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Faits divers

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Esta páginacita fontes, mas quenão cobrem todo o conteúdo. Ajude ainserir referências (Encontre fontes:ABW  • CAPES  • Google (notícias • livros • acadêmico)).(Dezembro de 2020)
Jornalismo

Faits divers (pronuncia-sefé-divér; emfrancês, literalmente, "factos diversos") é uma expressão de jargão jornalístico e, por extensão, um conceito de teoria dojornalismo que designa os assuntos não categorizáveis nas editorias tradicionais dos veículos (política,economia,internacional,desportos). Tais excertos tornam-se noticiosos por apresentarem casos inexplicáveis e excepcionais.

São factos desconectados de historicidade jornalística, ou seja, referem-se apenas ao seu carácter interno e seu interesse como facto inusitado, pitoresco. Geralmente são acontecimentos trágicos, tais como crimes e acidentes, delitos descritos em poucas linhas. Mas a lista de possibilidades pode ser muito maior. "Drama passional, roubo de uma ponte de 40 metros, aparição da Virgem Maria, confissão perturbadora de um transexual, descoberta dos restos de quatro ocupantes de um disco voador nos Estados Unidos; todos os dias nossos jornais reservam um lugar, mais ou menos importante, para este tipo de informação tão diferente quanto curiosa."[1]

Ofait divers sempre despertou um grande interesse no público geral, estando sempre presente nos diversos veículos de informação. Uma das explicações para tamanha popularidade está no fato da nossa sociedade estar enraizada em uma culturaromanesca, que busca dar sentido à realidade articulando fatos do quotidiano a partir de relações espelhadas na estrutura de umromance literário. Osfaits divers contribuem com essa forma de estruturar o mundo, pois apresentam fatos pitorescos, apelando para o imaginário dasociedade, que busca um sentido maior nestes, como se dá nos romances, em que as conexões carregam um sentido mais amplo, gradualmente revelado na narrativa.

Histórico

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Capa da obra O Conde de Monte Cristo de Alexandre Dumas

A história dofait divers se confunde com a doromance-folhetim, aquele divulgado por partes nos rodapés de jornais. Ambos surgiram naFrança doséculo XIX, com o “surgimento da imprensa popular a um tostão”.[2]

Para atingir as classes subalternas, a imprensa fazia uso de uma receita: os estabelecimentos deestereótipos, uma “massa de sentimentos” e "modelos de heróis",[3] o que gerava uma identificação do público.

Os folhetins ganharam espaço por volta de 1840 na França, comAlexandre Dumas eEugène Sue, com obras comoO Conde de Monte Cristo eOs Mistérios de Paris, que estabeleceram os paradigmas dessa literatura, abordando "dramas da vida cotidiana e contextos históricos".[4] Porém, a realidade francesa mudou, ocasionando o surgimento do folhetim de 3ª geração: começam os romances da "desgraça pouca é bobagem"[3] devido à experiência francesa com aComuna de Paris e com aGuerra Franco-Prussiana, que aproximaram a população da violência. Foi então que os folhetins passaram a dividir a página com osfaits divers, que nada mais eram do que o folhetim da vida real.

As classes populares se alfabetizaram com os folhetins e para que as outras partes do jornal também pudessem ser lidas, tiveram que ser adequadas ao padrão linguístico do folhetim: fala entrecortada, cheia de suspense, exclamativa. Essa necessidade da notícia surgiu porque o próprio folhetim oferecia ao leitor um conhecimento de mundo que lhe permitia ter curiosidades não supridas apenas pela ficção. Assim foi necessário apresentar-lhe a realidade - em forma defait divers.

Estrutura segundo Roland Barthes

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Ofait divers se relaciona com fatos excepcionais ou insignificantes, porém essa constatação não é satisfatória e nem abrange, de fato, a força desse gênero de notícia. Segundo Roland Barthes, ofait divers "procederia de uma classificação do inclassificável, seria o refugo desorganizado das notícias informes". .

Uma das principais características dofait divers é seuaspecto imanente, que faz dele uma informação total, ou seja, que pode ser compreendida sem a necessidade de umcontexto. Segundo Barthes, "não é preciso conhecer nada no mundo para consumir umfait divers; ele não remete formalmente a nada além dele próprio". Sem duração e sem contexto, ofait divers proporciona um ser imediato, total. Constitui-se, portanto, de uma estrutura fechada.

