
ADescida de Cristo aos infernos (emlatim:Descensus Christi ad Inferos) é uma doutrina nateologia cristã referenciada noCredo dos Apóstolos e noCredo de Atanásio (Quicumque vult) e que afirma queJesus "desceu ao Sheol". Ela é lembrada pelos católicos e ortodoxos noSábado de Aleluia.
Segundo essa doutrina, após a suamorte na cruz e antes de sua gloriosaRessurreição, Jesus Cristo desceu àMansão dos mortos (Sheol, no hebraico; Hades, no grego), não para sofrer, mas para levar a salvação àqueles justos que haviam morrido antes da sua vinda ao mundo.
O termo "infernos" não deve ser entendido como o Inferno dos condenados (lugar de punição eterna), mas sim como uma morada onde se encontravam as almas dos justos do Antigo Testamento, que esperavam pela redenção prometida. Cristo desceu até eles como Salvador, libertando-os e conduzindo-os à luz da vida eterna. Este é um dos mistérios celebrados no Sábado Santo, quando a Igreja se recolhe em silêncio, meditando sobre o repouso de Cristo no túmulo e sua ação salvadora no mundo invisível.[1]
As poucas referências explícitas nasEscrituras a respeito desta "descida" deu origem a interpretações diferentes.[2] Na arte cristã, sobretudo na tradição bizantina, essa cena é retratada com o nome de Anástasis (grego para “ressurreição”), mostrando Cristo glorioso descendo aos infernos, esmagando as portas do Hades e erguendo pela mão Adão e Eva, simbolizando a humanidade redimida. Essa iconografia se espalhou posteriormente pelo Ocidente, especialmente a partir do século VIII.[3]
A expressão em grego utilizada no Credo dos Apóstolos éκατελθόντα εἰς τὰ κατώτατα -"katelthonta eis ta katôtata" - e, emlatim,descendit ad inferos. O termo gregoτὰ κατώτατα ("o mais baixo") e o latinoinferos ("os abaixo") podem também ser traduzidos como "profundezas", "morada dos mortos" ou "limbo". Versões modernas do Credo geralmente o traduzem de forma mais literal como"ele desceu até os mortos".

Diversas passagens doNovo Testamento já foram utilizadas para provar que Cristo teria descido ao inferno ou ao reino dos mortos antes desua ascensão.[4] Entre elas:
A descida de Jesus ao inferno era ensinada por teólogos naigreja antiga e aparece em diversas obras: "Homilia sobre a Paixão" deMelito de Sardis (†c. 180); "Um Tratado sobre a Alma", 55, deTertuliano (†c. 220); "Tratado sobre Cristo e o Anticristo" deHipólito (†c. 236); "Contra Celso", 2:43, deOrígenes (†c. 253) e , finalmente, os sermões deAmbrósio de Milão (†c. 397).
OEvangelho de Mateus relata que imediatamente após a morte de Jesus, a terra tremeu, houve uma escuridão e um eclipse, o véu noTemplo se partiu em dois e muitas pessoas se levantaram dos mortos e vagaram por Jerusalém, sendo vistas pela população. De acordo com oapócrifoEvangelho de Nicodemos, a descida ao inferno foi antecedida pelaressurreição de Lázaro dos mortos antes dacrucificação.
Nos "Atos de Pilatos" - geralmente incorporado no texto medieval "Evangelho de Nicodemos", amplamente lido - a narrativa foi construída à volta de um original que pode remontar ao século III, com muitas melhorias e interpolações. Os capítulos 17 a 27 da obra chamam-seDecensus Christi ad Inferos e contém um dramático diálogo entre Hades e o príncipeSatã, além da entrada do "Rei da Glória", visto como ocorrendo dentro doTártaro (vide abaixo).
A visão doAntigo Testamento sobre a vida após a morte era a de que todas as pessoas, justas ou não, iam para oSheol quando morriam. Nenhumhebreu jamais desceu até lá e retornou, embora uma visão do recém-falecidoSamuel apareceu paraSaul quando invocada pelabruxa de Endor (I Samuel 28:7–25). Diversas obras do período doSegundo Templo elaboram sobre o conceito de Sheol, dividindo-o em seções baseadas na justiça e piedade dos que morreram.
