Transtorno do espectro autista (TEA), conforme denominado peloDSM-5, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais,[1][2] também conhecido pela sua denominação antiga (DSM IV),autismo, é umtranstorno neurológico caracterizado porcomprometimento da interação social, comunicaçãoverbal enão verbal e comportamentos ou interesses restritos e repetitivos.[3] É fundamental entender que o TEA não é uma doença, mas sim umacondição do neurodesenvolvimento humano que afeta a forma como as pessoas autistas percebem e interagem com o mundo ao seu redor. Isso inclui não apenas a forma como elas processam informaçõessensoriais, mas também como elas se relacionam com os outros e compreendem as nuances sociais.[4] Os sinais geralmente desenvolvem-se de forma diferente em cada pessoa e estão sempre presentes desde aprimeira infância, no entanto, estes sinais podem permanecer despercebidos durante a infância e a juventude, tornando-se maisperceptíveis ou intensos com o passar do tempo. Em alguns casos, a criança autista alcança o marco de desenvolvimento em um ritmo normal e depois regride, perdendo habilidades sociais,comunicativas epsicomotoras anteriormente aprendidas, o que é chamado deautismo regressivo.[5][6]
O autismo é normalmentehereditário, mas a causa inclui tantofatores ambientais[7] quantopredisposição genética.[8][2][9][10][11] Em casos raros, o autismo é fortemente associado a agentes que causam defeitoscongênitos.[12] Controvérsias em torno de outras causas ambientais propostas;[13] a hipótese dedanos causados porvacinas[14] são biologicamente improváveis e têm sido refutadas em estudoscientíficos. Os critériosdiagnósticos exigem que os sintomas se tornem aparentes antes da idade de três anos.[15][16] Os transtornos do espectro autistaafetam o processamento de informações no cérebro, alterando as conexões e a organização das células nervosas.[17] Transtornos antes classificados separadamente, como aSíndrome de Asperger e oTranstorno global do desenvolvimento sem outra especificação — comumente abreviado como PDD-NOS (sigla em inglês) ou Transtorno pervasivo do desenvolvimento sem outra especificação — comumente abreviado como TID-SOE (sigla em português)[18] — hoje fazem parte de uma única classificação diagnóstica, tanto noDMS-5 (código 299.0) quanto naCID-11 (código 6A02),[19][20][21] o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA).[2]
Intervenções precoces em deficiências comportamentais,cognitivas ou da fala podem ajudar as crianças autistas a ganharautonomia e habilidades sociais e de comunicação.[22] Não existe cura conhecida,[22] há relatos de casos de crianças que se recuperaram.[23] Poucas crianças autistas vivem de forma independente depois de atingir a idade adulta, embora algumas tenham sucesso.[24] Tem se desenvolvido uma cultura do autismo, com alguns indivíduos buscando uma cura enquanto outros creem que o autismo deve ser aceito como uma diferença e não tratado como um transtorno.[25]
Conforme Lima e Legnani (2020), uma contribuição relevante é a inclusão de estudantes com autismo no campo da educação, uma vez que asocialização e o incentivo ao protagonismo nesse processo pode contribuir com a busca e o interesse pelos conhecimentos, assim como superar alguns dos sinais do autismo.[26] A capacidade de flexibilizar as regras para os alunos com autismo demonstra uma prática educativa voltada para o sujeito, característica marcante da educação pautada naética dapsicanálise. Segundo Lajonquière (2010), essa forma de conceber a educação passa pela via da palavra. É necessário escutar, pois, as pistas de como trabalhar ali comparecem. O ato de escutar a criança com problemas psíquicos além de ser uma aposta no sujeito é a possibilidade de que esse aluno seja acolhido, ensinado, sem a pretensão de normalizá-lo.[27]
Desde 2010, a taxa de autismo é estimada em cerca de 1–2 a cada 1.000 pessoas em todo o mundo, sendo mais fácil de identificar em meninos (4–5 vezes mais em meninos do que meninas). Cerca de 1,5% das crianças nos Estados Unidos (uma em cada 68) são diagnosticadas com TEA, a partir de 2014, houve um aumento de 30%, uma a cada 88, em 2012.[28][29][30] Em 2014 e 2016, os números foram de 1 em 68.[31] Em 2018, um aumento de 15%[32] no diagnóstico elevou a prevalência em 1 para 59 crianças.[32][31][33] A taxa de autismo em adultos de 18 anos ou mais no Reino Unido é de 1,1%[34] o número de pessoas diagnosticadas vem aumentando drasticamente desde a década de 1980, em parte devido a mudanças na prática do diagnóstico e incentivos financeiros subsidiados pelo governo para realizar diagnósticos;[30] a questão se as taxas reais têm aumentado realmente, ainda não é conclusiva.[35]