Outra característica que completa a definição dofait divers é seu caráter articulado. Sempre há dois termos que se relacionam para produzir umfait divers. Barthes constata que "se pode presumir que não há nenhumfait divers simples", já que o simples não é insigne. Só a relação da informação com um fator inusitado faz começar umfait divers. Evidente que há sempre uma estrutura articulada quando se trata de notícias, contudo, a articulação relativa aofait divers é interior à narrativa pontual, não necessitando ser transportada para um mundo externo, ou seja, não necessitando de um contexto incluso.

Barthes ainda procura organizar as relações concernentes aofait divers, dividindo-as em "relação de causalidade" e "relação de coincidência".

Relação de causalidade

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A relação que une os dois termos pode ser de causa, que é conhecida ou inexplicável.

Causa conhecida

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Quando conhecida, a causa pode ser espantosa e por ser tão aberrante, constitui umfait divers. Um exemplo é a notícia[nota 1] "Mulher é presa por atacar loja que não tinha nuggets", o espanto está no fato de ela não ser presa por roubar a loja, mas por causa dosnuggets. Porém, a causa também pode ser normal, esperada. Nessas situações, o destaque é dado àsdramatis personae, ou seja, aos personagens, e não à motivação do ato.

Causa inexplicável

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Também pode ocorrer de não se saber imediatamente o que provocou o acontecimento. Esses casos podem ser divididos emprodígios ecrimes.

  • Prodígios

São fenômenos extraordinários e inexplicáveis, como por exemplomilagres religiosos, fenômenosparanormais e discos voadores.

  • Crimes

Nesses casos, a causa é diferida, adiada, e por isso os leitores e telespectadores acompanham o desvendar do crime diariamente. No entanto, ofait divers perde seu caráter efêmero, e esse atraso para descobrir a causa pode fazer o crime acabar no esquecimento. Consequentemente, ofait divers desaparece.

O inesperado

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  • Desvios causais

Ofait diver usa muito esse recurso, pois a causa esperada é geralmente substituída por uma outra, inusitada. Geralmente ocorre uma decepção que deixa a causalidade ainda mais notável, como no exemplo dosnuggets.

  • Surpresa do número

Ocorre quando uma causa pequena produz um grande efeito. Um exemplo disso: um tigre de brinquedo é confundido com um tigre de verdade. A causa é um simples brinquedo, mas o efeito foi uma operação policial que envolveu até o uso de helicóptero.

  • Milagre do índice

É o índice mais discreto que soluciona o mistério. Assim, há opoder infinito dossignos que causa um sentimento de que tudo pode ser um "instrumento" para o crime e que eles estão em toda parte. Também há aresponsabilidade do objeto, pois os objetos com a suainércia produzem uma imagem de inocência. No entanto, em um crime, o objeto pode ter forte influência, como por exemplo na notícia: "Velho estrangulado pelo cordão de seu aparelho acústico". Nesse exemplo, o desvendar do crime estava justamente no aparelho auditivo, o que é inesperado.

Suspeita de acaso

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Segundo Roland Barthes, a causalidade é paradoxal, já que ocorre uma desproporção entre a causa e o efeito. Além disso, fica suspensa entre o racional e o desconhecido. Assim, para Barthes, toda causalidade é suspeita de acaso.

Relação de coincidência

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A outra relação que pode estruturar ofait divers é a relação de coincidência.

Repetição

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Primeiramente, a coincidência pode ser designada pela repetição de um acontecimento, como por exemplo: "uma mesma joalheria foi assaltada três vezes". Essa repetição traz geralmente uma interrogação, uma suspeita de que uma causa desconhecida esteja por trás dela. Isso faz com que a notícia se torne curiosa, dotada de certo mistério que estimula a imaginação do leitor. A crença de que "repetir é significar" está enraizada na consciência popular: a coincidência não pode ser inocente, mas deve ter um significado oculto.

Aproximação

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Outra relação de coincidência é a que aproxima dois termos distantes: "uma mulher põe em fuga quatro gângsteres" ou "pescadores pescam uma vaca" (exemplos do próprio Barthes). Aqui, ofait divers assume a função paradoxal de aproximar esses termos, diminuir a distância entre eles. O que torna a notícia surpreendente é exatamente essa quebra de estereótipos: ninguém espera que uma única mulher enfrente quatro gângsteres ou que pescadores pesquem uma vaca.