O Novo Testamento defende uma distinção entre o Sheol, a "mansão dos mortos", e o destino eterno dos que forem condenados noJuízo Final, que é chamado de diversas formas:geena (por exemplo, emMateus 5:22), "trevas exteriores" (como emMateus 8:12) oulago do fogo eterno (ex. emApocalipse 19:20). Esta distinção pode não ser aparente dependendo da tradução utilizada, com algumas utilizando-se do termo "inferno" indistintamente, ao contrário do original grego (videtraduções de Hades).
A visãohelenística da descida heroica às profundezas e o triunfante retorno segue tradições que são muito mais antigas que asreligiões de mistério populares no tempo de Jesus. OÉpico de Gilgamesh contém uma episódio similar, assim como aOdisseia (cap. XI). Escrevendo logo após onascimento de Jesus,Virgílio incluiu um episódio também naEneida. O pouco que sabemos sobre a liturgia destas religiões de mistério - como osmistérios de Elêusis e omitraísmo - sugere que um ritual de morte e renascimento do iniciante era uma parte importante do ritual. Este também tem paralelos muito mais antigos, em particular com os rituais deOsíris. A antigahomilia chamada "A Descida do Senhor ao Inferno" pode ter sido influenciada por estas tradições ao se referir aobatismo como sendo um símbolo da "morte e do renascimento" (Colossenses 2:9–15) ou vice-versa.

Há uma antiga homilia sobre a descida ao inferno, de autoria desconhecida, chamada geralmente de "A Descida do Senhor ao Inferno", que é a segunda leitura na parte das leituras da missa noSábado de Aleluia naIgreja Católica.[6]
OCatecismo da Igreja Católica (§636) afirma o seguinte:
| “ | 636. Na expressão «Jesus desceu à mansão dos mortos», oSímbolo confessa que Jesus morreu realmente, e que, por ter morrido por nós, venceu a morte e o Diabo «que tem o poder da morte» (Hebreus 2:14).[7] | ” |
Portanto, a palavra "inferno" é utilizada nas escrituras e no Credo dos Apóstolos para fazer referência à "mansão dos mortos", sejam justos ou maus, até que (e se) que eles possam ser admitidos nocéu (vide §633 do Catecismo). Esta "mansão dos mortos" é o "inferno" para onde Jesus desceu. Sua morte libertou da exclusão do céu os justos que morreram antes de sua chegada:
| “ | Foram precisamente essas almas santas, que esperavam o seu libertador no "Seio de Abraão, que Jesus Cristo libertou quando desceu àmansão dos mortos. Jesus não desceu à mansão dos mortos para de lá libertar os condenados, nem para abolir o inferno da condenação, mas para libertar os justos que O tinham precedido.[7] | ” |
A conceituação da "mansão dos mortos" como um lugar, embora seja possível e costumeira, não é obrigatória (os documentos da Igreja, como oscatecismos, falam de um "estado ou lugar"). Alguns defendem que Cristo não esteve na morada dos condenados, que é geralmente compreendido atualmente como sendo o "inferno". Por exemplo,Tomás de Aquino ensinava que Cristo não foi ao "inferno dos perdidos", mas"ele os envergonhou por sua falta de fé e maldade; mas para os que estavam presos nopurgatório ele deu esperança de obterem a glória; enquanto que sobre os santos padres detidos no inferno apenas por conta dopecado original, ele lançou a luz da glória eterna".[8]
Enquanto alguns defendem que Cristo meramente desceu até o "limbo dos profetas" outros, principalmente o teólogoHans Urs von Balthasar (inspirado pelas visões deAdrienne von Speyr), defendem que foi mais do que isso e que a descida envolveu sofrimento da parte de Jesus.[9] Uma vez que tantoJoão Paulo II quantoBento XVI elogiaram a teologia de Balthasar e alguns não enxergam uma posição doutrinária precisa da igreja sobre este ponto, este é um tema no qual as diferenças e a especulação teológica é permissível sem transgredir os limites da ortodoxia.[9]


A "Homilia Pascal" deJoão Crisóstomo trata do tema da descida ao inferno e é lida tipicamente durante aVigília Pascal, o maior dos serviços litúrgicos da Igreja Ortodoxa durante a celebração daPascha.