No Brasil, ainda não há número precisos, muito menos oficiais a respeito de epidemiologia dos casos de autismo. O único estudo brasileiro sobre epidemiologia de autismo,[36][37][38] foi feito em 2011, um estudo-piloto ainda numa amostragem pequena, apenas 20 mil pessoas, num bairro da cidade deAtibaia (SP), resultando em 1 caso a cada 367 crianças.[39] Em 5 de novembro de 2018, a Spectrum News lançou um mapa mundi online, em inglês, com todos os estudos científicos publicados de prevalência de autismo mundo afora.[40][41]
Características
Crianças autistas geralmente têm um número reduzido de interesses e repetem os mesmos comportamentos rotineiramente[42]
O autismo é um transtorno neurológico altamente variável,[43] que aparece pela primeira vez durante a infância ou adolescência e geralmente segue um curso estável, sem remissão.[44] Os sintomas evidentes começam gradualmente após a idade de seis meses, mas geralmente estabelecem-se entre os dois ou três anos[45][46] e tendem a continuar até aidade adulta, embora muitas vezes de forma mais moderada.[47] Destaca-se não por um único sintoma, mas por uma tríade de sintomas característicos: prejuízos na interação social, deficiências na comunicação e interesses ecomportamento repetitivo e restrito. Outros aspectos, como comer atípico ou seletividade alimentar também são comuns, mas não são essenciais para o diagnóstico.[48] Os sintomas individuais de autismo ocorrem na população em geral e não são sempre associados à síndrome quando o indivíduo tem apenas alguns traços, de modo que não há uma linha nítida que separe traços patologicamente graves de traços comuns.[49]
Desenvolvimento social
Déficits sociais distinguem o autismo dos transtornos do espectro do autista de outrostranstornos do desenvolvimento.[47] As pessoas com autismo têm prejuízos sociais e muitas vezes falta a intuição sobre os outros que muitas pessoas consideram trivial. A notável autistaMary Temple Grandin descreveu sua incapacidade de compreender acomunicação social deneurotípicos (nomenclatura utilizada para se referir a pessoas com o desenvolvimento neural normal), como "sentindo-se como uma antropóloga em Marte".[50]
Comunicação
Cerca de um terço dos indivíduos com autismo não se desenvolvem o suficiente para ter uma fala natural e que satisfaça suas necessidades diárias de comunicação.[51][2][52][53] As diferenças na comunicação podem estar presentes desde o primeiro ano de vida e podem incluir o início tardio do balbucio, gestos incomuns, capacidade de resposta diminuída e padrões vocais que não estão sincronizados com o cuidador. No segundo e terceiro anos, as crianças com autismo têm menos balbucios frequentes e consoantes, palavras e combinações de palavras menos diversificadas; seus gestos são menos frequentemente integrados às palavras. As crianças com autismo são menos propensas a fazer pedidos ou compartilhar experiências e são mais propensas a simplesmente repetir as palavras dos outros (ecolalia)[54][55] ou reverterpronomes, trocando o "eu" pelo "você", por exemplo. A atenção conjunta geralmente temprejuízo, fazendo com que não apontem um objeto que julguem interessante com o intuito de comentar ou compartilhar a experiência com alguém, bem como não demonstram interesse no que outra pessoa deseja compartilhar.Déficits de atenção são comuns em crianças com TEA.[18] As crianças com autismo podem ter dificuldade em jogos imaginativos e com o desenvolvimento de símbolos em linguagem.[54][55]
Em um par de estudos, as crianças autistas altamente funcionais entre 8 e 15 anos de idade concluíram igualmente bem ou melhor individualmente do que os adultos pareados, em tarefas de linguagem básica que envolvem vocabulário e ortografia. Ambos os grupos autistas desempenharam pior do que os controles nas tarefas complexas da linguagem como a linguagem figurativa, compreensão e inferência.[56][56]
Comportamentos repetitivos
Indivíduos autistas exibem muitas formas de comportamento repetitivo ou restrito, que o Repetitive Behavior Scale-Revised (RBS-R)[57]categoriza como se segue.
