Alepo[1] (emárabe:حلب;romaniz.:ˈħalab; emturco:Halep) é umacidade no norte daSíria, sendo a segunda maior cidade do país, capital daprovínciahomônima. A província se estende em torno da cidade, cobrindo uma área de 18 482 quilômetros quadrados, e abrangendo uma população de mais de 4,6 milhões habitantes (estimativa de 2010),[2] o que faz dele a maior província da Síria em termos de população. Alepo é uma dascidades mais antigas do mundo, tendo sido habitada desde5 000 a.C., o que é evidenciado pelos edifícios residenciais descobertos emTell Qaramel.[3] Ocupa uma posição comercial estratégica entre omar Mediterrâneo e orio Eufrates, e foi construída inicialmente sobre um pequeno grupo de morros que cerca um monte onde ocastelo da cidade foi construído.[4] O pequenorio Queique (قويق) cruza a cidade.
Por séculos Alepo foi a maior cidade daGrande Síria, e a terceira doImpério Otomano, depois apenas deConstantinopla eCairo. Embora esteja relativamente perto deDamasco em termos de distância, Alepo é diferente em sua identidade,arquitetura ecultura, todas marcadas por um contexto histórico-geográfico distinto.
A importância da cidade na história consistiu de sua localização, no fim daRota da Sedaasiática que cruzava aÁsia Central e aMesopotâmia. Quando ocanal de Suez foi inaugurado em 1869, o comércio passou a ser realizado pelo mar e Alepo começou seu declínio gradual. Com a queda do Império Otomano, após aPrimeira Guerra Mundial, Alepo perdeu a área rural ao norte da cidade para a atualTurquia, bem como a importantelinha férrea que a ligava aMoçul. Na década de 1940 perdeu seu principal acesso ao mar,Antioquia eAlexandreta (Isquenderum), também para a Turquia. Finalmente, o isolamento da Síria nas últimas décadas contribuiu para exacerbar a situação. Paradoxalmente, este declínio pode ter ajudado a preservar a antiga cidade de Alepo, sua arquiteturamedieval e seu patrimônio tradicional. Alepo tem passado por um renascimento e vem voltando lentamente a uma posição de destaque, tendo conquistado recentemente o título de "Capital Islâmica da Cultura" em 2006 e testemunhado uma onda de restaurações bem-sucedidas de seus monumentos.
Entre 2012 e 2016, Alepo foi palco deintensas batalhas, que deixou boa parte da cidade em ruínas e causou milhares de mortos.[5]
Alepo foi conhecida naAntiguidade comoKhalpe,Khalibon, e, para osantigos gregos, comoBeroea. Durante asCruzadas, e novamente durante o mandatofrancês, o nomeAlep foi utilizado:"Aleppo" seria a versãoitalianizada do nome. O antigo nome,Halab, no entanto, tem origem obscura. Já se foi proposto que significaria "ferro" ou "cobre" nalíngua amorita, já que a região foi uma importante fonte destes metais em tempos antigos.Halaba significa "branco" emaramaico, e poderia referir-se à cor do solo e domármore abundante no local. Outra etimologia proposta é a de que o nomeHalab significa "dar leite", e viria da antiga tradição na qualAbraão teria dado leite aos viajantes que passavam pela região.[6] A cor de suas vacas era acinzentada (em árabeshaheb), e portanto a cidade também é chamada de"Halab ash-Shahba'" ("ele tirou leite da acinzentada").
O fato da cidade moderna ocupar o local da antiga fez com que Alepo tenha permanecido praticamente intocada pelosarqueólogos até os dias de hoje. O sítio foi ocupado desde por volta do ano5 000 a.C., como mostram escavações em Tallet Alsauda, e cresceu como capital do reino deIamade até que a dinastiaamorita no poder fosse derrubada, por volta de1 600 a.C.. A cidade permaneceu então sob controlehitita até por volta de800 a.C., quando passou para as mãos dosassírios e, em seguida, para oImpério Aquemênida.Alexandre, o Grande conquistou a cidade em333 a.C., quandoSeleuco Nicátor mudou o seu nome para Beroia, em homenagem àcidade homônima naMacedônia. Alepo permaneceu sob controle grego por 300 anos antes de passar a ser governada pelo pelosromanos, quando estes conquistaram aSíria em64 a.C.
Em 11 de outubro de 1138[7][8][9] umterremoto catastrófico devastou a cidade e a área ao seu redor. Embora as estimativas da época sejam pouco confiáveis, acredita-se que cerca de 230 000 pessoas tenham morrido, fazendo dele oquinto terremoto mais grave, em termos de números de vítimas, que se tem registro.
A cidade passou para o controle deSaladino e, posteriormente, da dinastiaAiúbida, a partir de 1183.
Em 24 de janeiro de 1260[10] a cidade foi conquistada pelosmongóis, comandados porHulagu, e aliados a seus vassalos, os cavaleirosfrancos do príncipe deAntioquia,Boemundo IV e seu sogro, o soberanoarmênioHetum I.[11] A cidade foi defendida com bravura porTurã Xá, porém suasmuralhas cederam após seis dias de bombardeio intenso, e acidadela foi conquistada quatro semanas mais tarde. A populaçãoislâmica foi massacrada, enquanto oscristãos foram poupados. Turã Xá recebeu um tratamento respeitoso pouco comum da parte dos mongóis, e pôde continuar a viver na cidade devido à sua idade e coragem durante o combate. Alepo retornou então às mãos do antigo Emir deHoms,Axerafe Muça, e um forte mongol foi erguido na cidade. Alguns dos espólios da conquista foram dados a Hetum I, por seu auxílio no ataque; o exército mongol, no entanto, prosseguiu paraDamasco, que se rendeu e foi invadida em 1 de março do mesmo ano.
Em setembro, osmamelucosegípcios negociaram um tratado com os francos deAcre, permitindo que passassem por território cruzado sem serem molestados, e enfrentaram os mongóis naBatalha de Aim Jalute. Os mamelucos conquistaram uma vitória decisiva, matando ogeneral mongolQuedebuga, umcristãonestoriano, e cinco dias mais tarde tinham reconquistado Damasco. Alepo foi recuperada pelos muçulmanos em pouco menos de um mês, e um governador mameluco passou a administrar a cidade. Hulagu enviou tropas para tentar recuperá-la em dezembro do mesmo ano; estas tropas chegaram a massacrar um grande número da população islâmica local, em retaliação à morte de Quedebuga, porém como não haviam feito grandes progressos depois de duas semanas acabaram por recuar.[12]
Quando o governador mameluco insubordinou-se à autoridade central mameluca, noCairo, no outono de 1261, o líder mamelucoBaibars despachou tropas para reconquistar a cidade. Em outubro de 1271 os mongóis reconquistaram a cidade, após atacá-la com 10 000 cavaleiros daAnatólia, derrotando as tropasturcomanas que a defendiam. Os ocupantes dos fortes mamelucos fugiram paraHama, até que Baibars novamente veio para o norte com seu exército principal, e os mongóis recuaram mais uma vez.[13]
No começo de 2011, a Síria foi tomada por uma onda de protestos e violência que visava derrubar o ditadorBashar al-Assad do poder. Como resultado, o país foi engolidoem uma brutal guerra civil, que deixou milhares de mortos. Não demorou muito e os combates entre aoposição síria, gruposjihadistas e o governo sírio eclodiram em Alepo, a mais importante cidade do país. Inicialmente, em meados de 2012, os rebeldes foram bem sucedidos em tomar várias porções de Alepo, especialmente no leste, mas o regime Assad contra-atacou. O que se seguiu foram quase quatro anos de uma guerra de atrito pelo controle da cidade mais importante, comercialmente falando, da Síria. Nenhum lado parecia capaz de dar um golpe decisivo no outro, enquanto milhares de civis deixavam suas casas. A situação humanitária na região foi descrita como "catastrófica". Contudo, no começo de 2016, as tropas doexército sírio leais aosAssad começaram a ganhar terreno, principalmente devidoao grande apoio (econômico e militar) vindo daRússia. Em junho, as forças do regime e seus aliados lançaram uma grande ofensiva e em dezembro de 2016 já haviam retomado praticamente toda a cidade de Alepo. A região ficou em ruínas, com mais de 100 mil pessoas morrendo, mas a vitória do governo sírio foi descrito como "decisiva" naquela fase do conflito. Atualmente, Alepo é uma sombra da vibrante cidade comercial que outrora foi, com sua população pré-guerra sendo reduzida a bem menos da metade e seus principais centros urbanos estraçalhados por anos de violentos combates.[14][15]
Oito anos após o fim dos combates na cidade, os rebeldes retornaram a Alepo e em questão de horas tomaram várias partes da região. Em 29 de novembro de 2024, grupos daOposição síria, liderados peloHayat Tahrir al-Sham, afirmaram que haviamassumido o controle completo da cidade, com as forças pró-governo Assad debandando em massa.[16][17]