A descida ao inferno é geralmente mais comum e tem uma importância maior naiconografia ortodoxa do que na tradição ocidental. É oícone tradicional doSábado de Aleluia e é utilizado durante a temporada da Páscoa e nos domingos durante o ano todo. O ícone tradicional para aressurreição de Jesus não representa simplesmente o ato físico de Jesus saindo dosanto sepulcro, mas também mostra o que a fé ortodoxa acredita ser a realidade espiritual do que amorte e ressurreição representam.
O ícone mostra Jesus, vestido de branco e dourado para simbolizar sua majestade divina, de pé às portas dos insolentes portões de Hades (também chamados de "Portões da Morte"), que estão quebrados e caíram na forma da cruz, ilustrando a crença de que, através de sua morte na cruz, Jesus venceu a morte. Ele está segurandoAdão e Eva e puxando-os para fora de Hades. Tradicionalmente, ele não aparece segurando-os pelas mãos e sim pelos pulsos, ilustrando o ensinamento teológico de que a humanidade não consegue se livrar sozinha dopecado original, algo que só pode ser obtido por obra daenergia de Deus. Jesus está rodeado por várias figuras doAntigo Testamento (Abraão,David,Moisés entre outros); a parte de baixo do ícone mostra o Hades como um fosso de trevas, geralmente com vários pedações de correntes e cadeados quebrados jogados. Frequentemente, uma ou duas figuras aparecem nas trevas, ainda presas nas correntes, geralmente identificadas como personificações damorte e/ou doDiabo.
Martinho Lutero, num sermão realizado em Torgau em 1533, afirmou que Cristo desceu ao inferno. AFórmula da Concórdia (a confissão de fé luterana) afirma:"Acreditamos simplesmente que a pessoa inteira, Deus e ser humano, desceu ao inferno após seu sepultamento, conquistou o diabo, destruiu o poder do inferno e tomou do diabo todo o seu poder (art. XI)."
Muitas tentativas se fizeram apos a morte de Lutero para sistematizar sua teologia sobre a descida ao inferno, se ele desceu vitorioso ou humilhado, por exemplo. Para Lutero, porém, a derrota ou "humilhação de Cristo" não pode ser jamais completamente separada de sua glorificação vitoriosa.
João Calvino expressou sua preocupação de que muitos cristãosjamais consideraram seriamente o que é ou significa ter sido redimido do julgamento de Deus. Ainda assim, esta é nossa crença: obedientemente sentir o quanto a nossa salvação custou aoFilho de Deus." A conclusão de Calvino foi que"a descida de Cristo ao inferno foi necessária para a redenção dos cristãos, pois Cristo de fato sofreu as consequências dos pecados que ele redimiu."[10].
As visões apresentadas tem de comum entre si a crença cristã daimortalidade da alma. O ponto de vista dosmortalistas de umestado intermediário requer uma visão alternativa deAtos 2:27 eAtos 2:31, defendendo que o Novo Testamento utiliza o "inferno" como equivalente ao uso da palavra "Hades" naSeptuaginta e, portanto, aoSheol noAntigo Testamento.[11]William Tyndale eMartin Bucer deEstrasburgo argumentaram que Hades emAtos 2 é apenas umametáfora para "túmulo" ou "cova". Outros pensadoresreformados comoChristopher Carlisle eWalter Deloenus em Londres, argumentaram que o artigo deveria simplesmente ser retirado do credo.[12] Por conta de suas crenças mortalistas,Milton evitou o episódio da descida ao inferno.[13] Além disso, as interpretações mortalistas de Atos 2 também encontram eco entre osanglicanos mais modernos, comoE. W. Bullinger.[14]
Enquanto os que defendem a visão mortalista sobre a alma concordam que na "descida ao inferno" Jesus não poderia encontrar nenhuma alma consciente para ser visitada, a questão sobre se o próprio Cristo teria morrido ou ficado apenas "inconsciente", suscita diferentes respostas:
