Umagrande école (literalmente, "grande escola") é, segundo o ministério de educação nacional daFrança, um "estabelecimento deensino superior que recruta seus alunos por concurso e assegura a formação de alto nível".[1]
As primeiras faculdades desse tipo foram criadas pelo Estado no meio doséculo XVIII, com o objetivo de fornecer as estruturas técnicas e militares dos altos cargos do estado: Exército, Minas, Águas e Florestas, Administração Central, Pontes e Estradas, Agricultura, Portos e Arsenais, Ciências Veterinárias, etc.
Contrariamente àsaulas preparatórias que são mantidas sob a tutela doMinistério da educação nacional francês, quase todas asgrandes écoles dependem de outros ministérios.
A primeiraÉcole d'Officiers d'Artillerie (Escola de Oficiais de Artilharia) foi criada porLuís XIV em 1679 emDouai, adjacente à Universidade de Douai.[2] Asécoles militaires, compreendem aÉcole Militaire (Escola Militar) de Paris criada em 1748 e asécoles spéciales (escolas especiais) em diversas regiões, que apareceram durante o século XVIII para fornecer pessoal técnico e comandantes de alto nível que o Estado tinha necessidade. Criaram-se também os primeiros concursos científicos para a admissão nas instituições técnico-militares (Engenharia, Artilharia e Marinha).
Datas de criação das escolas de formação dos oficiais técnicos e dos engenheiros do Estado:École des Ingénieurs-constructeurs des Vaisseaux Royaux (Escola dos Engenheiros-construtores de Navios Reais) 1741,École Royale des Ponts et Chaussées (Escola Real das Pontes e Estradas) 1747,École royale du génie de Mézières (Escola real de engenharia de Mézières) 1748,École des Mines de Paris (Escola das Minas de Paris) 1783. Criação das escolas reais militares para nobres bolsistas que os preparavam para a admissão em instituições técnico-militares. AÉcole d'Arts et Métiers foi fundada
em 1780 peloduque de La Rochefoucauld.Em 1761, umaÉcole royale vétérinaire (Escola real veterinária) foi criada emLyon porClaude Bourgelat, seguindo, em 1765, aÉcole nationale vétérinaire de Alfort (Escola nacional veterinária de Alfort).
As origens daÉcole Normale, que tornou-se aÉcole Normale Supérieure, remonta às experiências das "escola normais germânicas" (Normalschulen), estabelecidas na época deMarie-Thérèse e deJoseph II.[3]
Grandes atores daRevolução Francesa vieram degrande écoles, comoNapoleão Bonaparte que formou-se naécole de Brienne,Condorcet,Lazare Carnot que vieram daécole du génie de Mézières. Este último junto deGaspard Monge, ummatemático, criaram em 1794 aÉcole Polytechnique, quase ao mesmo tempo que era criada aÉcole normale de l'an III porLakanal. Da mesma forma, as antigas faculdades demedicina e dedireito foram restabelecidas comoÉcole de Droit eÉcole de Médecine, independentes da universidade.
Em 1794, houve a criação de trêsgrandes écoles:
Antoine François de Fourcroy, em seu Relatório feito na Convenção sobre a organização das escolas destinadas aos diversos serviços públicos do 30º vendemiário ano IV, define a doutrina daÉcole spéciale que para Thuillier[4] valerá também para todos os projetos deÉcoles Nationales d'Administration até 1945: "il est nécessaire que les sujets admis dans ces écoles y soient dans un nombre correspondant au besoin du service, qu’ils se consacrent dès leur entrée dans cette carrière à servir l’État" (É necessário que os assuntos admitidos nessas escolas sejam em número correspondente à necessidade do serviço, que eles se dediquem desde sua admissão nessa carreira a servir o Estado).
A lei que organiza as escolas de serviços públicos do 30º vendemiário ano IV fixa a lista seguinte:
A lei Daunou sobre a organização da instrução pública do 3º brumário do ano IV estabelece, exceto as escolas primárias e as escolas centrais, asécoles spéciales destinadas ao estudo de:
e também escolas para os surdos-mudos e para os cegos de nascença.