Cúmulo

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A coincidência exagerada gera ainda ocúmulo, que seria a expressão de uma situação de azar. A notícia torna-se absurda: '"Mulher ganha em loteria e morre atropelada na comemoração" ou "chefe de polícia comete um assassinato". A causalidade é revirada, torna-se simétrica: exatamente no mesmo dia em que ganha na loteria, a mulher morre; não só há um assassino, como este é o próprio chefe de polícia. Assim como a repetição tira a inocência do aleatório, o azar não pode ser um acaso neutro, deve possuir alguma significação. Logo, se ele significa, não é mais um acaso. O cúmulo, portanto, converte o acaso em signo, pois a exatidão de uma reviravolta não pode ser pensada fora de uma inteligência que a realiza. Onde ocorre uma simetria, houve, por trás, uma mão para guiá-la.

A relação de coincidência implica a ideia dedestino, que é malicioso e constrói signos inteligentes que os homens são incapazes de decifrar: haveria então um deus por trás dofait divers.

Efeito

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Ofait divers tem uma popularidade inquestionável, cuja explicação vai muito além da mera curiosidade ou diversão que proporciona, residindo, na verdade, em características mais profundas, relacionadas ao efeito provocado nos leitores ou espectadores.

Osfaits divers muitas vezes aludem atabus e proibições da época a que se referem. Assim, pela fascinação provocada por tudo aquilo que é proibido, esses fatos ganham notoriedade, ao se tornarem um meio de expor os desvios referentes à moral e de reforçar o tipo de comportamento aceito pela sociedade.

Qualquer um pode protagonizar umfait divers, o que contribui para a notoriedade dessas notícias, pois, ao ver-se no fato, o leitor se aproxima deste, tornando-o menosbizarro e mais crível. Além disso, as ocorrências tornam-se oportunidades de alcançar a fama, ganhando ainda mais notabilidade numa sociedade que associa oexistir ao aparecer namídia.

Não há um fator que ordene ou justifique osfaits divers, pois estes se baseiam em relações surpreendentes e inexplicáveis, contribuindo para sua notoriedade na medida em que os fatos são superexpostos para compensar a impotência gerada pela impossibilidade de explicá-los. Além disso, tal vazio de compreensão é preenchido por explicações de cunhomístico oureligioso, apelando para oimaginário e amemória coletivos, aumentando ainda mais o apelo dosfaits divers.

Por fim, observa-se que as causas da notabilidade dosfaits divers ligam-se à cultura romanesca da atual sociedade. Isso porque tal tipo denotícia é construído na forma de umespetáculo, como nos romances defolhetins, o que fica claro pelas semelhanças entre as plataformas, como o apelo para o imaginário, a identificação dos leitores com as "personagens" e a pretensão moralizante de tais meios.

Faits divers no Brasil

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Na imprensa brasileira, osfaits divers (no Brasil, adquiriram várias outras denominações como "fatos diversos", "notícias diversas", "cenas de sangue", "notas policiais", de acordo com Valéria Guimarães[5]) têm suas particularidades - desde a maneira como têm sido escritos e os temas abordados, incluindo as variações que sofreram ao longo do tempo, até o cenário midiático brasileiro atual. Curioso é observar, aliás, a sua variação com relação aofait divers de que fala Roland Barthes.

Na imprensa

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O jornalismo impresso brasileiro da recém proclamada era republicana tinha como característica a mistura de notícias mais sérias com outras "mundanas". Os textos mais utilizados para descontrair os leitores eram os famososfolhetins, antecessores das atuaistelenovelas.

Foram esses folhetins que facilitaram a entrada dosfait divers nas publicações brasileiras. Ambos fizeram sucesso com o público da época por serem visões romanceadas da realidade, cada um ao seu modo. Essas "notícias diversas" eram caracterizadas pela mistura de elementos tradicionais da informação, frequentemente temperadas pela imaginação do autor, commelodrama e suspense, presentes também no folhetim.

Apesar das fortes críticas de intelectuais, ofait divers apresentado no Brasil dos séculos XIX e XX teve uma crescente popularidade entre as grandes massas, já que não exigia alta capacidade de compreensão e interpretação.

