São povos (emespanholpueblo), pois sua ampla população se encontra dividida em diversos subgrupos étnicos; os mais significativos, em termos populacionais, são oscaiouás, osmbiás, osnhandevas, osava-xiriguanos, osguaraios, osizozeños e ostapietés. Cada um destes subgrupos apresenta especificidadesdialetais, culturais ecosmológicas, diferenciandoa assim sua "forma de ser" guarani das demais.
A palavraguarinĩ, está atestada em textos jesuitas do século XVI sobretupi antigo significando guerreiro.[9] Antes disso eles se autodenominavamAbá, significando homens ou povo.
Existe uma relativa abundância de registros históricos que tratam da trajetória dos povos guaranis a partir da época de seus primeiros contatos com os povos de origem europeia. Antes desse contato, os guaranis não possuíam uma linguagemescrita: toda a sua história estava vinculada a uma complexa forma de transmissão do conhecimento através datradição oral. O “ser” Guarani se resume no valor da “palavra”. Não no sentido da palavra escrita, mas na honra da palavra como ensinamento divino, como parte de um “caráter” a ser cumprido.[10]
Do período anterior ao contato com a cultura europeia, sabe-se que eram sociedades descentralizadas de caçadores e agricultores seminômades. Sua alimentação era baseada nacaça e coleta, bem como no plantio de diversas variedades de vegetais, comomandioca,batata,amendoim,feijão emilho.
Habitavam casas comunais de dez a dezenove famílias. Como os guaranis modernos, se uniam e organizavam-se em redes de parentesco que compartilhavam perspectivas cosmológicas comuns. A construção familiar é extensa e quanto mais gente o patriarca da família abrigar (agregados de sangue ou não), mais prestígio ele terá. O desmembramento para a formação de novasfamílias extensas se dá a partir de um grande aumento populacional não acompanhado pela estrutura, já que para abrigar uma grande família extensa o patriarca precisa estar bem em suas colocações sociais, econômicas e territoriais.
Nas primeiras décadas doséculo XVI, quando o processo colonizadormercantilista ainda não havia compreendido com maior clareza ageografia humana nativa no continente sul-americano, os indígenas, que, posteriormente, seriam chamados genericamente deguaranis, eram conhecidos comocarijós noBrasil ecariós noParaguai colonial. O termoguarani, que significaguerreiro (e que, segundo otupinólogoEduardo Navarro, deve provir doproto-tupi-guarani), passou a ser empregado a partir doséculo XVII, quando a ordem tribal já estava bastante esfacelada por mais de cem anos de exploração colonial, para designar um grande número de índios que viviam em aldeamentos pertencentes a grupos falantes de idiomas da família linguísticatupi-guarani.[11]
Em boa parte das regiõeslitorâneas dosul e dosudeste do Brasil, assim como nabacia dos riosParaná ePrata, foram as populações guaranis as primeiras populações ameríndias a ser contatadas pelos europeus.[12]
No início do século XVI, época dos primeiros contatos com os conquistadores europeus, a população guarani provavelmente chegava ao número de 1 500 000 a 2 000 000 de pessoas.
Na medida em que avançavam continente adentro, as expedições de conquista espanholas encontraram diferentes populações guaranis em territórios aos quais os espanhóis passaram a chamar deprovíncias. Os espanhóis foram nomeando-as segundo os nomes das populações indígenas que encontravam: Karió, Tobatin, Guarambaré, Itatin, Mbaracayú, gente do Guairá, do Paraná, do Uruguai, os Tape etc. Essas províncias abarcavam um vasto território, que ia da costa ao sul da cidade deSão Vicente, no Brasil, até a margem direita doRio Paraguai e desde o sul doRio Paranapanema e do grandePantanal, ouLagoa dos Xaraiés, até as Ilhas do Delta junto da atual cidade deBuenos Aires.[13]
Gonzalo de Mendoza tornou-se o primeiro governador do território espanhol doGuayrá, iniciando uma política de casamentos entre seus subordinados europeus e mulheres guaranis dos grupos locais, o que deu início ao que, mais tarde, seria denominadaa nação paraguaia. Ao mesmo tempo, foi acelerado o processo deescravização dos grupos indígenas autóctones para o fornecimento demão de obra para os mais diversos fins.