Estereotipia é o movimento repetitivo, como agitar as mãos, virar a cabeça de um lado para o outro ou balançar o corpo.[58]
Comportamento compulsivo destina-se e parece seguir regras, como organizar objetos em pilhas ou linhas.
Uniformidade é a resistência à mudanças; por exemplo, insistir que os móveis não sejam movidos ou recusando-se a ser interrompido.
Comportamento ritualista envolve um padrão invariável de suas atividades diárias, como um menu imutável ou um ritual de vestir. Isto está intimamente associado com a uniformidade, onde uma validação independente sugeriu a combinação dos dois fatores.[57]
Comportamento restrito é o foco limitado em um só interesse ou atividade, como a preocupação com um programa de televisão, brinquedo ou jogo.
Automutilação inclui movimentos que ferem ou podem ferir a pessoa, como o dedo nos olhos, bater a cabeça ou morder as mãos.[18] Cutucar feridas, arranhar-se ou pressionar alguma parte do corpo contra um objeto ou superfície que machuque também são formas de automutilação/autoagressão.
Nenhum comportamento repetitivo ouautodestrutivo parece ser específico para o autismo, mas o autismo parece ter um padrão elevado de ocorrência e gravidade destes comportamentos.[59]
Outros sintomas
Indivíduos autistas podem ter sintomas independentes do diagnóstico, mas que pode afetar o indivíduo ou a família.[48] Estima-se que 0,5% a 10% dos indivíduos com TEA mostram habilidades incomuns, variando de habilidades dissidentes, como a memorização de trívias até talentos extremamente raros deautistas savants prodígios.[60]
Muitos indivíduos com TEA demonstram habilidades superiores de percepção e atenção, em relação à população em geral.[61] Anormalidades sensoriais são encontrados em mais de 90% das pessoas com autismo, e são consideradas como principais recursos por alguns,[43] embora não haja nenhuma boa evidência de que sintomas sensitivos diferenciam o autismo de outros transtornos do desenvolvimento.[62]
As diferenças são maiores para baixa resposta (por exemplo, caminhar ou pisotear coisas) do que para super resposta (por exemplo, irritação por ruídos altos) ou para a busca de sensações (por exemplo, movimentos rítmicos).[63] Estima-se que 60%–80% das pessoas autistas têm sinais motores que incluem tonicidade muscular pobre,falta de planejamento motor e andar na ponta dos pés;[43] déficits na coordenação motora existem em todo o TEA e são maiores no autismo propriamente.[64] O livro O Robot Autista[65] sugere que todos os sintomas têm origem num funcionamento deficiente das emoções.