Ofait divers encontrou espaço no Brasil através do jornalO Estado de S. Paulo, que dedicava sua seção "Notícias Diversas" a essas notícias peculiares.

O folhetim, por sua vez, tornou-se popular como romance em capítulos avulsos, publicados regularmente nos jornais.

São notáveis as diferentes abordagens legadas aosfaits divers ao longo do tempo. As antigas seções de "notícias diversas" contavam com um número expressivo de crimes e tragédias, ao contrário do que se vê na atualidade, quando as notícias curiosas, que quebram as expectativas dos leitores, são o maior destaque deste cenário.

Faits divers X Sensacionalismo

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Quando ocorre um fato que se enquadraria como "fait divers" no início do século XX - como algum crime ou catástrofe natural - sempre se discute também o que pode ou não ser consideradosensacionalismo.

Os literaisfait divers (casamentos de celebridades, por exemplo) de certa forma sofrem com a influência sensacionalista. Alguns meios, às vezes, tendem a incutir na mente do público que é de total relevância saber o que o vencedor do últimoreality show faz atualmente. Mas tais "seriedades" não só se transformaram em gatilhos para reflexões socioeconômicas ou políticas nos noticiários diários, como ainda geram exageros dos meios preocupados apenas com audiência, como alguns dos programas policiais diários da nossa TV.

A sociedade refletida

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Merece destaque a relação que osfait divers mantêm com a sociedade, ao refleti-la. Isso se percebe tanto na atenção dada às "notícias diversas", quanto na forma como são abordadas e descritas.

Os primórdios da veiculação dosfaits divers já assinalavam esse retrato da sociedade. A grande explosão dessas notícias, bastante comuns na Europa, ocorre no Brasil em meados do século XX. São Paulo e Rio de Janeiro tornavam-se grandes centros urbanos, passando por inúmeras transformações estruturais e sociais. A imprensa, em ascensão, utilizava-se da ampla presença deprodígios e tragédias nos jornais da época como uma espécie de fórmula para a venda, que fazia efeito em função da intenção da elite do país de se aproximar da ‘civilização’ europeia. SegundoValéria Guimarães, "contar crimes e fatos extraordinários dessa maneira dava um charme a mais para a sociedade, um ar chic e europeu, dava a chance àquela elite com sede de se atualizar e entrar no ritmo do maquinismo de se ufanar ‘de possuir, como eles possuem, grandes e horrendos crimes’.".[6]

O imaginário coletivo e ofait divers

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Contudo, notadamente, as seções de ‘notícias diversas’ tinham como público a grande massa de leitores, ainda incipiente no século XX, com os mais diversos níveis de alfabetização. A leitura acessível e romanceada dofait divers envolvia o leitor pelaalteridade que encerrava em si, especialmente nas notícias de tragédias, como suicídios. Toda essa representação, com a história superdimensionada pelo público, figura como modeladora doimaginário coletivo, construindo e desconstruindo a todo o tempo ‘o outro’.

Uma época, uma sociedade, uma cultura

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Outra faceta de destaque é a posição dofait divers como veículo de circulação de crenças e teorias, integrando odiscurso circulante da sociedade em que se propaga. São valores e referências que se fazem presentes na construção da notícia e opiniões nela presentes, atuando no processo departilha da verdade. No século XX, ofait divers trazia consigo traços da teoriadeterminista. Adjetivações como "tresloucado", "desequilibrado", "frágil", "infeliz", "perverso", e descrições que invocavam posição social e raça eram comuns,[7] estigmatizando indivíduos, ao tomar origem e genética como fatores determinantes de caráter, formando umgênero de discurso, ainda que buscassedemonstrar-se neutro.

O suicídio comofait divers: final do século XIX e início do século XX

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OsociólogofrancêsÉmile Durkheim (1877) foi o primeiro a relacionar diretamente o ato suicida ao campo daSociologia. Para ele tratava-se de um fenômeno coletivo, mesmo que dotado de circunstâncias individuais, uma vez que estas refletiam a realidade social vivida pelo suicida.

Karl Marx (1876) também contribuiu para definir o aspecto sociológico do suicídio. Afirmava que o ato demarcava, de certa forma, uma luta social de um homem que, impelido em uma condição miserável, cometia o suicídio para acabar com uma frustração existencial ou para se livrar das convenções sociais em que vivia.