Os cronistas dos prelúdios do período colonial denominaramguaranis todas as populações que partilhavam de uma mesma língua, semelhante à língua falada pelos índiostupis do litoral ocidental sul-americano. Cada agrupamento humano, por sua vez, foi denominado separadamente a partir do nome dexamãs, líderes guerreiros e figuras locais de prestígio. Também era comum a denominação dos grupos de acordo com os nomes dos rios e dos lagos em cujas margens habitavam.
Durante mais de quatrocentos anos de referências escritas sobre os guaranis, muitos nomes alternativos têm sido empregados para identificar estes vários povos, bem como para indicar suas visíveis diferenças.
Em grande medida influenciados pelas referências dos índios tupis, os colonizadores daAmérica Portuguesa chamaram os guaranis dearaxás,araxanes,cainguás,carijós eouitatins. NaAmérica Espanhola, estes mesmos grupos eram chamados deCarios,Chandules,chandrís elandules. A despeito das denominaçõesexógenas, cada subgrupo possui sua própria forma de autodenominação, sendo que todos eles se reconhecem no termoavá ouavaeté kuery que significam, respectivamente,homem ehomens verdadeiros.
Neste primeiro período da colonização, movimentos deinsurreição em massa foram registrados por diversos administradores coloniais. De profundo caráter religioso, estes levantes eram, em grande parte, consequência da presença de grandes xamãs-profetas, oskaraí, que, com a força de suas palavras, convenciam multidões a abandonarem as vilas de colonização espanhola e seguirem dançando e cantando com o intuito de alcançar a liberdade na "Terra Sem Males" (Yvy marã e'ỹ).[14]
Em 1579, o levante liderado pelokaraí chamado Oberá (também grafado Overá), termo que significa "aquele que brilha", pôs, em grandes riscos, o projeto de colonização espanhola na região deArambaré. Por onde quer que passasse, Oberá era seguido por uma multidão cada vez maior de indígenas, que, após sua presença, recusavam-se terminantemente a servir aos espanhóis.Karaí Oberá, prometendo, a todos, a liberdade, realizava grandesrituais de "desbatismo", onde os chamados "guaranis civilizados" renunciavam aosvotos e aos nomes dacristandade, recebendo outro nome guarani. Seguindo o conselho dos poderososkaraí, multidões dançavam e cantavam ininterruptamente durante dias.
"Família guarani capturada por caçadores de índios", tela deJean Baptiste Debret de 1830
Partindo das colônias do litoral do atual estado deSão Paulo, no Brasil, o movimento luso-brasileiro dasBandeiras, de caráter expansionista e escravocrata, caiu como um flagelo sobre as populações guaranis. Primeiramente, sobre aquelas que habitavam os territórios próximos aoRio Paranapanema. Depois, adentrando mais e mais no continente. Aos grupos sobreviventes, restavam poucas opções: rebelar-se contra uma ou mesmo contra as duas nações europeias (Portugal e Espanha) que invadiam seus territórios, iniciar longas peregrinações buscando a proteção de distantes florestas e pântanos de difícil acesso ou, ainda, se submeterem à pacificação, tornando-se escravos dos bandeirantes luso-paulistas ou servos dos espanhóisencomenderos.[15]
Com o avanço da empresa colonial, diferentes grupos autóctones se tornaram peças das disputas e joguetes por recursos e territórios dePortugal eEspanha. Cada um dos lados buscava, de todas as formas, incitar os grupos que eram seus aliados a fazer guerra contra seu adversário europeu e aos indígenas a este coligados. Ao mesmo tempo, uma série deepidemias trazidas da Europa se alastraram rapidamente pelo continente, eliminando as populações autóctones e devastando províncias inteiras.
Ruínas da Catedral deSão Miguel, uma das cidades fundadas pelos jesuítas para abrigar os guaranis cristianizados.
Em 1640, a região do Paranapanema já se encontrava despovoada. A maioria dos seus habitantes havia sido capturada pelos bandeirantes e levada para a vila deSão Paulo de Piratininga ou para avila de São Vicente, enquanto outra parte buscou refúgio nos territórios e nas florestas ao sul.[16]
Agindo como soldados, os jesuítas tinham um único objetivo -converter o maior número possível de indígenas, obrigá-los a mudar seuestilo de vida e aceitar areligião católica como única forma desalvação. No ano de 1743, mais da metade da população daBacia do Prata, aproximadamente 142 000 índios, viviam nos povoados jesuítas. Uma vez mais, inúmeros xamãs-profetaskaraí surgiram das matas até as cidades dos jesuítas, cercados por inúmeros seguidores, rivalizando emretórica e poder com os padres jesuítas e se tornando um obstáculo para a conquista espiritual cristã. Não tardou para que os jesuítas ultrajados incitassem os índios reduzidos contra oskaraí, aos quais chamavam de "demônios" e "feiticeiros".