Comportamento alimentar atípico pode incluir preferências alimentares severamente limitadas,hipersensibilidade à textura ou temperaturas dos alimentos, e também esconder alimentos na boca sem engolir, tal ação é um sintoma de autismo em uma criança.[66]
Presume-se que há uma causa comum genética, cognitiva e de níveis neurais para a tríade de sintomas característica do autismo.[68] No entanto, há a suspeita crescente de que o autismo é um distúrbio mais complexo, cujos aspectos centrais têm causas distintas que podem co-ocorrer muitas vezes.[68][69] O autismo tem fortes bases ambientais, sofrendo interferências de pisos devinil.[70]
O autismo tem uma forte base genética, embora a genética do autismo é complexa e não está claro se o TEA é explicado por mutações mais raras, com grandes efeitos, ou ainda por interações multigênicas raras de variantes genéticas comuns.[71][72] A complexidade surge devido a interações entre múltiplos genes, o meio ambiente e fatoresepigenéticos que não alteram oDNA, mas que são hereditários e influenciam a expressão do gene.[47] Estudos de gêmeos sugerem que a hereditariedade é de 0,7 para o autismo e tão alto quanto 0,9 para TEA, e irmãos de pessoas com autismo são cerca de 25 vezes mais suscetíveis de serem autistas do que a população em geral.[43]
Estudos do sequenciamento do material genético de indivíduos autistas identificaram mais de 102 genes relacionados a esse transtorno, sendo 49 deles com formas mais graves de atraso no neurodesenvolvimento.[73][74] No entanto, por não se tratar de uma herança de transmissãomendeliana simples, há uma grande dificuldade em predizer o número de regiões genéticas que contribuem para a manifestação da síndrome.[75]
Uma das mutações foi identificada em um paciente por uma deleção heterozigótica no gene NRXN2, ocasionando uma terminação prematura que gera uma incapacidade da proteína mutante de se ligar aos seus parceiros usuais. Isso gerou uma perda de função, desencadeando o TEA.[76]
Mecanismo
Os sintomas do autismo resultam de mudanças relacionadas à maturação em vários sistemas do cérebro. Como autismo ocorre ainda não é bem compreendido. O seu mecanismo pode ser dividido em duas áreas: a fisiopatologia das estruturas cerebrais e processos associados ao autismo, e as ligações entre as estruturas neuropsicológicas e comportamentos cerebrais.[77] Os comportamentos parecem ter múltiplas patofisiologias.[49]
Patofisiologia
Diferente de muitas outras doenças cerebrais, como omal de Parkinson, o autismo não tem um mecanismo claro de unificação, seja a nível molecular, celular ou nos sistemas; não se sabe se o autismo é composto de algumas desordens causadas por mutações convergentes em algumas vias moleculares comuns, ou se é (como adeficiência intelectual) um grande conjunto de doenças com diversos mecanismos.[78]
Neuropsicologia
Duas grandes categorias de teorias cognitivas têm sido propostas sobre as relações entre cérebro e comportamento autista.
A primeira categoria se concentra no déficits da cognição social. A Teoria sistematização-empatia deSimon Baron-Cohen postula que indivíduos autistas podem sistematizar, isto é, eles podem desenvolver regras internas de funcionamento para lidar com eventos no interior do cérebro, mas são menos eficazes na empatia por manipulação de eventos gerados por outros agentes. Uma extensão, a teoria do cérebro extremamente masculino é a hipótese de que o autismo é um caso extremo do cérebro masculino, definido psicometricamente como indivíduos nos quais a sistematização é melhor do que a empatia.[79]
A segunda categoria se concentra no processamento não social ou geral: as funções executivas, como memória de trabalho, planejamento, inibição. Em sua avaliação, Kenworthy afirma que "a alegação de disfunção executiva como um fator causal no autismo é controversa", no entanto, "é evidente que a disfunção executiva desempenha um papel nos déficits sociais e cognitivos observados em indivíduos com autismo".[80]
Diagnóstico
