṭhayoga Pradīpikā mostra claramente a conexão entre respiração e mente: ""
Os pranaiamas são dez, segundo a Haṭhayoga Pradīpikā:
Menos conhecidas do que os asanas ou os pranaiamas são as práticas de mudra, que consistem em manipular a energia sutil, conduzindo-a através dos condutos vitais para facilitar o despertar de cundalini. AHaṭhayoga Pradīpikā menciona oitomudrās:
Mahamudrā: "o grande gesto".
Khecarīmudrā: "o gesto que se move no espaço"
Viparītakaraṇī mudrā: "a atitude de inversão"
Śaktīcalāna mudrā: "a movimentação da força"
Yonimudrā: "o fechamento dassete portas sensoriais"
Śāmbhavīmudrā: "a fixação ocular de Śāmbhavī, a Deusa"
Outro tema fundamental dentro da tradição do Haṭha é o despertar de cundalini, o poder serpentino. Sobre o fenômeno dakuṇḍalinī afirma o professor de Yoga Pedro Kupfer: "Cundalini tem duas dimensões: por um lado é o poder, a causa da existência do indivíduo. Por outro, é igualmente o sustento do próprio Universo. Macrocosmicamente, ela é Śaktī, Prakṛti, a manifestação do poder de Śiva.
Na escala humana é um símbolo do Ser, a causa do movimento e da vida do indivíduo. O reconhecimento desse fato conduz amokṣa. A cundalini se representa simbolicamente noser humano como uma serpente adormecida, enroscada na base da coluna.Kuṇḍalinī oukuṇḍalī significa serpentina, ou aquela que está enroscada como uma serpente. Existem três formas de olhar para akuṇḍalinī no Yoga:
Como umlakṣaṇa, um apontador que revela a Consciência presente em tudo.
Como um fenômeno psicoenergético associado a uma experiência meditativa.
Como uma jornada simbólica de autodescoberta e desapego dos condicionamentos.
Na sua primeira acepção, cundalini é a representação, o espelho simbólico que mostra a maneira em que o Ser faz-se presente na totalidade da criação. Nesse sentido, cundalini seria a manifestação no plano humano da Consciência Ilimitada. Essa Consciência é chamada através de epítetos como Shiva, O Benéfico, Devī, a Deusa, Brahman, o Ilimitado, ou Paramātma, o Ser Supremo.
Na segunda dessas três dimensões, a ascensão de cundalini através doscakras, num processo gradual, desenvolve os poderes psíquicos latentes em cada um deles. Voltaremos sobre esse ponto logo mais. Na terceira acepção, cundalini pode considerar-se como um modelo psíquico, uma espécie de mapa com todos os elementos e conteúdos fundamentais que fazem parte da condição humana.
Nesse sentido, o despertar dekuṇḍalinī é o crescimento emocional e a superação em relação a todas as formas de apego ou condicionamento."[11]
↑VORKAPIC, Camila Ferreira; RANGE, Bernard. Os benefícios do yoga nos transtornos de ansiedade. Rev. bras.ter. cogn., Rio de Janeiro , v. 7, n. 1, p. 50-54, jun. 2011. Disponível em[1] acesso em 11 ago. 2019.
↑Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa Positivo, 2004
↑ELIADE, Mircea. Yoga, imortalidade e liberdade. SP, Palas Athena, 1996