Das diferentes trajetórias vividas pelos grupos guaranis, surgiram novas distinções culturais entre os mesmos. Com o crescimento das Reduções Jesuíticas, surgiria a figura dosguaranis missioneiros, que, a partir dosincretismo com elementos jesuíticos, dariam forma e cor àutopia cristã-ameríndia dasMissões. Já as populações guaranis que se refugiaram em florestas, montes e pântanos, escapando do alcance dos bandeirantes, bem como da submissão aosencomenderos espanhóis ou às missões jesuíticas, ficaram conhecidas pela exonominação genérica dekainguá,kaaiguá, cainguá ouka'ayguá - todos esses termos, derivados da palavra guaranika'aguyguá, "habitantes das matas". Esta provavelmente é também a origem do nome de um dos atuais subgrupos guaranis, oscaiouás, apesar de estes provavelmente não serem os únicos grupos da atualidade descendentes daquelas populações não submissas.
No entanto, é grande a probabilidade de que os chamados "habitantes das matas" nunca tenham perdido totalmente o contato com os guaranis missioneiros, mantendo, de alguma forma, intercâmbios de bens, informações e até mesmo de pessoas através do parentesco com estes. Esta é uma das explicações encontradas para a apropriação de instrumentos como oviolão (mbaraká) e arabeca (ravé), não só utilizados até hoje pelos guaranisembiás, como também considerados pelos próprios índios como parte de sua tradição e até mesmo originados em sua cultura.
As populações desta etnia ainda mantêm fortes indícios de unidade linguística e cultural, desenvolvendo, sempre, formas estratégicas relacionais diante das realidadesnacionais com as quais são obrigadas a conviver.
As populações guaranis contemporâneas vivem em pequenasreservas, acampamentos à beira de rodovias ou habitam, ainda, espaços geograficamente isolados. Suas principais atividades econômicas são a confecção e a venda deartesanato—cestaria comtaquara ecipó,estátuas em madeira ecolares com sementes nativas—acoleta de raízes, ervas e frutos silvestres e o plantio de suas sementes tradicionais.[17]
Apesar da baixa populacional (em comparação com o momento dos primeiros contatos com os europeus), com exceção das áreas localizadas noUruguai e no centro daArgentina, onde não existem mais, os guaranis seguem mantendo a configuração de seus territórios noperíodo colonial. A despeito do processo deaculturação que sofreram, estas populações vêm se recuperandodemograficamente, constituindo uma dasminorias que, invisibilizadas nos diversos contextos em que se encontram, têm de lidar com o problema doaumento demográfico nos regimes de confinamento impostos pelosestados nacionais.[18][19]
Três aspectos da vida guarani expressam umaidentidade que dá especificidade, forma e cria um "modo de ser guarani": a) oava ñe'ë (ava: homem, pessoa guarani;ñe'ë: palavra que se confunde com "alma") ou "fala", "linguagem", que define identidade na comunicação verbal; b) otamõi (avô) ouancestraismíticos comuns e c) oava reko (teko: "ser, estado de vida, condição, estar, costume, lei, hábito") ou comportamento em sociedade, sustentado em arsenal mítico eideológico. Estes aspectos informam aoava (homem guarani) como entender as situações vividas e o mundo que o cerca, fornecendo pautas e referências para sua conduta social.[20]
A Lei 11.645/2008 (altera a9.394/1996 e modifica aLei 10.639/2003) traz a obrigatoriedade da temática ‘História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena’ para as escolas de ensino público e privado, desde o ensino fundamental ao ensino médio.[21] Diante disso, alguns autores defendem que a temática indígena proposta pela Lei surge como uma medida de renovação de conhecimentos sobre as diferentes culturas que se apresentam, genericamente, representadas por uma única visão de mundo e identidade. Ou seja, a Lei vem para quebrar os estereótipos que foram criados ao longo da história ao redor dos povos indígenas.[22]
BRASIL,Decretonº 11645, de 10 de março de 2008, Inclui no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena"..
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