O diagnóstico do autismo baseia-se no comportamento e não nas causas ou mecanismo.[49][81] O autismo é definido noDSM-IV-TR, tal como exibindo pelo menos seis sintomas no total, incluindo pelo menos dois sintomas de deficiência qualitativa na interação social, pelo menos, um sintoma de deficiência qualitativa em comunicação, e pelo menos um sintoma de comportamento restrito e repetitivo. Sintomas da amostra incluem falta de reciprocidade social ou emocional, uso estereotipado e repetitivo da linguagem ou linguagem idiossincrática e preocupação persistente com partes de objetos. O início deve ser anterior a idade de três anos com atrasos ou funcionamento anormal em qualquer interação social, linguagem usada na comunicação social ou jogo simbólico ou imaginativo. A perturbação não deve ser melhor explicada porsíndrome de Rett ouTranstorno desintegrativo da infância.[15] OCID-10 utiliza essencialmente a mesma definição.[44]
O autismo afeta, em média, uma em cada 59[29] crianças nascidas nosEstados Unidos, segundo o CDC (sigla em inglês paraCentro de Controle e Prevenção de Doenças), do governo daquele país, com números de 2014, divulgados em março de 2018[32][31][33] — no Brasil, porém, ainda não há estatísticas a respeito do TEA.[82] Em2010, noDia Mundial de Conscientização do Autismo,2 de abril, aONU declarou que, segundo especialistas, acredita-se que o transtorno atinja cerca de 70 milhões de pessoas em todo o mundo, afetando a maneira como esses indivíduos se comunicam e interagem.[83][84] O aumento dos números de prevalência de autismo levanta uma discussão importante sobre haver ou não uma epidemia da síndrome no planeta, ainda em discussão pela comunidade científica.[85] No Brasil, foi realizado o primeiro estudo de epidemiologia de autismo da América Latina,[86][87] publicado em fevereiro de 2011 — com dados de 2010 —, liderado pelo psiquiatra da infânciaMarcos Tomanik Mercadante (1960—2011), num projeto-piloto com amostragem de 20 mil pessoas[39] num bairro da cidadepaulista deAtibaia,[88] aferiu a prevalência de um caso de autismo para cada 368 crianças de 7 a 12 anos.[86][87]
Um dos mitos comuns sobre o autismo é de que pessoas autistas vivem em seu mundo próprio, interagindo com o ambiente que criam; isto não é verdade.[89] Se, por exemplo, uma criança autista fica isolada em seu canto observando as outras crianças brincarem, não é porque ela necessariamente está desinteressada nessasbrincadeiras ou porque vive em seu mundo. Pode ser que essa criança simplesmente tenha dificuldade de iniciar, manter e terminar adequadamente uma conversa. Muitos cientistas atribuem esta dificuldade àcegueira mental,[90] uma compreensão decorrente dos estudos sobre aTeoria da Mente.
Um vídeo de aconselhamento governamental sobre autismo emPaís de Gales, com legendas em português
Os principais objetivos no tratamento de crianças com autismo são:[91]
Estimular o desenvolvimento social e comunicativo;
Aprimorar o aprendizado e a capacidade de solucionar problemas;
Diminuir comportamentos que interferem com o aprendizado e com o acesso às oportunidades de experiências do cotidiano e
Ajudar as famílias a lidarem com o autismo.
Para diminuir os déficits associados e a angústia da família e para aumentar a qualidade de vida e independência funcional, não existe um tratamento único melhor; deve ser personalizado conforme para as limitações e necessidades da pessoa.[22] As famílias, terapias e o sistema de ensino são os principais recursos para o tratamento.[17] O tratamentopsicológico com evidência de eficácia, segundo aAssociação Americana de Psiquiatria, é a terapia de intervenção comportamental — aplicada por psicólogos. A mais usada delas é oABA (sigla em inglês para Applied Behavior Analysis — em português, análise aplicada do comportamento). Como o tratamento para autismo é interdisciplinar, ou seja, além da psicologia, pacientes podem se beneficiar com intervenções defonoaudiologia,terapia ocupacional, entre outros profissionais.[92][2]
Anúncio de uma possível cura
Em 2018, pesquisadores da Universidade do Texas anunciaram ter descoberto como usar uma ferramenta de edição de genesCRISPR/Cas para apagar traços genéticos normalmente associados ao autismo.[93] Essa tecnologia foi justificada com a alegação de que poderia um dia revolucionar as terapias que tratam o autismo e melhorar a vida de milhares de autistas.[94]
Oposição à cura
Autistas e familiares defensores daneurodiversidade e da aceitação do autismo posicionam-se contra as propostas de curar o autismo, inclusive chegando a comparar propostas deste tipo àeugenia.[95] Argumentos desta oposição incluem:
O autismo não deveria ser considerado uma doença e, portanto, não é algo que se deva "curar";[96]
O problema real não é a condição, mas sim o preconceito e discriminação contra autistas e o despreparo da sociedade em incluir plenamente essas pessoas e atender-lhes as necessidades específicas;[97]