Suicídios eram comumente noticiados na seção defaits divers dosjornais, em uma mistura deficção e realidade, utilizando recursos narrativos para apresentar anotícia (o que faz parte da própria estrutura do fait divers) e tornar o fato pesado, umsuicídio, em uma narrativa mais amena para entretenimento do leitor. Na passagem do século XIX ao XX, o fait divers era usado como uma ferramenta para aumentar a venda dosjornais, visando atingir não apenas o leitor tradicional, das elites, mas também a massa dapopulação. Por esse motivo carregava traços da oralidade, retratava as classes mais pobres e explorava clichês daliteratura como traições e outras desilusões amorosas.[7]

Apesar de não se encaixar em nenhuma outra seção e não estar dentro de um contexto na organização dojornal (ele não “remete a uma situação extensiva que existe fora dele”, como um assassinato político faz), osfait divers está dentro de um contexto social e ideológico da época em que foi escrito.

Os cronistas, em geral, relatavam osuicídio como um problema de desviomoral, refletindo uma visão da época. Ofait divers retratava de forma implícita os valores morais,as crendices e as proibições de um período. A construção dos relatos de suicídio revelava uma série depreconceitos: em relação às classes mais pobres e à cor da pele, por exemplo. Outro apontamento para a causa dos episódios era o de problemas financeiros, comumente tematizados nas publicações dojornalO Estado de S. Paulo.

  • Crítica às publicações

A divulgação dos suicídio nas páginas dosjornais, em relatos cheios de elementos narrativos eliterários, era alvo de críticas e censuras. Era afirmado que as noticias sobresuicídio poderiam servir como uma espécie depropaganda dele, considerando que os leitores pudessem copiá-los.

Um Relatório de Justiça deSão Paulo, do ano de1894,[8] critica a publicação dosuicídio na seção de fait divers e faz recomendações para que não sejam mais publicados: “Infelizmente os casos desuicídio foram mais numerosos do que no ano passado. [...]Procurando estudar a causa desse acréscimo o investigador só pode explicá-lo pela publicidade naimprensa dos casos desuicídio nos seus menores detalhes, muitas vezes ridículos. Na verdade, aimprensa deSão Paulo não tem levado em conta o perigo de tais notícias, ainda quando mesmo esteja certa do incontestável contágio moral dosuicídio, principalmente em relação aos indivíduos apenas púberes, nos quais a superexcitação nervosa própria da idade, despertando sensações novas exageram os sentimentos de amor. [...]O silêncio sobre todos eles seria, entretanto, sempre benéfico.”

Outro fator que motivava as críticas era o incômodo das classes abastadas frente à exposição da realidade popular vista nessas publicações. Apesar da visão negativa que o cronista passava sobre às personagens e do caráter fantasioso, o suicídio noticiado como fait divers mostrava essa realidade que as elites preferiam ignorar: o cotidiano das classes mais pobres, dos imigrantes, do trabalhador fabril, do mestiço etc.[9]

  • Frequência dos casos nos jornais

As recomendações do Relatório descrito não foram levadas em consideração pelaimprensa da época (final do século XIX e início do século XX), que continuou a publicar os casos desuicídio com um teor sensacionalista. “Mais um desesperado” é amanchete de umanotícia publicada na seção “Notícias Diversas” do jornalO Estado de S. Paulo. Anotícia conta uma tentativa desuicídio por traição amorosa e problemas financeiros. O titulo deixa claro que esse tipo de relato era bastante comum, o suicida era só mais um entre os tantos que estavam todos os dias na página dojornal.[10]

O suicídio na mídia atual

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Se antigamente a crítica não conseguiu frear a publicação de suicídios nosjornais diários, hoje em dia há diversas discussões sobre o tema, que tendem a uma não divulgação de tal tipo de morte. Seguindo a mesma linha de pensamento do Relatório de Justiça deSão Paulo, muitosjornalistas defendem que publicações podem influenciar outras pessoas e que não divulgá-las é uma forma de respeitar a dor da família. Entretanto, alguns profissionais da área afirmam que seguir essaética (que é informal, já que nunca foi definida com unanimidade) pode significar a abdicação de alguns preceitos jornalísticos.