Somente asécoles de santé e asécoles d'économie rurale vétérinaire foram criadas. AÉcole spéciale des langues orientales foi também criada.
AÉcole polytechnique organiza o recrutamento via concurso e a formação prévia de engenheiros do Estado, antes dasécoles d'applications (escolas de aplicação) como aÉcole des ponts et chaussées,École des mines,École du génie et de l'artillerie de Metz,École de la marine,École du génie maritime,École spéciale de géographie et de topographie.
A lei geral sobre a instrução pública do 11º floreal do ano X cria as escolas de ensino médio,[nota 1] mantém asécoles spéciales existentes e institui:
Ela também criou:
"Quando os alunos tiverem terminado seus seis anos de estudos nas escolas de ensino médio, sua aplicação e seu progresso encontrarão, no primeiro término de seus trabalhos, uma nova carreira de esperança e de sucesso. Dois décimos entre eles estarão nas diversas escolas especiais, onde continuarão sendo instruídos e mantidos sob financiamento do tesouro público, de modo a obter, com glória, um estado e uma existência assegurados na república. Nunca uma vantagem maior que essa foi oferecida aos jovens estudiosos. O bom comportamento, a concentração em seus deveres, os estudos frutíferos, conduzirão esses alunos, que são os mais distintos, a extrair das ciências ou dasartes liberais os meios de ter sucesso numa profissão honrada. Jurisprudência, medicina, matemática, física, arte militar, manufatura, diplomacia, administração, astronomia, comércio, pintura, arquitetura, todos os caminhos do saber e dos talentos que tornam os homens queridos e úteis a seus semelhantes lhes serão abertos. Aqueles que não passarem por esse tipo de concurso nas escolas especiais, poderão se destinar, através de um estudo particular de matemática, às escolas de serviços públicos, e se abrir assim uma outra carreira não menos gloriosa e não menos vantajosa na engenharia, na artilharia, na marinha, nas escolas de pontes e estradas, nas escolas de mineração e na geografia." (Extrato do discurso pronunciado no corpo legislativo porAntoine François de Fourcroy, orador do governo, sobre o projeto de lei).[nota 2]
O decreto dos cônsules da república do 12º vendemiário do ano XI reúne as escolas da artilharia e do engenheiro para formar uma escola comum as duas especializações do exército nomeadaÉcole d'artillerie et du génie e estabelecida emMetz. A admissão é feita com exame entre os alunos daÉcole polytechnique. A lei do 21º germinal do ano XI estabelece 6 escolas de farmácia.
A lei do 10 de maio de 1806, relativa à formação de uma Universidade imperial e o decreto do 17 de março de 1808 fixando sua organização põe em discussão o desenvolvimento das escolas especiais a favor da disposição de um sistema universitário centralizado e organizado segundo os três graus das antigas universidades (baccalauréat,licence,doctorat), já restabelecidas nas escolas de direito. As escolas de direito e de medicina foram transformadas em faculdades enquanto que as escolas de serviços públicos continuam fora da universidade.