A promessa de "curar" o autismo integraria todo um paradigma de patologização, estigmatização e não aceitação dasdiferenças neurológicas, o qual, muitas vezes, implica terapias que tentam forçar a "correção" de comportamentos autísticos inofensivos, como a falta ou dificuldade de contato visual, osstims, preferências pessoais tidas como "esquisitas" pela sociedade, entre outras.[97] Tais terapias, entre elas aAnálise do comportamento aplicada, são consideradas abusivas e violentas pelos autistas e, não raramente, lhes causa traumas e outros danos psicológicos e também transtornos mentais;[98]
As propostas de "cura do autismo" seriam comparáveis à também repudiada defesa da"cura gay";[99]
Defender e buscar a "cura" do autismo implicaria argumentar que o autismo e, por tabela, os autistas não devem ser aceitos e incluídos pela sociedade e, ao invés de terem seu jeito de ser respeitado e suas necessidades específicas devidamente atendidas, deveriam ser "consertados" de modo a se encaixar numa sociedade que não respeita as diferenças. Tal posicionamento acaba incentivando mais preconceito, estigmatização, marginalização, discriminação e violência contra autistas. No extremo, representa um desejo de que os autistas deixem de existir, juntamente com suas personalidades, jeitos de ser e contribuições positivas para o mundo;[97]
"Curar" o autismo implicaria desde diminuir ou eliminar todos os aspectos considerados positivos da condição, como a personalidade autêntica, a sinceridade, a não adesão aos costumes de mentir e julgar outras pessoas, a aversão a fazer "jogos" sociais e psicológicos com outras pessoas e esconder o que sente e pensa, a grande inteligência e curiosidade do autista em seus hiperfocos, o desapego de expectativas sociais (como a de quehomens "devem" gostar muito de futebol, ter fetiche por carros, sexualizar mulheres, ser violentos e pouco sentimentais etc.) e desejos materiais que lhes são pouco ou nada necessários, a avantajadamemória de longo prazo etc.,[100] até mesmo fazer a pessoa autista, com sua personalidade, virtudes, gostos, desejos, paixões, sonhos etc., deixar de existir e dar lugar, no mesmo corpo, a um indivíduo muito ou totalmente diferente.[101]
Em 1999, o médicoAndrew Wakefield publicou o artigoMMR vaccination and autism, estabelecendo uma suposta relação entre avacina tríplice e o autismo.[102] Diversos estudos médicos foram conduzidos desde então a fim de se comprovar ou não essa relação, sendo que não houve evidências nesses novos estudos acerca dessa hipótese. Em 2010, o Conselho Médico Geral britânico (em inglês, General Medical Council) considerou que o dr. Wakefield agiu de maneira aética e desonesta ao vincular a vacina tríplice ao autismo e cassou seu registro profissional noReino Unido em maio de 2010.[103] Ainda de acordo com o Conselho Médico Geral britânico, a sua conduta trouxe má reputação à profissão médica depois que ele coletou amostras de sangue de jovens na festa de aniversário de seu filho pagando-lhes £5. Considera-se também que osarampo tenha ressurgido noReino Unido devido ao receio dos pais em aplicarem a vacina tríplice em seus filhos: as taxas de vacinação nunca mais voltaram a subir e surtos da doença tornaram-se comuns.[104]
Dez anos após a publicação do artigo o periódico publicou uma completa retratação[105] após as declarações do Conselho Médico Geral britânico.
Nos últimos dez anos uma dezena de pesquisas realizadas na tentativa de encontrar uma correlação entre a vacina tríplice e autismo não acharam nenhuma evidência que comprovasse os dados preliminares do artigo de Wakefield.[106] Várias famílias foram influenciadas pela polêmica criada pela mídia logo após a publicação do artigo de Wakefield e hoje, noReino Unido e nosEstados Unidos, doenças, como oSarampo,[107] consideradas extintas devido a aplicação de vacinas regulares voltaram a matar crianças em famílias que resolveram não vacinar seus filhos.[108]
No dia 22 de setembro de 2025, o governo dos Estados Unidos anunciou que o uso deparacetamol na gravidez poderia estar associado ao risco de autismo, decisão apresentada pelo presidenteDonald Trump e pelo secretário de SaúdeRobert F. Kennedy Jr., com promessa de mudanças nos alertas doFDA (órgão regulador equivalente à Anvisa no Brasil), com provas cientificamente muito frágeis.[109][110][111][112] Em contraponto a esse anúncio, a revistaNature se pronuncio contra a informação,[113] assim como aUnião Europeia e aOMS.[114] Diversos médicos[109] e associações ligadas à ciência refutaram a afirmação e citaram um estudosueco,[115] com 2,4 milhões de crianças, que contesta a ligação entre paracetamol e autismo.[116][117]