Devido a essa polêmica, alguns documentos foram formulados com a intenção de unificar a posição dos veículos midiáticos. Entre esses documentos, estão os próprios Manuais da Redação e um Manual para Profissionais da Mídia, lançado pela Organização Mundial da Saúde(OMS), que orienta o tratamento dosuicídio naimprensa.

Levando em consideração algumas divergências entre os manuais, o que se nota é que osuicídio não é mais tratado como antes, só alguns são noticiados. Entre esses, estão os de pessoas notórias e/ou de relevância pública e o de desconhecidos apenas quando o fato tem aspectos fora do comum (fait divers).

Ver também

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Notas

  1. Notícia publicada noglobo.com

Referências

  1. DION, Sylvie.O “fait divers” como gênero narrativo[ligação inativa]. 2007. Acessado em 18 de abril de 2011.
  2. DION, 2007
  3. abMEYER, 1996
  4. NADAF, 2002
  5. GUIMARÃES, Valéria. A Revista Floreal e a recepção aos faits divers na virada do dezenovevinte. Revista Galáxia, São Paulo, n. 19, p. 274-290, jul. 2010
  6. Leituras Suicidas:análise de uma conferência de Gilberto Amado de 1910. Oo fait divers e a má leitura - uma contribuição da História Social da Cultura para a História da Imprensa Brasileira
  7. abGUIMARÃES, 2013
  8. GUIMARÃES, 2013 p. 63; GUIMARÃES, 2007, p. 335
  9. GUIMARÂES 2007, p. 340
  10. GUIMARÃES, 2004, 2007 e 2013

Bibliografia

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ALENCAR, Ana Maria de -O que é o fait divers? Considerações a partir de Roland Barthes. Acessado em 18 de Abril de 2011.

BARTHES, R.,Structure du fait divers, Essais critiques. Paris: Seuil, 1966

FOUCAULT, M.Ces meutres qu’on raconte. Moi, Pierre Rivière ayant égorgé ma mère, ma soeur et mon frère. Paris: Julliard, 1973.

GRANDO POMPEO, Carolina."O suicídio na pauta jornalística". InMídia e Sociedade: Diretório Acadêmico - Observatório da Imprensa, 2010

GUIMARÃES, Valéria.Notícias Diversas: suicídios por amor, leituras contagiosas e cultura popular em São Paulo dos anos dez. São Paulo: Mercado de Letras, 2013. v. 1. 258p [Tese de Doutorado, FFLCH-USP, 2004]

GUIMARÃES, Valéria. Crimes, tragédias e imagens sensacionais: faits divers ilustrados em revistas brasileiras (1870-1930).Revista da Biblioteca Mário de Andrade, v. 67, p. 113-127, 2012.

GUIMARÃES, Valéria.A Revista Floreal e a recepção aos faits divers na virada do dezenove vinte. Galáxia (São Paulo. Online), v. 10, p. 274-290, 2010.

GUIMARÃES, Valéria.Passageiros de Bondes: leitores de jornais na caricatura de K.Lixto. Patrimônio e Memória (UNESP), v. 6, p. 32-53, 2010.

GUIMARÃES, Valéria."Sensacionalismo e modernidade na imprensa brasileira no início do século XX". Revista ArtCultura (UFU), v. 11, p. 227-240, 2009.

GUIMARÃES, Valéria."Os dramas da cidade nos jornais de São Paulo na passagem para o século XX". InRevista Brasileira de História", vol. 27, nº. 53. São Paulo Jan./Jun 2007.

GUIMARÃES, Valéria. "Primórdios da história do sensacionalismo no Brasil: os faits divers criminais" In: Revisa ArtCultura, Uberlândia (UFU), v. 16, n. 29, p. 103-124, jul-dez. 2014 

MARCONDES FILHO, Ciro – Capital da notícia. São Paulo: Editora Ática, 1989

MEYER, Marlyse –Folhetim, uma história. São Paulo: Companhia das letras, 1996

NADAF, Yasmin Jamil –Rodapé das Miscelâneas. Editora 7 (sete) letras, 2002

VAZ, Paulo."O destino do fait divers: política, risco e ressentimento no Brasil contemporâneo" inRevista FAMECOS, Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, PUC-Rio Grande do Sul, vol. 1, nº 35. Porto Alegre, abril de 2010.

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