Não há lista oficial dasgrandes écoles.O termogrande école está no decreto de 27 de agosto de 1992 relativo à terminologia usada na educação que dá a seguinte definição: "Estabelecimento de ensino superior que recruta seus alunos por concurso e assegura a formação de alto nível".[1]
É conveniente lembrar que o ministério da Educação Nacional francês assegura a tutela dos cursos preparatórios a todas asgrandes écoles, mas estas estão sempre sob a tutela de outros ministérios para os quais asgrandes écoles formam funcionários administrativos, exceto uma ou duas exceções como as ENSs (Écoles normales supérieures) e aÉcole des Chartes. É por essa razão que, fora dos textos legislativos e regulamentários que evocam os "cursos preparatórios para asgrandes écoles", a expressãogrande école não é empregada no código da educação francês, o ministério da Educação Nacional francês prefere empregar o termo mais genérico "écoles supérieures" para designar todos os estabelecimentos de ensino superior que não sejamuniversidades nem formações dosistema dual de educação.[7]
Como mostra sua história, a expressãogrande école designa tradicionalmente uma elite deécoles de la fonction publique de alto nível, destinadas a formar e recrutar, através de um concurso nacional público, os funcionários de elevada hierarquia dosgrands corps de l'État (literalmente, "grandes instituições do Estado") francês:
Há mais ou menos vinte anos, as principaisescolas de negócios francesas são classificadas em revistas. Geralmente, as seguintesgrande écoles estão no topo das listas:
Uma associação professional (lei 1901), denominadaConférence des grandes écoles, agrupando em torno de 230grandes écoles, foi criada para promover a idéia degrande école e também criou-se um diploma deMastère Spécialisé, o MS (marca registrada).
Uma associação, oClub carrières grandes écoles (chamado também deG16+), fundada em 1982, agrupa dezesseis associações de antigos alunos de escolas e de formações superiores:AgroParisTech,Arts et Métiers ParisTech (ENSAM),CentraleSupélec, EDHEC , EMLYON, ENA, ENSAE,ESCP Business School, ESSEC,SID-ETP (ESTP),Harvard (HBS Club de France),HEC,IAE de Paris, INSEAD,Mines (ParisTech,Saint-Étienne eNancy),Navale,Normale Sup (ENS),Polytechnique,Ponts et Chaussées ParisTech,Sciences Po Paris,SupAero,Télécom ParisTech,ESC Rennes, e também oConseil national des ingénieurs et des scientifiques de France (CNISF).[9]
Uma outra associação, aConfédération des Radios de Grandes Ecoles - CRGE, agrupa 46 estações de rádio dasGrandes Écoles francesas. A CRGE possui como finalidade favorizar seu desenvolvimento, ajudando-as a criar novas estações e também servindo de plataforma de comunicação exclusiva a nível nacional para os estudantes. Ela mantém igualmente um laço privilegiado com as melhores universidades no mundo através do rádio.
O sistema redundante do ensino superior francês caracterizado pela existência de estruturas de ensino superior fora das universidades sofre críticas tanto nas universidades quanto de especialistas no assunto.
A crítica mais frequente é a do elitismo. Segundo os jornalistas Thomas Lebègue e Emmanuelle Walter, autores deGrandes écoles, la fin d'une exception française,[10] elas criam uma micro-elite, "que se prendem às grandes empresas e não se abrem aos talentos exteriores nem se questionam".[10][nota 4] Eles consideram que essa "endogamia" não tem sentido econômico, que eles acusam de constituir umaréseaucratie (umarede social que beneficia de acesso privilegiado à informação e favorecimentos ilegais).[10]Raymond Aron, nos anos 60, já lamentava que asgrandes écoles era um dos símbolos da endogamia social e da homogeneidade cultural característica das classes governantes francesas.[11] A maioria dasgrandes écoles são públicas e praticamente gratuitas, e ao mesmo tempo acolhem um público socialmente privilegiado. Segundo Thomas Lebègue et Emmanuelle Walter, isso constitui uma "redistribuição ao contrário".[10][nota 4]
A respeito dessas críticas, asgrandes écoles respondem que elas modificaram consideravelmente seu sistema de admissão recentemente, com mais de um quarto de bolsistas e que somente 38,5% dos estudantes vêm de cursos preparatórios.[12]
AUnion nationale des étudiants de France (UNEF), primeira organização estudantil representativa, exige a fusão dasgrandes écoles com as universidades, fusão que se faria com um alinhamento dos meios e condições de gestão de todos estudantes exatamente como há nasgrandes écoles, ou seja, com um investimento extra do Estado no ensino superior. Essa fusão conduziria ao fim dos exames de admissão.