História
Foi descrito pela primeira vez em1925 porGrunya Sukhareva, uma psiquiatra infantilsoviética, publicado em um artigo originalmente em russo e traduzida para o alemão no ano seguinte,[118] na revistaMonatsschrift für Psychiatrie und Neurologie vol. 3-4, p. 235–247. Sua descrição de sintomas e características em muito se assemelha aos itens diagnósticos atuais.[119] Anos depois, em1943, foi descrito pelo médicoaustríacoLeo Kanner, trabalhando noJohns Hopkins Hospital, em seu artigoAutistic disturbance of affective contact, na revistaNervous Child, vol. 2, p. 217–250. No mesmo ano, o também austríacoHans Asperger descreveu, em sua tese de doutorado, apsicopatia autista da infância. Embora ambos fossem austríacos, devido àSegunda Guerra Mundial não se conheciam.[120]
Discute-se ainda o motivo exato do trabalho de Sukhareva não ter sido citado pelos autores em suas investigações, como por questões políticas envolvidas; Asperger era afiliado aoPartido Nazista e Sukhareva possuía ascendência judaica.[121] Além disso, como o trabalho da pesquisadora já havia sido traduzido e publicado em alemão um ano depois, não existia nenhuma barreira ao acesso a estes materiais por parte de Asperger e Kanner, o qual até citou a publicação de Sukhareva de 1932, Über den Verlauf der Schizophrenien im Kindesalter em artigos publicados em 1949 e 1962.[122]
A palavra "autismo" foi criada porEugen Bleuler, em1911, para descrever um sintoma daesquizofrenia, que definiu como sendo uma "fuga da realidade". Sukhareva inicialmente usou o termo "psicopatia esquizóide" para descrever o quadro clínico observado em suas investigações; Kanner em seu trabalho chamou de "distúrbios autistas de contato afetivo"; e Asperger denominou o transtorno de "psicopatia autista na infância".[120]
O trabalho de Asperger só veio a se tornar conhecido nos anos1970, quando a médicainglesaLorna Wing traduziu seu trabalho para oinglês. Foi a partir daí que um tipo de autismo de alto desempenho passou a ser denominadosíndrome de Asperger.[120]
Nosanos 1950 e1960, o psicólogoBruno Bettelheim afirmou que a causa do autismo seria a indiferença da mãe, que denominou de "mãe-geladeira". Nos anos 1970 essa teoria foi rejeitada e passou-se a pesquisar as causas do autismo. Hoje, sabe-se que o autismo está ligado a causasgenéticas associadas a causas ambientais. Dentre possíveis causas ambientais, a contaminação por metais pesados, como omercúrio e oChumbo, têm sido apontada como forte candidatos, assim como problemas nagestação. Outros problemas, como uso dedrogas na gravidez ou infecções nesse período, também devem ser considerados.[123]
Apesar do grande número de pesquisas e investigações clínicas realizadas em diferentes áreas e abordagens de trabalho, não se pode dizer que o autismo é um transtorno claramente definido. Há correntes teóricas que apontam as alterações comportamentais nos primeiros anos de vida (normalmente até os 3 anos) como relevantes para definir o transtorno, mas hoje se tem fortes indicações de que o autismo seja um transtorno orgânico. Apesar disso, intervenções intensivas e precoces são capazes de melhorar os sintomas.[124]
Em novembro de2010, a ciência falou pela primeira vez em cura do autismo, com a publicação na revista científicaCell[127][128] da descoberta de um grupo de cientistas nos EUA, com o pesquisador brasileiroAlysson Muotri, na Universidade da Califórnia, que conseguiu "curar" um neurônio "autista" em laboratório. O estudo, que se baseou naSíndrome de Rett (um tipo de autismo com maior comprometimento e com comprovada causa genética).[129]
Em 2012, o Brasil sancionou a “Lei Berenice Piana” — Lei 12.764,[130] de 2012 —, que criou a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro do Autismo, regulamentada pelo Decreto 8.368,[131] de 2014.
Em maio de 2013, saiu a versão atualizada doManual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais, o DSM-5 — substituindo o DSM-IV, criado em 1994 e revisado em 2000 — que cunhou o termo técnicoTranstorno do Espectro Autista (TEA), integrando todos os transtornos do espectro, sob o código 299.0.[1][2]
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